OPINIÃO

Bombas contra o PT: como chegamos até aqui?

10/08/2015 17:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
dfactory/Flickr
. . . www.vice.com/pt_br/read/segundo-ato-contra-a-copa-sao-pau... "Ontem foi um dia que meteu medo. Nós estávamos com medo de simplesmente fazer nosso trampo, que é acompanhar a manifestação. Medo de apanhar, medo de tomar bala, medo de ser preso. Não à toa, pessoas de nossa equipe apanharam. Quem estava na rua, fosse manifestante, jornalista ou civil, teve medo. Dizem que viver em São Paulo é perigoso. É mesmo, pra caralho – se você é negro, pobre, morador da periferia. E se você é manifestante ou jornalista." . . Vídeo: www.vice.com/pt_br/vice-news/segundo-ato-nao-vai-ter-copa... .

Segundo o professor Pablo Ortellado, o ataque ao Instituto Lula com o que aparentemente seria uma bomba caseira foi o terceiro ataque a uma sede do PT ou instituição ligada a ele, sem contar os casos de agressão ou tentativa de agressão contra pessoas ligadas ou supostamente ligadas ao PT e figuras públicas do partido.

Temos dois cenários diante do ataque ao Instituto Lula: Primeiro, assumindo que o ato foi cometido por criminosos de direita, temos que nos preocupar (e repudiar veementemente). Segundo, podemos interpretar também como um trabalho interno ou um inside job, ao melhor estilo House of Cards. Sim, ambos os cenários são possíveis, e basta dar uma olhada ao tom vitimista da militância petista para ter ideia de que o ataque - repudiável no primeiro cenário - acabou servindo ainda mais aos propósitos do partido de continuar com sua postura de vítima de tudo e de todos (e ainda podendo alavancar um projeto muito querido de lideranças do governo, a perigosa lei Antiterrorista)

Sobre as tais ofensas a políticos do partido, bem, aí me desculpem, mas há alguns meses o Levante Popular, grupo ligado ao PT, realizava escrachos contra ex-agentes da Ditadura. Não, não estou comparando políticos petistas com torturadores (pese muitos hoje estarem aliados, Maluf que o diga), mas apenas deixando claro que figuras políticas do presente e do passado são alvos legítimos de insatisfação popular não-violenta. Da mesma forma que se eu encontrasse o Bolsonaro na rua provavelmente teria algo a dizer contra ele, não vou dizer que xingar o Mantega é algo inaceitável ou "fascismo" apenas por discordar da posição ideológica do "atacante".

E a solidariedade em junho?

É muito interessante que o PT automaticamente exija solidariedade frente ao ataque ao Instituto Lula quando não foi capaz de demonstrar nenhuma enquanto milhares de pessoas eram agredidas pela PM durante os protestos de junho. Pelo contrário, amplos setores do PT apoiaram de maneira entusiasmada as ações da PM chamando de "vândalos" - em par com a mídia que tanto amam odiar e financiar - quem tomava bombas, tiros e era ilegalmente preso.

Sem dúvida, caso seja provado que não se tratou de uma ação interna, o ataque ao Instituto Lula é um perigo à democracia, mas a repressão de junho foi ainda pior e inclusive ajuda a explicar parte do "levante" da direita atualmente. Ao esmagar um imenso movimento de esquerda você abre espaço para o outro lado. Pior ainda quando você se diz de esquerda, mas está cantando ao lado de um dos maiores líderes da direita enquanto jovens são espancados nas ruas.

Mas vamos ao mais importante, porque chegamos até aqui?

A ingratidão da elite

Talvez a única análise coerente e válida por parte dos ditos "intelectuais" do PT seria a de que a elite tem preconceito e mesmo ódio contra o PT. Sem dúvida o PT não é "da turma", seria o "novo rico", aquele que chega para tentar se enturmar, mas não é aceito porque sua origem não é boa o suficiente. Isso não impede, no entanto, que o novo rico tente. E o PT tenta, com mais afinco e dedicação inclusive que os ricos já estabelecidos.

O PT tem sido mais que qualquer outro partido uma mãe para os ricos. A elite não tem do que reclamar, pelo contrário - mas reclama. E claro que reclama, assim consegue ainda mais lucro e poder enquanto se aproveita das benesses únicas do PT no poder - os bancos e empreiteiras que o digam.

Apesar de ser mãe e mesmo pai dos ricos, o PT mantém uma capa de esquerda. E é esta capa, além do fato de não ser originalmente da turma, de ter a origem "errada", que causa o maior desconforto e as maiores reações.

A imensa ignorância do "fora comunistas"

Não há nada mais ridículo do que ver em manifestações da direita denúncias (sic) de que o PT seria comunista ou de que quer implantar o comunismo no Brasil. Para um partido que já abandonou senão todas, mas a ampla maioria das suas bandeiras originais de esquerda, implantar o comunismo só com um milagre. O PT abandonou a Reforma Agrária, abandonou movimentos sociais (hoje os coopta, imobiliza e quando resolvem reclamar apoiam a repressão da polícia e mandam exército para silenciar favelas), abandonou a inclusão social substituindo pelo consumo desenfreado (hoje nem mais isso).

Se há algo de esquerda no PT é apenas a cor de sua bandeira, porque na prática Dilma está à direita de qualquer governo pós-Ditadura e em alguns aspectos recuou em direitos sociais que sequer a Ditadura foi capaz.

A doentia militância petista nas redes sociais

Nas redes sociais está outro grande problema, a militância fanática que se comporta como seita. Prontos a defender a Odebrecht e até mesmo militar envolvido em corrupção, transformam criminosos do colarinho branco em heróis da pátria, desafiando a tudo e a todos na defesa de seu modelo de silenciamento das ruas e de lucro aos mais ricos.

Não importa o que aconteça, o PT sempre terá sites financiados com dinheiro público e militância paga (vejam que já se fala até em abrir as contas do criador da Dilma Bolada, a única sátira a favor do mundo) prontos a defender o indefensável, a atacar de forma rasteira adversários para, no dia seguinte, mudar novamente o discurso e transformar aliados em inimigos e vice-versa, sem medo de destruir reputações e de mostrar a maior incoerência possível.

A negativa do PT de admitir seus atos - ou de tentar fingir que estes seriam "de esquerda" - usando e abusando de recursos dos mais vergonhosos resulta numa animosidade que tem prejudicado toda a esquerda e o país. Não se trata, enfim, de "culpar a vítima", e sim de compreender que o PT não é uma vítima, mas parte de um processo de recrudescimento da política nacional em que cada lado usa de suas armas (mesmo as indefensáveis), mas os diferentes lados (PT e oposição) são ideologicamente semelhantes e tem em suas práticas políticas uma metodologia comum de ação.

Sem dúvida o fato de membros do PT tentarem dissociar o partido do governo ajuda a contribuir para a animosidade crescente, oras, é preciso ser muito trouxa para acreditar que Dilma e todos os representantes do PT no governo agem de forma autônoma em relação ao partido e, se o fazem, então o PT é irresponsável e incapaz de controlar seus membros. Não tem escapatória, o discurso é raso, fraco e inviável. Por mais que seja uma coalizão, o governo é do PT, a presidente é do PT e quem dita os rumos é (ou deveria ser) o PT.

A também vergonhosa direita pseudo-liberal é cria do PT

O surgimento de "escritores" de direita pseudo-liberal (em geral indivíduos sem formação, caricatos, raivosos e incapazes de sustentar um argumento sequer diante de um acadêmico sério - ou do Ciro Gomes) vem da prisão intelectual auto-imposta de muitos no entorno do PT. Na insistência de muitos pensadores e acadêmicos de seguirem apoiando um governo de direita com a desculpa de combaterem a direita. Com isso o caminho fica aberto para uma das safras mais lamentáveis de "intelectuais" da direita que seria motivo de chacota em qualquer lugar com uma esquerda organizada e [seriam] relegados a periódicos e sites bem mais restritos e de nicho, como acontece com as viúvas da Ditadura e milicos aposentados.

Setores da esquerda perdem tanto tempo nesta defesa insensata do "legado" do PT ou ao menos passando pano para o partido que o caminho fica livre para a direita crescer e conseguir apoio usando e abusando de meias verdades (e muitas mentiras deslavadas e distorções ridículas) e acusando toda a esquerda de ser aquilo que o PT se tornou. Ficamos sem discurso, atrelados a um fracasso, insistindo no erro e incapazes de responder.

O PT fez de tudo para enterrar junho, hoje pseudo-liberais se apropriam de Junho fingindo entendê-lo pese não terem sequer se dignado a ir às ruas preferindo aplaudir a repressão. O Estado brasileiro se torna cada vez mais ineficiente, a corrupção cresce, os serviços públicos pioram, então a direita logo corre para defender a maravilhosa "gestão empresarial", o que é seguido por privatizações e terceirizações patrocinadas pelo PT. Parece, por vezes, uma simbiose nada acidental. Enquanto a esquerda sustentar o PT a direita crescerá. E está crescendo.

Conclusão

Os protestos contra o PT mostraram que a direita saiu do armário e que tem força (ao menos tem número), e que há um oceano de despolitizados prontos a serem conquistados por gente que, em tese, deveria amar o governo do PT, mas tão somente prefere um governo com "pedigree", com cara de elite e origem na elite. E como já comentei no texto, o entusiasmo do PT em apoiar a repressão contra os protestos de Junho ajuda também a explicar o refluxo de movimentos de esquerda (além das cooptações, como a vergonhosa compra da Mídia Ninja ou a criação de mais um movimento alinhado, os tais Jornalistas "Livres") que abriu um enorme espaço para que a direita tomasse o lugar.

A esquerda ao invés de reagir se mantém ligada pelo cordão umbilical ao partido-mãe, alguns até caindo nos gritos desesperados de um governo moribundo de que estaríamos diante de um golpe, ainda que apenas em 2014 o mesmo partido usou e abusou desse mesmo artifício em mais de 20 diferentes ocasiões. A direita saiu às ruas para protestar? Então vamos, a esquerda, protestar em defesa do PT, da outra direita. Faz sentido?

Não.

Sempre que acuado, surge o grito de golpe, e sempre há quem corra em socorro, que se pinte de "crítico" e aposte mais uma vez no mesmo e conhecido erro.

A direita brasileira é raivosa, nos custou décadas em uma Ditadura que matava e torturava sua oposição, e está mais viva do que nunca. Diante do sequestro de suas práticas, medidas e ações políticas pelo PT encapsulado com um discurso falsamente esquerdista, resta para alguns retornar à violência de outros tempos. Se o PT patrocina a violência do exército nas favelas e da PM nas periferias nos estados em que governa ou participa do governo, o que resta à direita que abusa das mesmas práticas senão radicalizar?

À esquerda cabe se reinventar ou morrer abraçada com o PT, o grande responsável pelo (re)surgimento e fortalecimento da direita no Brasil.

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