OPINIÃO

Bandido bom não é bandido morto

A condenação da brutalidade em Manaus e Roraima não depende da tentativa de criar simpatia, mas sim da defesa pura e simples dos direitos humanos.

08/02/2017 23:09 -02 | Atualizado 09/02/2017 12:08 -02
Ueslei Marcelino / Reuters
Trabalhador prepara covas de detentos que morreram durante massacre em prisão de Manaus, em janeiro de 2017

Lendo vários e vários comentários sobre a violência e o massacre em Manaus eu fiquei pensando: Todo mundo está certo, mas só parcialmente.

Sim, há encarceramento em massa. Sim, há uma quantidade absurda (40%) de presos sem julgamento e que são inocentes até que se prove em contrário. Sim, encarceramento em massa leva à violência e, finalmente, sim, a guerra contra as drogas é um absurdo e um crime em si. Todas as afirmações são verdadeiras e terríveis.

Dito isso, me impressiona como setores da esquerda gostam de dar argumento à turma que diz que defensor dos direitos humanos só defende bandido.

Os que morreram e mataramobviamente não poderiam/deveriam estar num presídio superlotado, muitos provavelmente estavam presos por crimes banais, outros sem sequer julgamento (penso eu), tudo isso é válido, mas vamos lembrar que pese tudo isso eram membros de facções criminosas que matam a rodo, que praticam extorsão, chantagem e tocam o terror quando querem — mesmo que existam casos em que se "filiar" a uma facção não é exatamente uma escolha livre.

Mataram, decapitaram, esquartejaram outros seres humanos e, de boa, há limites para a mera compreensão (em relação a serem "inocentes").

Concordo com todas as reclamações da esquerda e creio que, se muitas da reivindicações básicas fossem atendidas, veríamos poucos ou nenhum desses casos escabrosos, mas daí à ver quase uma louvação dos caras, um lamento do tipo "coitados, vamos rezar por eles, tadinhos" e tal? Desculpem, mas tenho um certo limite. Respeito quem se manifeste dessa forma, mas não compartilho do sentimento — e sinto que esse discurso causa mais revolta e desconfiança que nos atrai apoio para uma melhora no sistema.

O meu repúdio à situação permanece inalterado, assim como a necessária defesa dos direitos dos presos — lembrando que o Estado tem obrigação de protegê-los (mesmo deles próprios) e garantir sua dignidade.

Tudo que foi exposto ajuda a explicar uma situação, mas no fim das contas não justifica ou legitima, nem torna os envolvidos meras vítimas inocentes (e esta é a chave. Ser vítima independe de inocência). Não eram. Não deveriam ter morrido (e nem matado, afinal), muito menos serem empilhados em presídios sem condições mínimas, mas a decisão final de decapitar e esquartejar alguém recai sobre os autores dos crimes, que não são crianças, não são incapazes e muito menos coitados e inocentes.

Se por um lado o Estado falhou (feio) em não protegê-los, não podemos retirar a culpa de quem assassinou brutalmente a outros seres humanos e de quem, através dos atos de facções criminosas, aterroriza populações inteiras.

Pintá-los como tal é a maior arma que a direita raivosa tem para ferrar com a esquerda e pichar os direitos humanos. Como comentou um amigo policial:

"É verdade sim que enquanto política pública e global a guerra às drogas é um fracasso, nunca dará certo e gera mais efeitos negativos. Mas não se esqueçam do local: quem denuncia o tráfico é o morador pobre do bairro fodido, a avó que não quer perder o filho para o crime..."

A insistência da esquerda em tratar um tema mais com paixão e menos com inteligência é notável. É necessário responsabilizar o Estado, mas não é necessário — justo o contrário — tratar como pobres coitados os envolvidos em facções criminosas que tocam o terror país afora.

Trata-se não de justificar massacres ou inação diante deles, mas de apontar para uma falha estrutural da esquerda que em discursos apaixonados parece falar para si, para dentro, deixando de fora imensa parcela da população que é refratária à discursos "coitadizantes".

É uma questão de discurso, como você vai vender pra um público amplo que um esquartejador é uma vítima inocente? Ou que o cara que matou ou assaltou a irmã de uma pessoa, ou a estuprou, merece que alguém chore por ela? A gente sabe que mesmo o pior dos criminosos tem direitos, mas quando pessoas "comuns" lêem o discurso que parte do "eles — bandidos — são vítimas" a gente já perdeu. Trata-se de entender pra quem a gente discursa a não recuar no que defendemos, mas melhor apresentar o argumento.

A condenação da brutalidade vista em Manaus (e agora Roraima) não depende da tentativa de criar simpatia pelas vítimas (ou pelos perpetradores), mas sim da defesa pura e simples dos direitos humanos. Uma vítima não precisa ser inocente para seguir sendo vítima.

E a esquerda é, em grande parte, incapaz de sequer notar essa questão. Bandido bom não é bandido morto, mas o discurso da esquerda está perdendo feio. A defesa dos direitos humanos deve ser intransigente, mas a linguagem deve ser (mais) inteligente.

E para não dizer que eu reclamo sem propor soluções, este texto do Ivanildo Terceiro, com uma pegada mais liberal, me representa totalmente:

Não existe país seguro com cadeias inseguras. Pode parecer algo simples, direto, objetivo, mas a reação ao massacre de dezenas de pessoas em Manaus faz necessário lembrar.

A nossa incrível marca de 60 mil homicídios por ano não é fruto do acaso, mas de um sistema penal falido, em que imprensa, polícia, sociedade, e políticos trabalham ativamente para levá-lo a bancarrota completa.

Prender todo mundo e jogar a chave fora, uma sugestão relativamente comum, seria tudo o que os grupos que controlam o crime no Brasil mais desejariam. Sua existência depende diretamente da condição de masmorra que foi imposta aos presídios.

O sujeito, inocente ou não (lembre-se que 40℅ dos presos no país nem ao menos foram julgados), ao entrar num estabelecimento prisional sabe que está só. Não há chance alguma do estado protegê-lo ou lhe prover algo.

Se tornar membro de uma facção se torna uma escolha entre poder o dormir em um colchão, ter comida quente, e até mesmo poder escovar os dentes, ou encarar a morte.

Conjugado a isso, pequenos criminosos ficam lado a lado de psicopatas de primeira linha. Pequenos traficantes de drogas, até mesmo aquele que juntou o dinheiro dos amigos para ir no contato pegar tudo de uma vez, ficam lado a lado de psicopatas de primeira linha. Todo e qualquer ser com alguma chance de voltar a sociedade fica lado a lado de psicopatas de primeira linha.

O resultado não poderia ser outro: as fileiras dos sindicatos do crime só engrossam, enquanto o verdadeiro problema é varrido para debaixo do tapete.

Pesquise e você verá. O CV nasceu com presos do presídio de Ilha Grande querendo proteção contra o grupo que vinha da Favela do Jacaré. O PCC surgiu na esteira do Massacre do Carandiru. A Família do Norte queria proteger os seus membros do PCC.

É claro que participar de um grupo criminoso não é de graça. A dívida continua sendo paga mesmo após a saída da prisão, do contrário, mais uma vez, encarar a morte é a outra alternativa apresentada.

Melhorar o sistema punitivo deveria ser a prioridade número um daqueles que querem combater a violência no Brasil. Nós prendemos muito e prendemos mal. Colocamos à bucha de canhão que vai morrer na guerra entre traficantes para dentro da cadeia e deixamos seus comandantes deitarem e rolarem.

De nada vai adiantar endurecer as penas se todo o foco da polícia está em tentar flagrar pequenos traficantes atuando.

Acompanhe comigo: A Polícia Militar é cobrada para dar resultados, mas só pode realizar flagrantes, e qual crime está em flagrante permanente? A Polícia Civil, por sua vez, se contenta em elucidar menos de 10℅ dos homicídios cometidos no país. Não tem como dar certo.

Nossa situação é tão crítica, que a defesa Direitos Humanos há muito tempo deixou de ser uma aventura intelectual visando a defesa de um programa liberal em todas as esferas dá sociedade, defender os DHs se tornou de fato o meio mais eficiente para reduzir a violência no Brasil.

Importante lembrar, no entanto, que o discurso médio da direita (e de amplos setores de classe média), é assustador, vale sempre lembrar (como fez o Pablo Ortellado):

"acidente pavoroso" (Michel Temer)

"não tinha nenhum santo" (governador José Melo)

"tinha era que matar mais" (secretário de juventude Bruno Julio)

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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