OPINIÃO

As lições de junho 4 anos depois: A esquerda foi sacrificada pelo discurso do golpe

Manifestações de junho foram o maior movimento reivindicatório autônomo em décadas e mostrou que há esquerda além do Partido dos Trabalhadores.

06/07/2017 19:04 -03 | Atualizado 09/07/2017 23:07 -03

Raphael Tsavkko Garcia

Faz quatro anos desde que junho de 2013 abalou o país. E, durante esse tempo, os petistas não cansaram de nos culpar pela "reação conservadora" que os fez perder o poder.

O que eles não contam é que mantiveram folgada maioria com sua base nas eleições de 2014. De fato, perderam coisa de 50 deputados, mas ainda mantiveram uma base de mais de 300.

O problema, para o partido, foi que as manifestações mostraram para o "centrão" que o PT não controlava mais as ruas. Assim como movimentos de direita surgiram em oposição a junho e conquistaram seu quinhão de popularidade. Mas notem, a direita cresceu não por causa dos protestos, mas por causa do esmagamento dos mesmos. Sem oposição, a direita cresceu no vácuo deixado.

Junho forçou um reposicionamento de diversos campos ideológicos, sem dúvida. Mas não há qualquer reação causal com os acontecimentos que levaram à queda de Dilma. Na verdade, a reação do PT a junho é que explica, em parte, sua queda.

Raphael Tsavkko Garcia

Ao invés de escutar as ruas, o PT preferiu dar uma lição naqueles que não aceitavam seu controle. Oras, como assim amplos setores de esquerda ousavam sair às ruas sem pedir permissão a eles, sem controle da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e afins? Era preciso agir.

Junho foi massacrado tanto nas ruas, pela Polícia Militar, quanto nas redes, pela militância do PT e do PCdoB. Ambas, até hoje, repetem a ladainha de que o golpe ocorreu por culpa da esquerda que ousou desafiar os stalinistas sedentos por poder.

É fácil esquecer que ainda em março de 2013, a direita já se organizava em campanhas pela redução da maioridade penal. E que Bolsonaro crescia entre a extrema-direita há algum tempo. É mais fácil ainda esquecer que uma juventude que não conseguia sequer lembrar de um governo que não fosse o petista estava cansada e queria mudanças. E que, além do mais, é normal que um partido que passe tanto tempo no poder seja questionado e forçado a repensar suas estratégias.

Junho nasceu da esquerda cansada de ser submissa e recebeu apoio de milhões de pessoas de todos os espectros ideológicos. Vamos lembrar, aliás, que em todos os protestos anteriores do MPL (Movimento Passe Livre), o PT participou. Curioso como exatamente em 2013, pela prefeitura estar nas mãos do PT, o MPL passou a ser "fascista" e inimigo. Isso porque, vejam bem, os protestos não eram contra o então prefeito Fernando Haddad. Mas sim exigiam dele e do governador Geraldo Alckim a redução das passagens (o mesmo pedido feito em todo o País a seus respectivos prefeitos e governadores).

Quem transformou 2013 em um protesto contra o PT foram exatamente os petistas buscando uma forma de legitimar o esvaziamento dos protestos. E de "alertar" a esquerda que essa revolta não seria tolerada.

Vejam a ironia do destino: naquele ano, a acusação mais forte contra os protestos em São Paulo era que os eles começavam, terminavam ou passavam pela prefeitura. Logo, uma violência e uma brutalidade contra o pobre Haddad — o papagaio de pirata do Alckmin naquela situação. Mas ontem, na fracassada greve geral (infelizmente, diga-se), a manifestação terminaria... na prefeitura  - mas com Doria, pode.

O fato da prefeitura de São Paulo se localizar na área de melhor acesso da cidade, ao passo que o palácio do governo fica em uma região de difícil acesso e ótima pra uma emboscada não contava.

No Rio, o PT tinha uma ligação carnal com o PMDB. Então, qualquer protesto era um atentado contra a "esquerda". E quando os protestos passaram a ter um caráter nacional, com uma amplitude de pautas, Dilma se sentiu atacada e reagiu como melhor sabia : com violência, inépcia e soberba.

Eu já escrevi por aqui que não existe vácuo na política e junho de 2013 é uma prova viva disso. A direita reagiu a junho como fez o PT, mas as reações foram totalmente diferentes. A direita aprendeu e resolveu ela mesma sair às ruas. Sentiram a fraqueza do PT e atacaram.

Raphael Tsavkko Garcia

O PT preferiu massacrar as ruas ao invés de buscar entender, dialogar a aprender. Ao invés de usar o poder das ruas para pressionar o congresso, preferiu iniciar uma cruzada contra quem não se submetia. Preferiu tentar eliminar resistências à esquerda nas ruas para contentar o centrão e mostrar que tinha o poder. Perdeu. E foi isso que permitiu à direita tomar o controle da situação.

É difícil saber se junho acelerou ou simplesmente revelou a fraqueza real do Partido dos Trabalhadores em uma coalizão que nada tinha de ideológica, mas era bancada por esquemas de corrupção de proporções gigantescas. Mas é possível ter certeza de que o episódio não criou essa situação.

O PT apostou na força e perdeu, dando um recado claro para o centrão: nós não mandamos mais como antes. Conseguiu cooptar o MTST, mas não conseguiu cooptar toda a esquerda a tempo de impedir o impeachment. A direita já tinha tomado as ruas no vácuo deixado pela terra arrasada que o partido patrocinou.

Os petistas nos diziam que "o governo estava em disputa". E, de certa forma, era verdade. O problema é que a esquerda era apenas a moeda de troca, a disputa se dava entre outros atores. Nosso silêncio era parte do preço para a aliança funcionar. Nós não éramos parte na disputa, éramos o cordeiro (a ser) sacrificado.

Raphael Tsavkko Garcia

O legado claro e palpável de junho foram as ocupações de escolas nos anos seguintes. Junho não tem culpa pelo impeachment. Pelo contrário, apenas deixou claro que a aliança de conveniência do PT com a direita saía muito cara para a população e para a própria esquerda.

E que era extremamente frágil, dependendo de doses cavalares de corrupção e do controle total da esquerda, do amaciamento e apagamento das pautas sociais. O que favoreceu o crescimento da turma justiceira social ou social justice warrior.

O desespero diário da militância petista nas redes sociais, sindicatos e movimentos para criminalizar as manifestações de 2013 e tentar impor sua narrativa vitimista, só deixa ainda mais à mostra o pânico do partido com aquele que foi o maior movimento reivindicatório autônomo em décadas e que mostrou que há esquerda além do Partido dos Trabalhadores.

Publicado originalmente no Medium.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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