OPINIÃO

Quais são os desafios do novo secretário-geral da ONU?

21/10/2016 17:56 -02 | Atualizado 21/10/2016 17:56 -02
Gonçalo Silva - Corbis via Getty Images
LISBON, PORTUGAL - OCTOBER 06: Designate General Secretary of the Union Nations oand António Guterres gives a speech in the Ministery of Foreign Affairs on October 6, 2016 in Lisbon, Portugal. Guterres gave thanks for the unanimous vote in his favor and said he felt both 'gratitude and humility' by the appointment. (Photo by Gonçalo Silva/Corbis via Getty Images)

No início do mês, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) indicou por aclamação o nome do português António Guterres para o cargo de Secretário-Geral da mesma. Este foi confirmado por unanimidade pela Assembleia Geral. A escolha de Guterres para liderar a ONU, por um lado, traz um certo desapontamento e, por outro lado, sugere possíveis avanços em alguns grandes desafios globais.

O desapontamento surge ao se observar a questão sob a ótica de gênero. Esperava-se que uma mulher fosse a indicada ao cargo. O escolhido acabou sendo um homem, branco, da Europa Ocidental. Ter uma mulher à frente da ONU - juntamente com outras à frente, por exemplo, do Chile, Coréia do Sul, Reino Unido, Alemanha, Fundo Monetário Internacional e, pelo o que indicam as pesquisas de opinião, Estados Unidos - seria um progresso em uma política internacional profundamente machista.

Contudo, a escolha de Guterres também sugere avanços significativos. O mais imediato deles é o simples fato de ter havido um processo seletivo para indica-lo. Seus antecessores eram escolhidos à portas fechadas. O processo realizou-se em seis rodadas de votações onde os quinze membros do Conselho de Segurança indicavam aos treze candidatos ao cargo, destes sete mulheres, se encorajavam, desencorajam ou não tinham opinião sobre suas candidaturas. Guterres foi o único candidato a ter acima de dez encorajamentos em todas as rodadas e a não ter na última votação um veto de algum membro permanente do mesmo.

Guterres destacou-se por ser o mais experiente de todos os candidatos. Para além de ter sido Primeiro-Ministro de Portugal, entre 1995 e 2002, foi Alto Comissário da ONU para os Refugiados por uma década, de 2005 a 2015. Esta é uma grande vantagem, pois um dos principais desafios do cenário internacional atual é precisamente a crise dos refugiados. Esta é a mais grave crise humanitária desde a segunda Guerra Mundial e tem exposto todas as fragilidades da União Europeia (UE) ao lidar com a mesma. Portanto, ter um Secretário-Geral com uma longa experiência na temática e com bom trânsito na diplomacia europeia abre margem para avanços.

Além disso, o modo como Guterres foi eleito pode significar avanços em outro grande desafio internacional - a crise na Síria. Ter sido eleito por unanimidade, e sem nenhum veto dos membros permanentes, indica que os mesmos, incluindo Estados Unidos e Rússia, o veem como um interlocutor qualificado. Isto é central em um cenário onde o diálogo entre ambos, fundamental para a superação da crise na Síria, está cada vez mais esgarçado.

A escolha de Guterres pode significar, também, um avanço relativamente à estrutura da própria ONU. Ele já argumentou várias vezes que esta deve se reformada, tornando-a mais eficiente frente aos desafios globais, inclusive alargando seu Conselho de Segurança. Isto pode beneficiar o Brasil, pois Guterres já defendeu a entrada do país como membro permanente do mesmo.

Está por ver se será aproveitada esta oportunidade para uma inserção qualificada do país na política internacional e da língua portuguesa na ONU. Espera-se que o país compreenda o quão oportuno é a escolha de António Guterres.

*Artigo publicado originalmente no Jornal Gazeta do Povo

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