OPINIÃO

O Copo meio Cheio

17/01/2017 13:53 -02 | Atualizado 17/01/2017 13:53 -02
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Nenhum legado presidencial é unidimensional - só positivo ou negativo. Entender desse modo é errôneo, e com o legado de Barack Obama não é diferente.

Basta lembrar, por exemplo, das guerras feitas via drones, da permanência de Guantánamo, ou da atual instabilidade no cenário internacional. Mais emblemático, Obama aceitou o Nobel da Paz com o argumento da guerra justa.

Contudo, há uma metade cheia do copo relativamente ao seu legado, sobretudo considerando o seu limitado antecessor e o seu temerário sucessor.

Obama sai da presidência dos Estados Unidos com 57% de aprovação. Após oito anos no cargo, não é nada mal. Simbolicamente, não é insignificante o fato de ter havido um presidente negro no cargo mais poderoso do mundo. Ao contrário, esse é um legado imaterial e aspiracional que, apesar de não ter superado as tensões raciais atuais, definitivamente impactará futuras gerações no país e no mundo. Isto está longe de ser um pequeno pormenor.

Internamente, um de seus feitos significativos está na esfera econômica. Em 2009, Obama assumiu a presidência em meio à maior crise econômica desde a Grande Depressão. Por meio, por exemplo, de pacotes de estímulo à economia e do resgate da indústria automobilística, Obama evitou simplesmente o total colapso da economia americana, após a crise financeira de 2008. Esse é um expressivo legado, normalmente subestimado.

A isso, soma-se a importante reforma feita no setor da saúde, conhecida como Obamacare. A política de estender o acesso à saúde por meio de subsídios é algo muito limitado ao se comparar com outras redes de proteção social pelo mundo. Contudo, tendo em conta a profunda carência de serviços sociais nos EUA, o Obamacare é um grande avanço para os padrões do país, o que não pode ser negligenciado.

Internacionalmente, Obama também deixará sua marca. É bastante significativo, por um lado, a assinatura do acordo climático de Paris. Lidar seriamente com o assunto é impensável sem o envolvimento do segundo maior poluidor internacional. Por outro lado, o declínio da dependência estadunidense em relação ao petróleo estrangeiro também é positivo, pois deixa o país menos vulnerável internacionalmente.

Contudo, as marcas mais relevantes de Obama na cena internacional são: o acordo nuclear com o Irã e a reaproximação com Cuba. A primeira objetiva impedir que o Irã possa enriquecer urânio a ponto de construir uma bomba nuclear. Isto há tempos é um ponto decisivo da política externa estadunidense. Com a segunda, abre-se uma oportunidade para o fim definitivo da Guerra Fria no continente. Mesmo tardia e limitada, a reaproximação com Cuba pode impactar positivamente diferentes esferas da política internacional continental.

Se o seu legado será duradouro, ainda é duvidoso. Provavelmente, parte do mesmo poderá ser revertido pelo próximo governo. Entretanto, tendo em conta o que se vislumbra como o futuro governo de Donald Trump, é bastante possível que a marca deixada por Barack Obama torne-se mais relevante com o passar do tempo. Só o tempo dirá.

* Artigo originalmente publicado no Jornal Gazeta do Povo

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