OPINIÃO

O crescimento da direita e a força da inquietação política pelo mundo

06/01/2017 16:12 BRST | Atualizado 06/01/2017 16:12 BRST
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É indiscutível que o zeitgeist internacional atual é definitivamente caracterizado por uma profunda inquietação. O sentimento, para muitos, é que a ordem internacional como esta é conhecida atualmente está, pelo menos, em xeque. Os sinais são inúmeros: a crise ambiental, a crise financeira de 2008, o crescimento da extrema-direita da Europa, o Brexit e Donald Trump na Casa Branca, para mencionar apenas alguns. Surpreendentemente, tais eventos são normalmente racionalizados individualmente, o que é sem dúvida enganoso. Notoriamente, a velada força por trás de todos esses eventos não é sequer mencionada. Contudo, um atento observador da realidade internacional percebe, muito claramente, que estes eventos são todos evidências das falhas do neoliberalismo enquanto a ideologia dominante no cenário internacional.

Neoliberalismo enquanto a Ideologia Dominante

Embora muitas vezes seja negligenciado por muitas pessoas, o neoliberalismo estrutura todos os aspectos das esferas contemporâneas em termos políticos, econômicos e sociais. Nesse ambiente, é difícil lembrar que o neoliberalismo nem sempre foi a força estruturante da política internacional. Foi apenas nos anos 70 que o neoliberalismo começou a posicionar-se enquanto uma ideologia dominante em muitos países pelo mundo.

Este caminho começou na periferia do sistema internacional. Um dos primeiros países a implementar o neoliberalismo enquanto um enquadramento estruturante foi o Chile. Sem surpresa, isto foi operacionalizado por meio de um golpe contra um governo democraticamente eleito. Depois de depor o presidente Salvador Allende, o general Augusto Pinochet fez do Chile uma espécie de laboratório, uma caracterização eufemística para cobaia, para os "Chicago Boys" - graduados da Universidade de Chicago, uma importante fonte intelectual deste enquadramento econômico - e sua engenharia social.

No final dos anos 70, o neoliberalismo atingiu o centro do sistema internacional com a eleição de Margaret Thatcher no Reino Unido (1979) e Ronald Reagan nos Estados Unidos (1980). Deste momento em diante, o neoliberalismo passou a tomar a cena global enquanto uma ideologia dominante. Neste momento, os princípios das políticas neoliberais, como a desregulamentação de diferentes esferas, a redução maciça de impostos para os ricos, a privatização de empresas estatais, a terceirização de empresas, o livre comércio, as medidas de austeridade, o desmantelamento de serviços públicos e assim por diante foram fortemente estimulados. Inversamente, elementos como regulamentações, impostos, programas estatais, atividades sindicais e assim por diante foram severamente bloqueados.

Thatcher foi abertamente clara quando disse que não havia alternativa para tal agenda. Esta agenda foi difundida internacionalmente com um variável grau de violência: por meio de uma violência velada, via Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, quando os países tiveram que reformar estruturalmente suas esferas econômica, política e social para conseguir dinheiro emprestado destas instituições financeiras internacionais, ou através da força bruta, por meio da violência contra sindicatos ou manifestantes e das mudanças de regimes políticos ao redor do mundo.

Falhas e Repercussões Atuais

A ampla ofensiva neoliberal em todo o mundo certamente teve consequências. Contrariamente ao que é comumente anunciado, é mais do que evidente que o mundo experimentou uma notável deterioração em diferentes esferas. David Harvey, por exemplo, em seu livro Breve História do Neoliberalismo, evidencia a ligação do neoliberalismo com: o aumento da pobreza e do desemprego, a concentração da renda e da riqueza, e o aumento da desigualdade, após décadas de declínio. Mesmo o crescimento econômico - um indicador muito caro ao mantra neoliberal - foi muito mais lento durante o domínio neoliberal, em comparação com as décadas anteriores.

Essas consequências foram devastadoras para a grande maioria das pessoas em todo o mundo e esmagadoramente severas para as classes média e trabalhadora. Na periferia do cenário internacional, os resultados foram destrutivos. Não por coincidência, a década de 1980 é conhecida como a "Década Perdida" na América Latina. No entanto, é míope acreditar que as falhas do neoliberalismo apenas afetaram a periferia. Não surpreendentemente, as classes média e trabalhadora do centro do sistema internacional também não ficaram imunes. O fato de que as falhas do neoliberalismo afetaram negativamente ambas as classes no mundo gerou várias ondas de choque no cenário internacional. Estas, por sua vez, estão engendrando a inquietação global atualmente percebida.

Continuidade nas Falhas

É com este pano de fundo em mente que se deve pensar a ampla gama de eventos internacionais atuais que, aparentemente, não estão relacionados entre si. As falhas do neoliberalismo produziram uma profunda raiva em todo o mundo e abriram o espaço para grupos nacionalistas e xenófobos atraírem novos apoiadores, canalizando uma extensa variedade de frustrações e beneficiando-se desta raiva em diferentes eleições pelo mundo.

A eleição de Donald Trump é a onda de choque mais evidente das falhas do neoliberalismo enquanto a ideologia dominante no cenário internacional. Para vê-lo, basta lembrar que uma parte significativa de seu apoio veio dos trabalhadores da indústria de manufatura, que é um segmento que sofreu bastante nas últimas décadas do domínio neoliberal. Não por coincidência, Trump ganhou em estados-chave do chamado "Cinturão da Ferrugem". Portanto, é incompleto entender a eleição de Trump desconsiderando as falhas que levaram à crise financeira internacional em 2008 - que é outro pilar fundamental da atual inquietação internacional e uma consequência direta do domínio neoliberal internacionalmente.

Além disso, as falhas do neoliberalismo são a mesma força, devido ao seu grave impacto sobre as classes média e trabalhadora em vários países europeus, por trás do surgimento do populismo nacionalista e de extrema-direita em toda a Europa. Isto é observado, por exemplo, no Parlamento Europeu, mas também no surgimento do Partido da Liberdade na Áustria, o Partido Popular Suíço na Suíça, os Finlandeses na Finlândia, o Jobbik na Hungria, o Aurora Dourada na Grécia, o Partido da Independência no Reino Unido, a Frente Nacional na França e também na saída da Grã-Bretanha da União Europeia mais recentemente.

Consequentemente, para apreender apropriadamente o zeitgeist internacional atual é preciso observar abaixo da superfície. Mais importante ainda, para superar adequadamente a atual inquietação internacional é necessário abordar frontalmente a sua força subterrânea - o neoliberalismo enquanto uma ideologia dominante globalmente.

*Este texto foi originalmente publicado em uma versão na língua inglesa na Al Jazeera.

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