OPINIÃO

O mal-estar nas diferentes democracias pelo mundo

23/12/2016 17:52 -02 | Atualizado 23/12/2016 17:52 -02
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Texto escrito com Felipe Almeida

Há um forte mal-estar nas diferentes democracias pelo mundo. Isto advém de um profundo descompasso, sendo eufemístico, na relação entre representados e representantes, gerando assim uma grave crise de representatividade. Perceber esta questão como algo individual a cada país é ter a atenção desviada do essencial - o que está em crise pelo globo é a própria democracia, pelo menos como a praticamos atualmente. Superar este mal-estar é perfeitamente possível. Para ir nesta direção, por mais inusitado que possa soar, é preciso aprender com o teatro.

A democracia é uma ideia, no mínimo, radical, e ainda bem que ela assim é. Pensar que cada indivíduo tem o direito de opinar sobre os seus destinos políticos, independentemente de sua religião, cor, gênero, posses, posição social e assim por diante, é um grande alento considerando a gestão da política em termos históricos. Porém, ao longo do tempo, a democracia parlamentar, que é como em geral a democracia é exercida pelo mundo, foi deixando alargar a distância entre representantes e representados. Hoje, para o cidadão comum, decidir seu destino político resume-se basicamente em apertar duas teclas e o botão confirma.

Como resultado, percebe-se na democracia hoje o que o teatro designa por a quarta parede. Normalmente, uma cena teatral ocorre entre quatro paredes: os fundos, duas paredes laterais e uma quarta parede. Esta expressão teatral nomeia a parede invisível e imaginária que separa atores e plateia, o universo das personagens da vida real e, em última análise, a ficção e a realidade. É o não contestar a existência desta quarta parede que faz com que a plateia simplesmente assista, sem interferir, à cena e, mais, que os atores performem como se aquela ali não estivesse presente.

Bertold Brecht, dramaturgo alemão, revolucionou o teatro ao quebrar esta quarta parede cênica, interagindo com a plateia, fazendo-a inclusive parte da cena e, assim, membro ativo da experiência teatral. O mesmo precisa ocorrer com a democracia. Não se trata de acabar com a democracia parlamentar, longe disso. Contudo, é preciso que os cidadãos deixem de ser tratados como meros expectadores do processo democrático e que a interação vá para além do vaiar e aplaudir o espetáculo. É preciso quebrar a quarta parede da democracia.

Um caminho é democratizar a democracia abrindo-se mais espaços para que os cidadãos, enquanto indivíduos, possam diretamente decidir questões ligadas às suas vidas. No passado, a dificuldade para ter várias pessoas em um único local debatendo era enorme. Contudo, hoje há tecnologia disponível para que milhões reúnam-se, discutam e votem sobre temas dos seus interesses. Cada pessoa com um celular ou acesso a um computador, por exemplo, tem uma urna de votação em potencial nas mãos.

É preciso caminhar para uma democracia de maior intensidade. Mais abertura à participação cidadã certamente resultaria em uma alocação e execução de recursos mais condizente com as necessidades e anseios da população. Ao contrário de outros regimes políticos, crises na democracia supera-se, somente, com mais democracia.

*Texto publicado originalmente no Jornal Gazeta do Povo

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