OPINIÃO

Fim do mimimi: jovens de Paraopeba triunfam no maior festival de dança do mundo

Ainda sem espaço próprio e qualquer tipo de apoio financeiro, a companhia ensaia em uma quadra de esportes emprestada por uma escola municipal.

01/08/2017 12:46 -03 | Atualizado 01/08/2017 12:48 -03
Nilson Bastian (Divulgação)
Bailarinos da Cia Jovem de Paraopeba interpretam a coreografia 'Amal no Festival de Dança de Joinville.

Impossível palavra já retirada do vocabulário da Cia Jovem de Paraopeba. No lugar dela, ainda que entre improvável e insistência, os artistas do interior de Minas Gerais colocaram a vitória.

E foi assim, contrariando todas as ordens e lógicas, que venceram uma acirrada competição noFestival de Dança de Joinville. Há mais de década, o festival é listado como o maior evento do gênero pelo Guinness World Records.

Os artistas da pacata Paraopeba, cidade de pouco mais de 20 mil habitantes e distante quase 100km de Belo Horizonte, realizaram um plano que parecia inviável: a criação de uma companhia de dança.

A proposta - semeada há 12 anos - foi liderada por Alan Keller, que à época tinha 25 anos e havia sido convidado para assumir a diretoria de Cultura de Paraopeba após estudos na vizinha Sete Lagoas. Ele lembra que não fazia ideia de como seria possível produzir arte em uma cidade que ainda não fomenta produções artísticas.

"Lá não temos teatro. Nem companhias e escolas de dança. Nem sequer uma manifestação artística mais expressiva", descreve Keller. "Começamos como um projeto social chamado Paraopeba Cidadã que atenderia uma juventude ociosa", relembra.

Com média de idade entre 17 e 25 anos, os dançarinos passam por uma seleção e vêm dos municípios de Paraopeba, Sete Lagoas e Matozinhos.

Os anos se passaram. Ainda sem espaço próprio e qualquer tipo de apoio financeiro, a companhia ensaia em uma quadra de esportes emprestada por uma escola municipal. Sem fechamento lateral, o piso irregular é coberto por faixas de linóleo, que diariamente são estendidas e guardadas no segundo andar do prédio pelos próprios bailarinos. Eles atuam sem salários ou patrocínio e precisam transformar banheiros em vestiários.

"Tentamos abstrair. A superação de tudo isso é nosso combustível para continuarmos", conta o diretor e coreógrafo. A conquista do primeiro lugar entre os grupos de dança contemporânea seniores na 35ª edição do Festival de Dança de Joinville é vista como uma resposta aos paraopebenses.

"Vencemos uma etapa importante de convencimento da população e dos familiares, que apoiam somente com estímulo", respira Keller com certo alívio. Ele só consegue conduzir as atividades por ser professor concursado da prefeitura, cuja carga horária tem percentual cedido para desempenhar a direção da companhia.

Capital Nacional da Dança


Para chegar em Joinville, a equipe encarou 21 horas de viagem. "Neste ano, sentimos pela primeira vez um apoio mais efetivo", conta Keller. "Com um ônibus cedido pela prefeitura, conseguimos viajar com 25 bailarinos", celebra.

Embora com uma trajetória de sucesso no maior festival do mundo e premiações sucessivas de 2014 a 2016, esta é a primeira vez que todo o elenco vence junto no mesmo palco.

"Vou ser bem sincero. Não vemos os obstáculos como dificuldades. Joinville é incrível!". Para o mineiro, a cidade catarinense é um lugar de muita produção, conhecimento e trocas.

Encarando alojamentos precários e muitas vezes o frio, os artistas se sentem aquecidos pelo acolhimento do Festival. "Aqui, recebemos convites e conhecemos pessoas que passam acompanhar o nosso trabalho, como a Erika Rosendo voluntariamente faz".

Nascida em Natal e eleita melhor bailarina em 2008, Erika está há mais de uma década vivendo em Santa Catarina. Ali, ela se formou e trabalhou como professora de dança na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Ela foi quem abriu sua casa, em uma comunidade rural de Garuva, para a companhia se hospedar e aguardar a Noite dos Campeões, que encerrou o Festival em 29 de julho.

Arquivo Pessoal/Alan Keller (Divulgação)

Admiradora confessa da companhia, Erika elogia a iniciativa. "É um projeto que integra corpo e pensamento na formação humana. Acompanhar a projeção e ascensão deles, para mim, é um presente".

Refugiados da esperança

A coreografia vencedora é 'Amal. Traduzida do árabe, significa "esperança" e faz uma releitura do conflito humanitário na Síria. "Os apelos da menina Bana Alabed, de Aleppo, nos comoveu", contextualiza Keller.

Para ele, o Brasil também tem espaços de muitos conflitos semelhantes. "Não brigamos por território nem por religião. Mas há um desassossego social que gera desencontros e desafeto. A partir de agora, mais do que nunca, vamos nos manter no nosso caminho para 'amal, para a esperança", anuncia.

Ao retornar para Minas, Keller planeja reforçar os trabalhos para conseguir uma sede para a companhia e fazer que a dança do interior seja mais valorizada. E faz jus ao slogan deste ano, que é uma vida pela dança.

"Nos corações dos nossos bailarinos, o que não falta é força de vontade. Somos muito gratos ao Festival por permitir criar uma ponte entre Paraopeba e o mundo".

Pelo visto, nada é capaz de deter os jovens bailarinos. "A vitória não nos faz descansar", conclui Keller. "A dança nos proporciona sonhos. E Joinville proporciona a realização deles. Não vamos parar".

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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