OPINIÃO

Você não é obrigado a comer

21/03/2014 09:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Até o fim do mês, depois de muito falatório, adiamentos e expectativas, finalmente chega ao mercado americano o Soylent, o alimento líquido feito a base de carboidratos, aminoácidos, fibras e outros ingredientes que promete substituir as nossas refeições. Não se trata de um complemento alimentar, mas de uma própria refeição. O tal líquido pode garantir todos os nutrientes que nosso corpo necessita, sem que tenhamos que comer arroz, feijão ou macarrão.

Para provar a eficácia de sua criação, o engenheiro Rob Rhinehart passou 30 dias se alimentando pura e exclusivamente de Soylent. E sobreviveu para contar a história - com mais disposição do que antes, garante. A ideia surgiu quando Rhinehart trabalhava em uma empresa do Vale do Silício e sua rotina era tão atribulada que até arranjar tempo para se alimentar era um luxo. Ele passou a se questionar por que não existia algo que matasse a fome e garantisse todos os nutrientes e que fosse simples e fácil de ingerir, como em uma pílula para astronautas.

Após um ano de pesquisas e inúmeros testes com centenas de voluntários, o resultado foi um líquido bege claro cujas quantidades nutricionais foram embasadas pelo Instituto de Medicina dos Estados Unidos e pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Rhinehart garante que o Soylent pode suplantar todos os nutrientes necessários para a nossa saúde com cerca de 2 mil calorias por dia.

Agora, com o lançamento comercial do produto nos EUA (a venda a partir de um e-commerce criado pela empresa, a um custo de US$ 3 por sachê) e até o meio do ano na Europa, ele quer convencer as pessoas que comer deve ser um prazer. E não uma obrigação.

Confesso que torci o nariz quando soube do projeto do Soylent: substituir algo tão significativo e rico como uma refeição por um copo de um líquido nutritivo parecia ser contraproducente demais em termos de cultura culinária. Um retrocesso antropológico, já que foi ao redor da mesa e com a panela na mão que nos constituímos seres humanos e seres sociais, capazes de sentar, interagir e celebrar com nossos semelhantes.

Como os antropólogos como Lévi-Strauss e Richard Wrangham defendem, cozinhar é uma atividade humana por definição, por isso nossos laços afetivos estão tão ligados a esse ato de transformar o alimento cru em algo que possa nos nutrir - de corpo e alma.

Mas o argumento de Rhinehart é convincente: as pessoas comem qualquer coisa de qualquer jeito, só para aplacar a fome. Ao eliminar a imposição de satisfazer as necessidades alimentares do nosso corpo, comer pode se tornar mais um prazer, uma celebração. Comer não pode ser uma obrigação, como ainda é para muitos.

Com isso ele separa o ato de comer em dois grupos, em duas finalidades essenciais. As refeições funcionais (como o Soylent), feitas para dar ao corpo os nutrientes que ele precisa, atendendo a uma necessidade puramente fisiológica; e as refeições por prazer, feitas para nos trazer prazer e satisfação, atendendo às nossas necessidades sociais. Uma distinção que pode transformar a forma como encaramos a comida em nossas vidas. O que não é pouco.

O futuro da alimentação está aí, em produtos como o Soylent, feitos para nos trazer nutrientes de forma prática e segura, aventando a chegada das tais pílulas da NASA. Mas espero de verdade que o prazer não seja posto de lado, que não esqueçamos de valorizar os ingredientes da natureza, as criações das mãos dos bons cozinheiros. Ou, como bem lembrou o chef catalão Ferran Adrià, em uma conversa recente que tive com ele por e-mail: "Prefiro pensar que seremos inteligentes o bastante para não deixar de desfrutar a cozinha, algo que evoluiu tanto durante os séculos para nos lembrar que comer é, acima de tudo, prazer". Uma obrigação, essa sim, que não podemos renunciar.