OPINIÃO

O fim das praças de alimentação

12/02/2014 10:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Chicago Tribune via Getty Images
Diners sample the fare at La Piazza in Eataly Chicago, an Italian market with many eating options as well in 63,000 sqare feet. (E. Jason Wambsgans/Chicago Tribune/MCT via Getty Images)

Veja bem, não estou dizendo que as unidades de McDonald's que se alastraram por shoppings centers, aeroportos, rodoviárias e qualquer outro lugar onde houver 5 metros quadrados disponíveis vão fechar as portas. Bate na madeira... Elas continuarão ali, trabalhando para "alimentar" milhares de pessoas com a mesma destreza que mulheres chinesas encaixotam tênis Nike. Mas parece que algo está mudando no que conhecemos por praças de alimentação.

Desde que comer bem virou um status social que as pessoas não medem esforços para ostentar (movimento também conhecido como foodie ostentação), seja nas redes sociais, seja na mesa de bons restaurantes, o mercado percebeu que: 1) as pessoas não estão dispostas mais a comer qualquer coisa, de qualquer jeito, em qualquer lugar; 2) mesmo as que não ligavam para isso (e se viravam bem com um BigMac), perceberam que socialmente precisam ligar, então passaram a fazer as mesmas exigências das pessoas do grupo 1.

A alta gastronomia ganhou popularidade e fez com que os espaços dedicados a alimentar as pessoas em uma vida em constante trânsito (e sem muito tempo para refeições mais devotadas) passassem a adquirir um verniz mais gourmet -- como quase tudo que envolve comida nos dias de hoje, aliás.

O movimento talvez tenha se tornado mais forte com a chegada de espaços como o Eataly, uma rede de mercados inaugurada em 2007 em Turim e apelidada como Disney dos foodies. Aberto no ano passado em Nova York, o enorme mercado virou atração de nova-iorquinos e turistas a barracas que se esforçam em parecer pequenos mercados do interior da Itália e que servem massas, pães, pizzas feitas com capricho, em ambiente polido e devidamente climatizado.

Com o slogan "Alti Cibi" -- algo como "alta gastronomia" --, busca o primor dos ingredientes que serve: da farinha usada nos pães e massas aos queijos trazidos de regiões italianas. E tudo com um visual impecável. É o shopping center da comida de rua, por assim dizer. E digo isso sem tom pejorativo. Os americanos (e as mãos do chef-celebridade Mario Batalli, que é dos sócios da empreitada em NY) souberam melhorar os Eataly que já gozavam de popularidade na própria Itália. Tanto que a unidade de Chicago, aberta meses depois, é também um sucesso. Até São Paulo deve receber ainda este ano um Eataly para chamar de seu, alinhando-se à tendência mundial dos mercados gourmet.

Mas, voltando ao ponto da conversa, o Eataly talvez tenha inaugurado essa nova demanda das praças de alimentação: comida boa em ambiente bacana, sem tirar das pessoas a possibilidade de andarem pelos estabelecimentos em busca do menu que melhor lhes apetece (característica fundamental de sucesso dessas praças). Daí mercados populares mundiais, como o de San Miguel, em Madrid, terem passado por reestruturação para atrair mais turistas -- e também moradores locais. Ou uma das maiores redes de departamento da Europa como o El Corte Inglés, para ficarmos só na Espanha, dedicar um andar inteiro de uma das suas lojas a barracas de comida (como a de um chef como David Muñoz) e produtos gourmet. Algo que tem se alastrado por mercados de rua e grandes lojas, da Europa aos EUA, da Ásia ao Brasil.

Shoppings e aeroportos também têm buscado parcerias com grandes chefs para criar restaurantes mais casuais, que sirvam como alternativa às filas dos fast foods. O consagrado Heston Blumenthal no aeroporto de Heathrow, o bombado Michael Voltaggio no aeroporto de Los Angeles: já há boas opções para não precisar enfrentar a comida do avião.

No Brasil, os shoppings viraram redutos de restaurantes de chefs populares, servindo como atrativo para trazer o público há muito perdido. Com a justificativa da segurança e da comodidade, casas conhecidas abrem seus endereços nos shoppings, com uma série de facilidade aos chefs-lojistas. Em 2014, mais restaurantes devem migrar para centros de compras, fortalecendo a tendência.

Se, por um lado, as praças de alimentação ganham opções ao hambúrguer de isopor com batata frita encharcada de óleo, por outro incorrem na questão do abandono dos mercados de ruas, das feiras livres, com as pessoas preferindo ir a shoppings ou mercados fechados para comer. E esse "rolezinho gastronômico" só vai minando mais ainda a nossa diversidade alimentar urbana.