OPINIÃO

Renuncie, Michel Temer

21/12/2016 10:34 -02
Adriano Machado / Reuters
Brazil's President Michel Temer attends the inauguration ceremony of Federal Accounts Court President (TCU) Raimundo Carreiro in Brasilia, Brazil, December 14, 2016. REUTERS/Adriano Machado

Precisamos reconhecer: o suposto presidente Michel Temer não pensa pequeno. Suas intenções, ao menos da boca para fora, sempre foram grandiosas: unificar o País, pacificar o País, salvar o País. É uma pena que suas ações andem na contramão de seu discurso.

Se quisesse realmente unificar e pacificar o País, o suposto presidente precisaria ser em muitos aspectos melhor - ou menos pior - que a presidente eleita Dilma Rousseff. Em primeiro lugar, ele deveria ter aguardado o fim do processo de impeachment para fazer sua reforma ministerial. Seria mais respeitoso, para dizer o mínimo. E não explicitaria que sabia, com meses de antecedência, o resultado da votação.

Em segundo lugar, não deveria ter nomeado políticos envolvidos em escândalos de corrupção. E caso algum dos nomeados aparecesse em denúncias, Temer deveria afastá-lo sumariamente, como fez Itamar Franco há mais de 20 anos.

O suposto presidente também não deveria querer impor medidas amargas à maioria da população brasileira, como a monstruosa reforma da Previdência, a reforma trabalhista e a PEC do Teto, sem um amplo debate.

Um dos motivos que levou Dilma Rousseff à perda de mandato foi a corrupção. E em vez de se afastar dessa palavra, Temer a abraçou. Nomeou para os principais ministérios duas figuras conhecidíssimas dos escândalos: Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), um dos "anões do orçamento", e Eliseu Padilha (Casa Civil), também conhecido nos bastidores da política como "Eliseu Quadrilha".

Também foram nomeados, entre outros, Romero Jucá (Planejamento), que em conversa gravada pelo ex-senador Sérgio Machado diz que é necessário "estancar a sangria" da operação Lava Jato, e Henrique Alves (Turismo), enrolado em denúncias de recebimento de propina e de contas secretas na Suíça.

Dos quatro citados, o único que continua no cargo é Padilha. Não se sabe até quando.

Se o suposto presidente quisesse realmente unificar e/ou pacificar o País, deveria ter buscado o diálogo com todos os setores da sociedade, além de ter nomeado para o seu entorno pessoas com reputações, pelo menos até o momento, ilibadas.

Mas como fazer isso quando se sabe que ele próprio trabalhou abertamente para derrubar sua colega de chapa? Como ter legitimidade sendo ilegítimo e, pior ainda, conspirador? Não é possível.

Michel Temer muito provavelmente só chegará ao fim do seu mandato se o PSDB quiser. Se não, sairá do cargo em 2017 - por renúncia forçada, por impeachment, já que ele também foi citado por delatores da operação Lava Jato, ou pela cassação da chapa Dilma/Temer pelo TSE -, o que nos levará a uma eleição indireta. Com um presidente eleito pelos congressistas, o caos político e institucional será aprofundado. E a crise nos assombrará por mais tempo do que deveria.

A única maneira de tentar mudar esse roteiro é Michel Temer renunciar ao cargo ainda este ano. Assim, seria convocada uma eleição direta para presidente. Teríamos que suportar o deputado federal Rodrigo Maia como presidente da República por algumas semanas, mas é um risco que merecemos correr.

Não há garantias de que um presidente escolhido pela população, com a legitimidade das urnas, possa iniciar um processo de pacificação nacional ou fazer um bom governo, mas suas chances seriam muito maiores que a de Temer.

Caso o suposto presidente em exercício tenha - se é que algum dia teve - um resquício de nobreza, ele pode renunciar ao cargo e nos dar essa oportunidade de virar o jogo. Segundo pesquisa recente do Datafolha, esse é o desejo de 63% da população brasileira.

Michel Temer deveria atender ao pedido da maioria da população. Deveria ouvir "a voz das ruas" e renunciar.

Renuncie, Michel Temer.

LEIA MAIS:

- O caos institucional no Brasil (e o bate-papo entre Moro e Aécio)

- As prisões de Garotinho e Cabral são merecidas. Mas são justas?

Também no HuffPost Brasil:

10 séries de TV para quem gosta de política