OPINIÃO

Por que Lula lidera a corrida eleitoral mesmo após os bombardeios contra ele

Não há, no País, ninguém que faça frente a Lula. Nem mesmo o PT preparou um sucessor para o seu principal líder.

20/10/2017 17:53 -02 | Atualizado 20/10/2017 17:53 -02
Paulo Whitaker / Reuters
Lula durante sua caravana pelo Nordeste.

Ainda não vi e também não procurei, mas certamente já disseram que os eleitores de Lula não sabem votar ou que são eleitores de cabresto após a pesquisa Datafolha divulgar que Lula, mesmo após todas as denúncias, delações e a condenação pelo juiz Moro, está na liderança de todos os cenários para 2018.

Mesmo não sendo cientista político, me arrisco a fazer uma "quase análise" dos motivos que continuam colocando Lula na liderança das pesquisas.

Não é, na verdade, um exercício difícil de ser feito. As opções que temos no tabuleiro tornam essa "quase análise" muito fácil. Senão, vejamos:

Em segundo lugar nas pesquisas está Jair Bolsonaro, um parlamentar com opiniões preconceituosas e controversas. Recentemente, o referido pré-candidato disse que os autores da exposição Queermuseu deveriam ser "fuzilados". Em seguida, disse que isso seria uma "força de expressão". Para um homem que já declarou que mataria "uns 30 mil", a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não parece ser uma força de expressão.

Marina Silva também vem em segundo lugar, empatada tecnicamente com Bolsonaro. Marina é um caso bem peculiar. Ex-petista, nos últimos anos adotou uma postura pró-mercado. Propôs dar autonomia ao Banco Central e causou polêmica até mesmo entre seus apoiadores.

Pegou mal também o apoio que deu a Aécio Neves no segundo turno da eleição de 2014. Nós, cidadãos que acompanhamos a política à distância, pela imprensa, podemos nos dar o "luxo" de desconhecer as estripulias de Aécio que recentemente começaram a vir à tona. Mas Marina, há muito atuante na política, não tinha o direito de não saber quem é Aécio. E, conhecendo-o bem, não tinha o direito de apoiá-lo.

Ah, um detalhe que complica ainda mais a candidatura de Marina, ao menos em relação à esquerda: para ela, não foi golpe, foi impeachment.

O prefeito de São Paulo, João Doria, aparece em quarto lugar. Doria adotou, já nos primeiros meses no cargo de prefeito, uma agenda de presidenciável, percorrendo várias cidades do Brasil e do exterior, na esperança de se tornar mais conhecido e ganhar mais intenções de voto.

Aos críticos de suas viagens, afirma que é possível administrar a maior cidade do País à distância e que faz reuniões até tarde da noite. É o retrato perfeito do patrão que deseja ver seus funcionários "vestindo a camisa da empresa" e se sacrificando pela companhia, enquanto ele mal aparece para acompanhar o andamento das coisas. No caso, a empresa/companhia é o projeto político de Doria, que deseja ser presidente do Brasil (sabe-se lá por quê).

Há outros eventuais candidatos sobre os quais não vale a pena comentar: Henrique Meirelles (atual ministro da Fazenda e ex-membro da diretoria do grupo JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista), o senador (ex-tucano) Álvaro Dias e João Amoêdo (presidente do Novo, partido que defende o Estado mínimo, algo inconcebível num país com tantas pessoas em situação de fragilidade social).

No entanto, há um candidato que, aparentemente, poderia fazer um bom governo se eleito: Ciro Gomes. Alinhado a ideais da esquerda, Ciro tenta equilibrar ideias progressistas no campo social e econômico com propostas pró-mercado. Algo muito próximo dos dois mandatos de Lula.

A vantagem de Ciro, segundo o próprio, é que ele não vai compactuar com "a bandidagem" da classe política. Ou seja: ele não vai fazer acordos com os abutres do PMDB, DEM, PSDB, PP etc. E também não vai, diz ele, se amalgamar com os grandes empresários.

O problema de Ciro está nos detalhes: dizer que vai desfazer as reformas realizadas no (des)governo Temer, que vai buscar mais justiça social, mais educação, mais saúde, mais segurança. É muito bom. A questão é: como fazer isso? Como ele - leia-se, seu governo - vai agir nessas áreas? Um outro ponto obscuro do discurso de Ciro é o que ele pensa e pretende fazer na área da Cultura.

Mesmo sem mais detalhes divulgados, Ciro Gomes é um candidato que aparentemente pode fazer um bom governo se tiver apoio expressivo da população e se não cair em esparrelas ilusórias, como aconteceu com Dilma Rousseff.

Para boa parte da população, portanto, Lula é uma espécie de porto seguro. Para alguns, as boas lembranças dos anos Lula parecem ofuscar as inúmeras denúncias e investigações. Para outros, a possibilidade de eleger um protofascista, um projeto de Donald Trump ou grandes interrogações faz que a opção Lula ainda seja considerada, mesmo que a contragosto, para alguns. É o voto do "menos pior".

Essas pessoas não necessariamente acreditam que Lula é um "santo", que ele é completamente inocente de tudo o que é acusado. Elas simplesmente rechaçam algumas opções e têm receio de outras.

Cansado de sofrer com uma crise que parece interminável, boa parte do povo brasileiro clama por um pouco de esperança e por dias melhores. Ou, pelo menos, para que "as coisas" parem de piorar. E Lula é quem melhor representa essa esperança.

Se ele vai poder concorrer em 2018, não se sabe. Mas, se a eleição fosse hoje, Lula seria presidente. E isso diz muito não apenas sobre os eleitores e o que eles querem, mas também sobre os nossos políticos. Não há, no País, alguém que faça frente a Lula. Nem mesmo o PT preparou um sucessor para o seu principal líder.

Esse é mais um sinal de que precisamos renovar a nossa classe política. Mas não com os filhos e netos dos caciques de sempre, e sim com pessoas que têm verdadeiro interesse em melhorar o País e dar mais dignidade para a maior parcela da população, principalmente para a mais carente.

Jabá ;)

Publiquei, em agosto, meu segundo livro, Mais um para a sua estante. Ele reúne crônicas sobre livros, escritores e otras cositas más. A maioria delas foi publicada anteriormente na internet (inclusive aqui no HuffPost, "Pão com ovo", "Carnaval entre livros" e "Literatura ostentação"). Se você gosta de crônicas, vale a pena dar ao menos uma olhadinha virtual nele. Neste link você pode ler o sumário, a orelha e a apresentação, e tenho publicado trechos do livro no Instagram e no Facebook.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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