OPINIÃO

O 'Estado-Odebrecht' não foi criado por Lula

Enquanto certos articulistas insistem em chutar o cachorro quase morto que é a "esquerda brasileira", o governo Temer dá continuidade às suas estripulias.

05/03/2017 22:54 -03 | Atualizado 06/03/2017 22:32 -03
Guadalupe Pardo / Reuters
Colunista defende que megaesquema de corrupção na Odebrecht começou bem antes de governo Lula.

Demétrio Magnoli, jornalista e especialista em política internacional, é provavelmente um dos nossos melhores analistas políticos. Dono de um texto exemplar e agradável, Magnoli não se deixa levar por extremismos. Elegante, Magnoli aparenta buscar sempre a ponderação, e suas análises são, no mais das vezes, condizentes com a realidade.

Mas, às vezes, até mesmo os melhores profissionais cometem erros. E nem mesmo Magnoli, pessoa experiente e inteligentíssima, está imune a equívocos.

Sua coluna do último sábado (04/03), na Folha de S. Paulo, é uma prova disso. Nela, Magnoli afirma que "a corrupção, tão velha quanto o Brasil, está disseminada por todos os partidos, mas o 'Estado-Odebrecht' nasceu sob as asas de Lula".

Esse trecho é, basicamente, o cerne de toda a argumentação de muitos antipetistas. Uma bobagem que, de tão absurda, parece piada: a de que a corrupção no governo federal nasceu após a chegada de Lula à Presidência.

Basta uma rápida pesquisa no Google para saber que a Odebrecht foi fundada em 1944. De acordo com o site oficial da organização, no fim da década de 1970 deu-se início à internacionalização da companhia, com contratos assinados no Peru e no Chile.

A atuação em Angola começou em 1984. Menciono esse país porque uma das acusações que sofre o ex-presidente Lula é justamente de fazer lobby para a Odebrecht em Angola. E aqui vale a pena destacar um dado curioso: segundo o site da Odebrecht, no referido ano "as obras da organização no exterior representavam cerca de 30% dos contratos em carteira".

Ainda de acordo com o site, em 1991 a Odebrecht passou a atuar também nos Estados Unidos, "sendo a primeira empresa brasileira a realizar uma obra pública no país", e, no mesmo ano, expande suas operações para a Inglaterra, adquirindo "a SLP Engineering, especializada na construção de plataformas de petróleo".

Em 1992 a Odebrecht dá início a obras na Venezuela, na Colômbia e no México. Dois anos depois, "a Organização Odebrecht completa 50 anos de História com presença em 21 países e 34 mil integrantes".

Quero, um dia, chegar a ter um pouco da inteligência e do talento de Demétrio Magnoli - e não há aqui qualquer ironia, eu realmente o admiro e temos posições convergentes; assim como ele, me autodeclaro um social-democrata -, mas me parece impossível, diante do histórico da Odebrecht, afirmar que, a partir dos anos Lula, criou-se um "Estado-Odebrecht".

Fazer isso é menosprezar o histórico de corrupção envolvendo a própria Odebrecht, que paga propinas a políticos desde a década de 1980, pelo menos, e superfaturar, digamos assim, o poder de Lula. É como se ele fosse o dono de um "Lobby de Midas", e somente graças a ele a Odebrecht teria expandido seus tentáculos no Brasil e no mundo e, consequentemente, passado a distribuir propinas.

No mesmo texto, Magnoli afirma que, "em exercícios de hipocrisia extrema, os intelectuais de esquerda comemoram os inquéritos que atingem o círculo de Temer enquanto denunciam uma suposta 'perseguição de Moro' contra seu idolatrado ex-presidente".

Apesar de recentemente ter colocado na cadeia alguns gatos pingados do PMDB e respingar em membros do PSDB, a Lava Jato, até o momento, atingiu em cheio apenas o PT, e é notório que o ex-presidente Lula é o alvo principal dos procuradores da operação e, claro, do juiz parcialmente implacável Sérgio Moro.

Não se trata de uma questão de opinião. É uma constatação que se dá pelas notícias que são publicadas nos jornais - e me refiro aqui aos grandes jornais, não aos ditos "sites vermelhos". Portanto, não é hipocrisia da esquerda comemorar que a operação finalmente tenha chegado ao núcleo do PMDB. Hipocrisia é afirmar que as investigações estão acontecendo de forma isonômica, porque elas não estão.

Enquanto certos articulistas insistem em chutar o cachorro quase morto que é a "esquerda brasileira", o governo Temer dá continuidade às suas estripulias. Recentemente, nomeou Alexandre de Moraes, um tucano acusado de plágio e enriquecimento ilícito, entre outras coisas, para o Supremo Tribunal Federal, e Osmar Serraglio, ardoroso defensor de Eduardo Cunha, para o Ministério da Justiça.

Seria muito melhor se esses articulistas abrissem os olhos e prestassem mais atenção no que está fazendo a direita brasileira. Lula, Dilma e o PT cometeram erros, é verdade, mas é impossível negar que houve avanços sociais e econômicos durante os governos petistas.

Por outro lado, desde que assumiu interinamente a presidência, Temer e seu grupo político têm se empenhado, utilizando a desculpa de uma agenda reformista que supostamente vai "salvar o Brasil", em patrocinar medidas que trarão sofrimento à maior parte da população brasileira, justamente a mais pobre e necessitada.

O Brasil precisa de algumas grandes reformas, é verdade. Mas elas não podem ser realizadas por um governo que não passo pelo crivo das urnas e que está repleto de envolvidos em escândalos de corrupção. Tampouco podem visar salvar apenas a minoria da população brasileira, justamente a mais rica e privilegiada.

É lamentável que o ódio irracional à "esquerda brasileira" esteja impedindo que algumas das cabeças mais inteligentes do país se deem conta disso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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