OPINIÃO

O caos institucional no Brasil (e o bate-papo entre Moro e Aécio)

12/12/2016 16:35 -02 | Atualizado 12/12/2016 16:35 -02
Adriano Machado / Reuters
Brazil's Senate President Renan Calheiros (L) and federal judge Sergio Moro attend a session at the Federal Senate in Brasilia, Brazil, December 1, 2016. REUTERS/Adriano Machado TPX IMAGES OF THE DAY

Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário nunca foram grandes exemplos de correção e honradez no Brasil. Sempre houve distorções, muito toma-lá-dá-cá, muita injustiça. Mas nunca houve uma crise institucional como a que estamos assistindo nos últimos dois anos.

O Legislativo só legisla conforme seus interesses; o Executivo, além de não ter legitimidade, não vê diferenças entre público e privado; e o Judiciário ou rasga a Constituição ou se acovarda diante dela.

Chegamos ao ponto de o presidente do Senado desobedecer uma decisão judicial expedida por um ministro do Supremo Tribunal Federal - e não sofrer nenhuma sanção. Pelo contrário: após a desobediência, o plenário do STF decidiu em favor do senador.

Simplesmente não é mais possível confiar nas instituições brasileiras. Pior: no cenário atual, com os protagonistas sendo quem são - Michel Temer, Renan Calheiros, Carmem Lúcia/Gilmar Mendes -, não podemos ter sequer esperanças de que a situação vai melhorar. Todas as nossas instituições estão falidas, corrompidas, um completo caos.

Não foi por falta de aviso: muita gente alertou que o impeachment resultaria numa instabilidade maior. Não pelo impeachment em si, mas pela maneira como ele vinha acontecendo, capitaneado por Eduardo Cunha - que hoje está preso - e sem crime de responsabilidade.

Dias atrás, assistindo a um filme ou série, vi um personagem dizer algo assim: "a indústria farmacêutica cria a doença para vender o remédio".

Não que eu acredite nisso, mas é mais ou menos o que está acontecendo no Brasil. Quando perceberam que o governo Dilma não conseguiria reagir à crise política - ampliada pela operação Lava Jato -, e à crise econômica - resultado de decisões do governo que beiram a irresponsabilidade -, o PMDB e a turma dos demotucanos enxergaram uma oportunidade. "Por que não criamos uma crise ainda maior para depois nos apresentarmos como remédio?", pensaram.

O problema é que, como o remédio está com o prazo de validade vencido, o doente ficou ainda pior.

E eis o estado em que nos encontramos: quem pode, banca uma transferência para uma clínica melhor (Miami, Uruguai, Europa...). Quem não pode, tem duas escolhas: ou espera a morte chegar, ou luta para trocar a equipe médica.

Eu não quero ver o paciente morrer. E você?

Sergio Moro e Aécio Neves: bons amigos?

Em evento da revista IstoÉ, o juiz Sergio Moro e o senador Aécio Neves (PSDB) foram flagrados em momentos de grande descontração, conversando e sorrindo bastante.

Rapidamente as imagens se espalharam pela internet, causando indignação em muita gente. Não é a primeira vez que o juiz se envolve em polêmica semelhante: Moro vem participando de eventos patrocinados por ou ligados a tucanos há meses, apesar de todas as acusações de partidarismo que recaem sobre ele.

Estando à frente da maior investigação de corrupção da história do País, o mínimo que o juiz Moro deveria fazer seria se manter distante de políticos que estão envolvidos no escândalo. É bom lembrar que Aécio Neves e outros tucanos foram acusados de recebimento de propina por vários delatores.

Se Moro fosse um juiz "qualquer" - sem aqui desmerecer os outros juízes -, as imagens não causariam tanta celeuma. Mas ele não é. O contato de Moro com políticos envolvidos na Lava Jato deveria ser apenas em audiências e depoimentos. Ou seja: "dentro dos autos".

Para aqueles que não viram problema no bate-papo entre Moro e Aécio, sugiro fazer a seguinte experiência: imaginar Moro conversando animadamente com o ex-presidente Lula.

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