OPINIÃO

Ir para a rua ou não, eis a questão

11/03/2016 18:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02
MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Demonstrators rally in support of Brazilian President Dilma Rousseff's impeachment at Paulista Avenue, in Sao Paulo, Brazil on December 13, 2015. Thousands of demonstrators clad in the yellow and green national flag's colors protested Sunday in several cities of Brazil to demand Rousseff's removal from office. Brazil's Supreme Court on Tuesday suspended action by a special congressional commission weighing impeachment proceedings against embattled President Rousseff. The move freezes the impeachment process until December 16 when the court convenes for a full session. AFP PHOTO / Miguel SCHINCARIOL / AFP / Miguel Schincariol (Photo credit should read MIGUEL SCHINCARIOL/AFP/Getty Images)

Um amigo me pergunta se participarei das manifestações contra o governo neste domingo (13).

Respondo que não e iniciamos uma conversa sobre a atual situação política do país.

Dilma cai ou não cai? E essa operação contra o Lula? Ele será preso ou não? Ele não poderia ter se deixado levar pelo poder! Quando Eduardo Cunha vai finalmente cair? Como pode o Bolsonaro presidente? Citaram mais uma vez o Aécio Neves numa delação premiada, como é que não investigam os tucanos? E essa crise econômica que não acaba?

Chegamos a algumas conclusões:

1. O cenário é quase desesperador;

2. Precisamos de mudanças profundas e urgentes;

3. Eduardo Cunha tem que ser preso o quanto antes - ou cassado, pelo menos.

Quando me dou conta de que não perguntei se ele vai para a rua, devolvo a pergunta, mesmo esperando que a resposta será negativa.

Meu amigo em questão é "de esquerda" (atualmente essa expressão é dita, muitas vezes, de maneira pejorativa).

Apesar de descontente com os rumos que tomaram o governo Dilma, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores, ele afirma que o impeachment talvez não mude muita coisa.

"Mas como assim?", pergunto a ele.

Ele justifica: "não há quem me faça confiar" no vice-presidente Michel Temer e no PMDB, os principais beneficiados com um eventual impeachment.

E então me faz lembrar de quando, no governo Lula, Temer conseguiu evitar a cassação de Renan Calheiros, que na época era presidente do Senado e estava envolvido num escândalo que ficou conhecido como "Renangate".

Ele afirma que, com o PMDB na presidência da república, coisas ainda mais estranhas podem acontecer, e que alguns parlamentares que estão na mira da Justiça Federal podem acabar livres de investigações.

Meu amigo também usa como argumento o fato de que alguns dos maiores entusiastas do impeachment estiveram ou estão envolvidos até o pescoço em vários escândalos de corrupção. Eles não teriam legitimidade para exigir a saída da presidente. E cita alguns nomes: Paulinho da Força, Agripino Maia, Cássio Cunha Lima, Romero Jucá e, claro, Eduardo Cunha, "o maior patife do país", em suas palavras.

Para o meu amigo, o melhor caminho para o Brasil seria a realização de uma nova eleição presidencial, após a cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE, caso seja provado que dinheiro ilegal abasteceu a campanha de ambos.

"Mas isso pode demorar um pouco", eu digo.

E ele afirma que é melhor assim, pois daria tempo de Eduardo Cunha renunciar à presidência da Câmara ou ser cassado. Assim, seria realizada uma eleição para eleger um novo presidente.

Depois disso, e "sem um corrupto na presidência da Câmara", diz meu amigo, "poderíamos ficar menos apreensivos com a saída de Dilma e Temer".

Faço meus os argumentos dele.

Não vou protestar no domingo, mas isso não significa que eu seja a favor do governo ou que condene aqueles que vão protestar.

Por também considerar que, neste momento, o impeachment traria mais prejuízos do que vantagens, torço para os protestos de agora serem menores do que os anteriores.

E torço, sobretudo, para que as manifestações sejam tranquilas, sem confrontos, e para que os entusiastas da ditadura fiquem em casa, recolhidos às suas insignificâncias.

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