OPINIÃO

Esqueçam os batedores de panelas

A pergunta é sincera: onde foi parar toda aquela indignação? Será que eles não estão vendo o que está acontecendo?

08/02/2017 02:56 -02 | Atualizado 09/02/2017 18:22 -02
AFP/Getty Images
Um manifestante usa camiseta de apoio ao juiz Sérgio Moro e bate uma panela durante protesto a favor do impeachment de Dilma Rousseff

A cada novo escândalo envolvendo os protagonistas do atual governo federal, alguém pergunta (inclusive este que vos escreve): "onde estão os batedores da panela?".

Para alguns, fazer tal questionamento é apenas uma forma de ironizar aqueles que, enquanto a presidente eleita Dilma Rousseff estava no poder, se indignavam com a corrupção "no Brasil" e queriam derrubá-la. Para outros, a pergunta é sincera: onde foi parar toda aquela indignação? Será que eles não estão vendo o que está acontecendo?

Dilma foi afastada da presidência no dia 12 de maio de 2016. Onze dias depois, foram divulgadas na imprensa conversas telefônicas entre o senador Romero Jucá e o ex-senador Sérgio Machado. Eles diziam que o ideal era "botar o Michel" e fazer um "grande acordo nacional", "com o Supremo, com tudo", pra "delimitar" a operação Lava Jato "onde está".

Na mesma conversa, Jucá diz que "Michel é Eduardo Cunha". Além disso, os dois amigos citam nomes de colegas do PSDB, como os senadores Aloysio Nunes, José Serra (atual ministro das Relações Exteriores) e Aécio Neves. Sobre este, aliás, Machado solta uma frase lapidar: "O primeiro a ser comido vai ser o Aécio".

Até houve, naquele 23 de maio, alguns tímidos panelaços. Mas não se sabe ao certo se foram panelas de coxinhas, de petralhas, de isentões, ou um pouco de cada grupo.

O fato é que, depois disso, muitos outros escândalos vieram, mas as panelas, não. As panelas ficaram mudas. E a impressão que fica – na verdade, muito mais que uma mera impressão – é que o problema dos batedores de panela nunca foi "a corrupção no Brasil". Era – e continua sendo – o PT. E Dilma, Lula, a esquerda e o "comunismo".

Nos últimos dias, Michel Temer criou dois ministérios – logo ele, que cortou várias pastas assim que assumiu interinamente o cargo de presidente –, um deles para abrigar seu amigo pessoal Wellington Moreira Franco, citado mais de 30 vezes por delatores da operação Lava Jato.

Até então, Moreira Franco poderia a qualquer momento cair nas mãos de um juiz de primeira instância. Se o tal juiz fosse o parcialmente implacável Sérgio Moro, ou o por ora totalmente implacável Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro, ele estaria em maus lençóis. Agora, qualquer investigação ou pedido de prisão direcionada ao novo ministro terá de passar primeiro pelo Supremo Tribunal Federal, o que é uma ajuda e tanto, se considerarmos que o Supremo - ou parte dele - está dentro do tal "acordo".

Na última segunda-feira (06/02), Michel Temer indicou Alexandre de Moraes, seu então ministro da Justiça, para ocupar a vaga de Teori Zavascki no STF. Não poderia haver escolha pior: aprendiz de Gilmar Mendes, Moraes é falastrão, espetaculoso e filiado ao PSDB.

Nem num caso, nem no outro, as panelas foram ouvidas. Em março de 2016, quando Dilma Rousseff nomeou o ex-presidente Lula para a Casa Civil, supostamente para dar foro privilegiado ao seu maior aliado, as panelas quase ficaram roucas, manifestantes foram para a porta da casa de Teori Zavascki e juízes de primeira instância soltaram liminares impedindo a posse.

Agora, não há panelas, Teori está – ou foi – morto, a Rede precisou entrar com uma ação na justiça para tentar anular a nomeação de Moreira Franco e Alexandre de Moraes está prestes a assumir a cadeira de Teori.

Atordoada por tantos revezes, por tanto escárnio vindo do atual governo, a esquerda e os isentões parecem não ter entendido que as panelas não vão mais fazer barulho. Já passou da hora de eles esquecerem os batedores de panelas e pensarem no que pode ser feito para enfrentar, de maneira digna e eficiente, o governo que aí está.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

Impeachment de Dilma Rousseff