OPINIÃO

Eduardo Cunha deveria ter sido preso um ano atrás

19/10/2016 16:52 -02 | Atualizado 19/10/2016 16:52 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian deputy Eduardo Cunha, former president of the Lower House of Congress, is pictured during the session of the Committee on Constitution and Justice, in Brasilia on July 12, 2016. Cunha, the Brazilian politician who spearheaded the drive to impeach suspended president Dilma Rousseff, on July 7 resigned from his post as congressional speaker as a corruption probe closed in on him. / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Desta vez não tivemos o ministro da justiça Alexandre Moraes comentando, todo serelepe e com antecedência, que haveria uma ação da operação Lava Jato esta semana. Não tivemos, também, uma adaptação do já clássico bordão "Lula preso amanhã". Tampouco tweets de editores de revistas semanais prevendo um grave acontecimento político. E muito menos o Japonês da Federal.

Não, nada disso: Eduardo Cunha foi preso na surdina, sem qualquer tipo de estardalhaço. Se quiser tocar no assunto em seu programa, o José Luiz Datena não poderá utilizar uma de suas frases mais conhecidas: "ibagens, tebos ibagens".

Se olharmos para trás - e fizermos uma pesquisa no Google -, encontraremos imagens das prisões de diversos empreiteiros e políticos. Mas é possível que, no futuro, não tenhamos uma foto sequer de Eduardo Cunha sendo conduzido por agentes da Polícia Federal para guardar de recordação. Se ela existe, ainda não apareceu.

Além de contrastar com toda a pirotecnia do Ministério Público Federal, que não fez uma apresentação de PowerPoint para o Cunha, e da Polícia Federal no âmbito da operação Lava Jato, a prisão de Eduardo Cunha, autorizada pelo juiz Sergio Moro, chama a atenção também pelo atraso: ela deveria ter acontecido há pelo menos um ano.

Afinal, faz tempo que existem motivos para prendê-lo. Antes inócuos, surpreendentemente alguns desses motivos foram utilizados pelo MPF para justificar a prisão, como, por exemplo, "manobras junto a aliados no Conselho de Ética para enterrar o processo que pedia a cassação do deputado", "convocação pela CPI da Petrobras da advogada Beatriz Catta Preta, que atuou como defensora do lobista Julio Camargo, responsável pelo depoimento que acusou Cunha de ter recebido propina da Petrobras" e "ameaças relatadas pelo ex-relator do Conselho de Ética, Fausto Pinato (PRB-SP)".

O fato de a prisão de Cunha acontecer somente agora, mesmo tendo o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, também muito atrasado, solicitado sua prisão ao Supremo Tribunal Federal em junho deste ano, reforça as suspeitas de que, primeiro, o deixaram livre para conduzir o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Depois, para que ele tentasse costurar a salvação do seu mandato (o que felizmente não foi possível). E, finalmente, para que destruísse provas dos crimes que cometeu.

Diante dessa prisão inesperada - o comentário nas redes sociais era o de que o preso da semana seria o ex-presidente Lula (se bem que a semana ainda não acabou) -, só nos resta aguardar os desdobramentos, que podem novamente surpreender.

Cunha negociará uma delação premiada? Sua esposa, Cláudia Cruz, também será presa? Gilmar Mendes concederá um habeas corpus a Eduardo Cunha? O governo Temer cai mesmo em "24 horas", como declarou várias vezes o senador petista Lindbergh Farias? E, por fim: Lula preso amanhã?

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