OPINIÃO

Clássicos literários facilitados

12/05/2014 10:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Ainda repercute no meio literário a notícia veiculada no último 04 de maio pela Folha de S.Paulo, sobre as edições "facilitadas" dos clássicos O alienista, de Machado de Assis, e A pata da gazela, de José de Alencar. De acordo com a matéria, serão distribuídos gratuitamente 600 mil exemplares das obras, num projeto, ao que tudo indica, capitaneado pela escritora Patrícia Secco, autora de centenas de livros infantis.

Em entrevista ao jornal, referindo-se a Machado, a escritora explica o porquê da iniciativa: "Os livros dele têm cinco ou seis palavras que [os jovens] não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso".

A polêmica teve início na própria matéria. Alcides Villaça, poeta, crítico literário e professor de Literatura Brasileira da USP, declarou o seguinte: "É absurdo imaginar que a função da escola seja facilitar qualquer coisa, em vez de levar a trabalhar com as dificuldades da vida, da crítica e do conhecimento", e finalizou com esta: "Apresentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?". (É lógico que não se deve levar ao pé da letra esta frase de Villaça. Foi apenas uma ironia hiperbolizada, digamos assim.)

O link para a notícia mal começou a ser compartilhado e um abaixo-assinado contra o projeto já havia sido criado, enquanto comentários contra e a favor pipocavam internet afora.

A princípio, para literatos ortodoxos, a ideia pode mesmo não parecer das melhores. Mas é preciso não se deixar levar pela primeira impressão e refletir um pouco mais a respeito.

Adaptações de clássicos literários são feitas há décadas - talvez séculos - no mundo inteiro. Estão nas livrarias e nas bibliotecas versões resumidas, ilustradas e em quadrinhos de obras como As viagens de Gulliver (Jonathan Swift), A volta ao mundo em 80 dias (Júlio Verne), Moby Dick (Herman Melville), Dom Casmurro (Machado de Assis), O cortiço (Aluísio Azevedo), Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre), entre muitas outras. Todas essas adaptações são versões "facilitadas" dos clássicos.

Qual a diferença, então, entre a proposta da escritora Patrícia Secco e as adaptações citadas? Ambas não têm, como objetivo, "facilitar" as obras? No caso que gerou a polêmica, é bom relembrar, palavras mais complicadas foram trocadas por termos mais simples, de melhor entendimento. Na matéria da Folha, escrita pelo jornalista Chico Felitti e publicada na coluna "Cidadona", há uma mostra: "um 'sagacidade' virou 'esperteza', por exemplo".

Ora, agora me pergunto, dias depois de criticar publicamente, no Facebook, a iniciativa: que mal há? Essa é apenas mais uma maneira de se adaptar um clássico literário, uma forma diferente da tradicional, ou seja, do formato com o qual estamos acostumados.

O mais importante a ser discutido a partir disso é a questão de quando inserir obras clássicas nas escolas. Fazer as crianças e pré-adolescentes lerem Machado de Assis, José de Alencar, Raul Pompéia, entre outros, ajuda mesmo na formação de leitores? Muito se fala que a adoção precoce de clássicos pode fazer o efeito contrário, ou seja, afastar os jovens da literatura. Não seria mais produtivo começar com livros mais divertidos, mais coloridos, para que o gosto pela leitura seja consolidado, e deixar os clássicos para o ensino médio? Outra questão, ainda maior, é: como melhorar o ensino de base no Brasil?

Talvez essas sejam as questões mais importantes. A literatura e a educação do nosso país sairiam ganhando se elas fossem melhor discutidas - e resolvidas.