OPINIÃO

BEGEAPÁ: Bagunça Generalizada que Assola o País

06/12/2016 17:36 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian President Michel (L) talks to Senate's President Renan Calheiros as they attend the presentation of the Brazil Merit Award for Public Management at the Brazilian Court of Audit in Brasilia on November 29, 2016. A Brazilian opposition party on Monday filed a petition for the impeachment of President Michel Temer, underlining the growing difficulties facing the center-right leader as he tries to introduce austerity reforms. The impeachment demand filed by the PSOL, a small leftist party, was unlikely to be accepted, so had mostly symbolic significance. The PSOL argues that Temer committed crimes by allegedly interfering in a business dispute to aid a friend in his cabinet. Temer denies any wrongdoing in the affair. / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Na década de 1960, Sérgio Porto, um dos maiores cronistas brasileiros, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, deu início ao que batizou de FEBEAPÁ: Festival de Besteiras que Assola o País.

Em suas crônicas, Stanislaw narrava acontecimentos tão absurdos que alguns podem até achar que foram inventados, como quando a seleção de futebol da então Alemanha Oriental veio ao Brasil disputar um amistoso com a seleção brasileira e o Itamaraty divulgou uma nota informando que a partida só seria realizada se não houvesse "cunho político", explicando que "cunho político" seria a execução dos hinos nacionais dos dois países.

Ou como o caso de um delegado de Mariana, em Minas Gerais, que "proibiu casais de sentarem juntos na única praça namorável da cidade e baixou portaria dizendo que moça só poderia ir ao cinema com atestado dos pais".

Nascido em 1923, Sérgio Porto nos deixou muito cedo, aos 45 anos, em 1968. Mas a expressão que ele criou permanece atual - e certamente permanecerá (infelizmente).

Porém, diante da crise política instalada no Brasil nos últimos anos, proponho uma nova sigla/expressão (com todo o respeito a Porto): BEGEAPÁ: Bagunça Generalizada que Assola o País.

Porque a verdade é que desde o fim de 2014 o Brasil virou uma verdadeira bagunça. Começou com Aécio Neves, candidato derrotado na última eleição presidencial, contestando o resultado e solicitando recontagem de votos. Depois, veio o ex-deputado Eduardo Cunha e suas pautas-bomba, que travaram o governo Dilma (que, a propósito, era uma bagunça por si só).

Em seguida, vieram o processo de impeachment e as artimanhas do vice-presidente Michel Temer, que contribuiu para a desestabilização do País ao vazar uma carta endereçada à presidente Dilma Rousseff e um áudio no qual treinava o discurso que faria quando assumisse a presidência da república.

Mais recentemente, vieram a queda de Dilma, a cassação de Eduardo Cunha e, esta semana, tivemos mais um episódio do que parece ser um crossover de Os Trapalhões com Os Caras de Pau: o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, afastou o senador Renan Calheiros, do mesmo partido de Cunha e Michel Temer, da presidência do Senado.

Renan não aceitou receber a notificação do afastamento e entrou com um recurso no STF para tentar derrubar a decisão do ministro. Neste momento, não sabemos ao certo se o presidente do Senado é Renan ou Jorge Viana (PT), que é o 1º vice-presidente do Senado.

Dias antes dessa confusão, Michel Temer deu uma declaração no mínimo curiosa: ele afirmou que "Como não temos instituições muito sólidas, qualquer fatozinho, me permitam a expressão, abala as instituições".

Se uma afirmação dessa natureza causa estranheza por ter sido feita pelo vice-presidente da república no exercício da presidência, que até outro dia afirmava que o Brasil tinha uma estabilidade política extraordinária, o que dizer do fato de essa frase ter sido proferida em meio à crise gerada pela denúncia do ex-ministro Marcelo Calero (Cultura) de que outro ex-ministro, Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo), o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) e o próprio Michel Temer o pressionaram para agir em favor de interesses pessoais de Geddel?

Os três volumes do FEBEAPÁ foram publicados, respectivamente, em 1966, 1967 e 1968. Mas, como diz o jornalista Sérgio Augusto na apresentação da mais recente edição que reuniu os três volumes, "Com a morte de Sérgio Porto, em 1968, o festival chegou ao fim. Infelizmente, só por escrito".

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