OPINIÃO

A nova moda no Brasil: Corruptos contra a corrupção

Muitos dos "inocentes" que foram às ruas talvez não soubessem, mas era claro o que viria pela frente: o velho PMDB corrupto de sempre.

04/04/2017 13:42 -03 | Atualizado 05/04/2017 17:23 -03
Paulo Whitaker / Reuters
Manifestantes comemoram impeachment de Dilma Rousseff.

Fui um dos que bateram na tecla de uma nova eleição presidencial em vez do impeachment. Assim como muita gente, eu sabia que aquela história de "primeiro tiramos a Dilma, depois tiramos o resto" não passava de papo furado.

Qualquer um que tenha lido um pouco mais a respeito dos bastidores de Brasília e do governo Dilma sabia que o PMDB sempre foi o grande ladrão da História e que eles não "largariam o osso". Isso não é de agora, é desde a década de 1980. Todos os outros partidos vieram nesse vácuo.

Mesmo assim, muita gente ignorou a ideia da nova eleição sem nem tentar protestar pela renúncia coletiva, o que mostra que outro argumento, aquele do "vocês que colocaram o Temer lá", é patético - principalmente quando dirigido a pessoas que nem votaram na Dilma, como é o meu caso.

Muitos dos "inocentes" que foram às ruas talvez não soubessem, mas os líderes dos movimentos que mobilizaram toda aquela gente sabiam muito bem o que viria pela frente: o velho PMDB corrupto de sempre no comando, com o PSDB sendo sócio majoritário do "novo governo".

Muitos disseram - inclusive o senador Romero Jucá - que toda a movimentação contra Dilma era, no fim das contas, um caminho para salvar alguns grupos políticos da Operação Lava Jato. Nas palavras do senador, colocar "o Michel", fazendo "um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo", era a única forma de "estancar a sangria".

É verdade que, até o momento, não conseguiram estancá-la completamente, mas algumas coisas vão sendo acertadas aqui e ali. Alexandre de Moraes, acusado de plágio e enriquecimento ilícito, foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal; Osmar "Grande Chefe" Serraglio, um dos líderes da tropa de choque do ex-deputado Eduardo Cunha, foi nomeado ministro da Justiça; Moreira "Angorá" Franco, citado em delações da Lava Jato, também foi nomeado ministro e ganhou foro privilegiado.

O grande acordo também contou com a participação de alguns movimentos populares, como o Movimento Brasil Livre, que recebeu dinheiro de partidos políticos - PMDB, PSDB e DEM - para promover suas ações.

Um dos líderes do MBL gostou tanto dessa experiência que, semanas atrás, foi pego com a boca na botija: a campanha de Fernando Holiday, eleito vereador de São Paulo pelo DEM, utilizou recursos não declarados para divulgar o candidato. Em outras palavras, o vereador se beneficiou de caixa 2.

Holiday não deve ser pioneiro na tática de combater a corrupção fazendo corrupção, mas seu caso não deixa de ser espantoso.

O vereador tentou se explicar, disse que há um artigo de lei que permite que eleitores ajudem financeiramente em campanhas com doações não declaradas de até mil ufir (aproximadamente R$ 1.064,00), mas só acredita nisso quem não sabe ler a excelente matéria feita pelo BuzzFeed, que revelou a maracutaia. O dinheiro utilizado saiu das mãos de uma das coordenadoras da campanha de Holiday, e ultrapassa e muito as tais mil ufir (que, a propósito, foi extinta em 2001).

Infelizmente, corruptos contra a corrupção estão se tornando cada vez mais comuns no Brasil. No dia 17 de março, a Polícia Federal fez a maior operação de sua História, a Operação Carne Fraca, que investiga fraudes absurdas em grandes frigoríficos. Além de terem pagado propinas a fiscais do Ministério da Agricultura, para que fizessem vista grossa em fiscalizações, frigoríficos destinaram carnes adulteradas até para a merenda escolar.

Um dos presos na operação é fã do juiz parcialmente implacável Sérgio Moro. O médico veterinário Flávio Evers Cassou, funcionário da Seara, costumava publicar, numa rede social, manifestações de apoio ao juiz e contra Dilma, Lula e o PT.

Uma das postagens compartilhadas por Cassou foi uma imagem com os dizeres: "Programa Mais Juízes - Já que importaram médicos de Cuba... seria bom agora importarem juízes da Indonésia?", fazendo uma alusão ao fato de brasileiros terem sido condenados à morte naquele país por tráfico de drogas.

Ao saber disso, um amigo meu questionou, com toda a razão, se Cassou ainda defende a importação de juízes indonésios para o Brasil.

Desconfio que ele tenha mudado de ideia.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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