OPINIÃO

A condenação de Lula é uma aberração

O que estamos presenciando no Brasil beira o Estado de exceção.

17/07/2017 19:14 -03 | Atualizado 17/07/2017 19:15 -03
Anadolu Agency via Getty Images
Após a condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sério Moro, manifestantes tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo, em apoio ao presidente.

Você já parou para pensar no que levou o juiz Sérgio Moro a absolver Cláudia Cruz e Adriana Ancelmo, esposas de Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, respectivamente?

Ambas, você deve saber, fizeram a farra com o dinheiro público roubado por Cunha e Cabral. Elas sabiam que o dinheiro que gastavam era desviado. Cláudia Cruz tinha uma conta na Suíça na qual Eduardo Cunha depositava dinheiro desviado. Dinheiro que ela gastava como se não houvesse amanhã.

Você já parou para pensar por que o juiz Sérgio Moro, numa atitude covarde, levantou sigilos de áudios de conversas de dona Marisa Letícia, esposa do presidente Lula, com um de seus filhos? Conversas que não tinham a ver com as investigações, diga-se. E por que ele levantou o sigilo de uma conversa gravada ilegalmente entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula?

Você já parou para pensar por que o juiz Sérgio Moro aliviou a pena do doleiro Alberto Youssef, condenado a 117 anos de prisão mas que, neste momento, está cumprindo pena em regime aberto?

Bem, se você nunca se fez essas perguntas, talvez seja a hora de pensar a respeito. Porque foi esse Sérgio Moro - há pouco tempo flagrado confraternizando com o senador tucano Aécio Neves - que condenou o ex-presidente Lula, sem provas, à prisão. Justamente no dia seguinte à aprovação de uma reforma trabalhista monstruosa e na semana em que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados rejeitou uma denúncia gravíssima de corrupção contra o presidente Michel Temer.

Mas o problema não é a condenação de Lula. Se houvesse provas, muita gente reclamaria, é claro, mas eu, por exemplo, não estaria escrevendo este texto. Afinal, haveria provas cabais. E como contestar uma condenação com provas?

O problema é que, no caso de Lula, não existem provas. A condenação foi baseada em indícios, delações, ilações, "ouvi dizer". Ao que tudo indica, foi uma condenação encomendada e política, apenas para que Lula seja uma carta fora do baralho na política brasileira.

As esposas de Cunha e Cabral, que usaram dinheiro público roubado, se livraram da Justiça. Mas dona Marisa, que mesmo em coma sofreu humilhações nojentas de pessoas repugnantes, morreu em decorrência do desgaste emocional que a decisão de Sérgio Moro provocou em sua vida.

"Mas Cunha e Cabral estão presos", alguém pode retrucar. Estão, claro que estão. Se não estivessem, com tantas provas que existem contra eles, o escândalo - e o escárnio - seria ainda maior.

O que assusta e causa indignação é que, no caso de Lula, transformaram indícios em provas. E isso não é justo nem correto. Criminosos devem ser condenados, lógico, desde que sejam apresentadas provas irrefutáveis. Mas não é esse o caso.

Essas condenações com base em indícios e delações premiadas, algumas muito suspeitas, vão acabar nos custando muito caro. Não se pode "brincar" com o Estado de Direito, nem utilizar subterfúgios para condenar injustamente quem quer que seja.

O que estamos presenciando no Brasil beira o Estado de exceção. Vamos ver até quando o nosso país vai aguentar passivamente tantas arbitrariedades.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- O que Jimmy Kimmel tem a dizer para os governantes brasileiros?

- A nova moda no Brasil: Corruptos contra a corrupção

Lula na Lava Jato: Repercussão internacional