OPINIÃO

A cada escritor o seu quinhão

25/09/2015 17:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
PhotoAlto/Odilon Dimier via Getty Images
Man writing in diary, cropped view of hands

Em 1953, aos 28 anos, Rubem Fonseca, escritor mineiro radicado no Rio de Janeiro, foi morar por alguns meses em Nova York. Naquela época, ele ainda não havia publicado nenhum livro, e a viagem foi resultado de sua competência como policial -- fora selecionado, com outros nove colegas, para fazer um curso de aperfeiçoamento nos Estados Unidos.

Por acaso, ficou hospedado em dois hotéis famosos por terem abrigado escritores.

No primeiro, The Albert, soube que Thomas Wolfe, enquanto lá esteve, escreveu alguns pedaços do romance autobiográfico Of time and the river. No segundo, o Chelsea, hospedaram-se antes de Fonseca autores como Mark Twain, Vladimir Nabokov e Arthur Miller.

No bar do Chelsea, em novembro daquele ano, aboletou-se ao lado de Fonseca o escritor galês Dylan Thomas. Horas depois, durante a madrugada, uma ambulância foi acionada para levar Thomas a um hospital, onde faleceu. Fonseca foi, portanto, um dos últimos a ter contato com o autor de livros como Retrato do artista quando jovem cão e A Child's Christmas in Wales.

Essa história está no livro O romance morreu, que reúne crônicas e artigos de Rubem Fonseca originalmente publicados no site Portal Literal.

Lendo as memórias nova-iorquinas de Rubem, vieram à minha mente alguns episódios que vivi, em algumas das viagens que fiz para assistir a eventos literários.

Lembro, por exemplo, de, num restaurante em Paraty, ter almoçado numa mesa ao lado de um certo jornalista paulistano, que já foi apresentador do programa Roda Viva. Foi durante uma Flip - Festa Literária Internacional de Paraty -, e, como era de se esperar, o restaurante estava lotado, o que ocasionava certa demora no atendimento.

Enquanto o meu almoço -- e o do jornalista -- não chegava, pensei em puxar conversa, dizer que admirava o trabalho dele etc. Desisti quando ele começou a espernear e berrar por causa da lentidão.

Naquela mesma Flip - a de 2007 -, tive outro dissabor. Ao me ver ao lado de um dos melhores editores brasileiros, decidi cumprimentá-lo. Estirei minha mão e comecei a dizer "olá, Fulano...". Ele me ignorou solenemente: virou o rosto e saiu andando.

Mas, em minhas andanças, não tive apenas decepções. Ainda naquela Flip, troquei algumas palavras com Daniel Galera, que no ano anterior havia lançado o excelente romance Mãos de cavalo e já era um dos mais requisitados autores nacionais. Tranquilo e humilde, conversamos por uns alguns minutos após o término de uma das mesas do evento.

Anos mais tarde, numa das edições do Fórum das Letras de Ouro Preto, fiquei hospedado no mesmo hotel em que estava o escritor angolano Ondjaki, e aproveitei para rapidamente elogiar sua participação em uma das mesas do dia anterior, enquanto tomávamos o café da manhã - em mesas separadas e cada qual com a sua companhia, é bom deixar claro.

Nada comparado, entretanto, à experiência vivida por Rubem Fonseca.

O mais próximo que cheguei dela - ou seja, encontrar, por acaso, um autor do porte de Dylan Thomas - foi... na Flip de 2007.

Ao fim da leitura que fez de um trecho do seu então novo romance, Diário de um ano ruim, o sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, passou ao meu lado, ao se encaminhar para o local onde haveria uma sessão de autógrafos.

Meio hipnotizado - Coetzee é um dos meus autores favoritos -, fiquei encarando o escritor, observando seus movimentos. Não arrisco descrever aquele momento, pois o tempo sempre embaça algumas recordações, mas lembro-me claramente de que ele também me encarou, durante alguns poucos segundos.

A cada escritor o seu quinhão. Enquanto Rubem Fonseca, mesmo sem ser ainda Rubem Fonseca - seu primeiro livro seria publicado apenas dez anos depois -, tomou alguns drinques ao lado de Dylan Thomas, eu vi J.M. Coetzee, cercado por dezenas de pessoas, passar por mim. Isso, é claro, não significa ou representa absolutamente nada.

Um dia, quem sabe, terei a sorte que teve o Rubem. Será mais uma história para contar.

MAIS LIVROS NO BRASIL POST:

Os 20 livros mais marcantes para os brasileiros

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: