OPINIÃO

A Cultura da Gracinha

13/11/2015 16:02 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Divulgação/iStock

Na sala de medicamentos de um hospital desconhecido, o paciente se preparava para receber as injeções. "Fica em pé, abaixa o braço e segura a manga da sua blusa com a outra mão", orientou a enfermeira, enquanto aplicava o medicamento no ombro do enfermo.

Então, começam-se os gritos. O sofrimento do sujeito vai além das dores causadas pela agulha. É perturbador. Seria um surto psicológico? "Não massageia não, hein. Não massageia não, senão fica roxo", disse a mesma profissional, ignorando o desespero do doente, de quem gargalha do sofrimento e a quem chama de negão.

Suficientemente chocante, a cena silenciou todos os presentes numa "sala" de WhatsApp. O vídeo foi enviado por um jovem profissional de saúde, que o compartilhou com um aviso: "É isto que eu tenho que aturar em hospital".

Qualquer profissional da área de comunicação ou mercado digital deve estar cansado de ver os estudos sobre a revolução causada pela internet.

Basicamente, o ambiente online modificou relações sociais, transformando qualquer pessoa não só em público como produtor de conteúdo.

Se no passado apenas assistíamos a programas de televisão, hoje podemos criar programas sobre o que assistimos. E com as redes sociais, esse antigo público viu uma plataforma de difusão das suas ideias.

Foi assim que surgiram destaques em canais no YouTube, textos no Facebook ou comentários no Twitter.

Mas enquanto tem gente que ganha a fama se expondo, outros preferem se promover pela exposição alheia. E a necessidade por atenção vira crime.

"Falta legislação no País que trate de crimes digitais", considera a advogada especialista em Direito Penal e professora da Faculdade de Direito de São Bernardo, Célia Nilander.

"Junto com a internet vieram situações novas e o Código Penal não tem leis específicas."

Segundo a advogada, cada violação é enquadrada em categorias diferentes. O vídeo em questão envolve crime contra a honra, mas as violações na internet englobam muito mais: preconceito, crime de ameaça, difamação e calúnia.

E as penas variam entre três meses e dois anos de reclusão ou pagamento de multa.

A advogada também avisa: "Quem compartilha conteúdo criminoso é punido do mesmo modo que seu autor".

Compartilhando crimes

Quando começou a reprodução do vídeo na tela do meu celular, a primeira atitude foi questionar se o tal médico era o autor dele. Ele negou e me disse para não me preocupar com o paciente.

"Isto não é dor. Chamamos de DNV (Distúrbio Neurovegetativo), quando se trata de nervosismo descontrolado."

Ufa, a pessoa foi exposta e ridicularizada, mas pra quê me preocupar se a dor nem existe, né?

Então, fui no portal Humaniza Redes, do governo federal, tentar denunciar esse desprazer cinematográfico.

O site abriu mil categorias predefinidas, e o vídeo não se enquadrava em nenhuma.

Selecionei uma aleatória para ver se existia um campo de comentários. Nada.

A página carregou um campo para que eu inserisse a URL, mas, Brasil, como inserir a URL de algo que está no meu celular? Desisti e pensei em falar com um especialista.

Além da advogada Célia Nilander, conversei com o sociólogo Sergio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC.

Para ele, os crimes digitais são extensões da criminalidade já existente, por isso devem se enquadrar no Código Penal.

O estudioso afirmou que a internet não é a grande vilã: "A internet não cria um cenário de crimes, mas sim um cenário de interações".

Questionado sobre o que um cidadão deve fazer ao receber um vídeo discriminatório, Sergio recomendou a procura por entidades defensoras dos direitos humanos. "É importante recorrer às autoridades: a Defensoria Pública do seu estado ou a Secretaria Nacional de Direitos Humanos".

O que fazer?

Foram três dias de conversas com assessores e especialistas para entender a situação. E, novamente, o sentimento de desistência veio.

Enfrentar toda essa burocracia por causa de um vídeo no WhatsApp não era um pouco demais?

Então, recebi um conselho de uma amiga: "O que você está fazendo é combater um pouco essa Cultura da Gracinha. E por ninguém ligar é que ela ainda existe".

É exatamente isso. A Cultura da Gracinha é o fazer rir do outro. E esse riso, agressivo, discriminador, pode vir de várias formas.

É o 'fiufiu' nas mulheres. O 'bichinha' nos gays. O 'traveco' nas trans. O 'macaco' nos negros.

Como um holofote do ridículo, expondo pessoas negativamente apenas pelo que elas são.

E, como muitos se calam, a impunidade consciente faz os crimes de ódio crescerem ainda mais.

Existem muitos quereres para mudar essa política.

O sociólogo Sergio Amadeu defende a conscientização e o incentivo à denuncia por parte dos cidadãos.

A advogada Célia Nilander espera atualizações no Código Penal, considerando o ambiente online.

E eu gostaria de um Humaniza Redes mais humano, um portal sem tantas categorias e com espaço mais amplo pra você denunciar o que exatamente quer denunciar.

Em todo caso, a saga da burocracia deu frutos.

Encaminhei duas denúncias: uma ao Núcleo Especializado de Combate a Discriminação, Racismo e Preconceito, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, e outra na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Se ambas chegarão a um resultado? Não se sabe. Mas o importante é não se calar.

* Este texto foi publicado originalmente no site ABCD Maior.

TAMBÉM NO HUFFPOST BRASIL:

Comentários podres sobre Andressa Urach

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: