OPINIÃO

O ministro, a maconha e a guerra que já nasceu perdida

19/12/2016 22:23 BRST | Atualizado 19/12/2016 22:23 BRST
ANDRESSA ANHOLETE via Getty Images
Brazilian Justice Minister Alexandre de Moraes speaks during the inauguratioon ceremony of International Police Cooperation Center (CCPI) in Brasilia, on August 1, 2016. The centre will work during the Olympic and Paralympic Games in Rio de Janeiro, which will take place from August 5-21 and September 7-18 respectively.. / AFP / ANDRESSA ANHOLETE (Photo credit should read ANDRESSA ANHOLETE/AFP/Getty Images)

Foi como se fosse uma verdadeira bomba. E, na verdade, é mesmo: O nosso ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, quer acabar com o comércio e o uso da maconha.

Segue o conteúdo do Estadão, o autor do furo:

O Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, quer erradicar o comércio e uso de maconha no país. O objetivo integra os termos do Plano Nacional de Segurança, cujo conteúdo foi apresentado a especialistas e pesquisadores da área no início desta semana e já foi alvo de críticas. Para isso, Moraes pretende focar principalmente nas plantações em território paraguaio, considerado um dos principais exportadores do entorpecente no continente, mas há também o objetivo de realizar parcerias para combater laboratórios da droga na Bolívia e no Peru.

É o mesmo ministro que já apareceu, em vídeo viral, cortando no facão uma dezena de pés de maconha. O caso foi relatado por diversos veículos, você deve se lembrar.

Após o turbilhão de críticas, o ministro negou o conteúdo das reportagens, disse que não pretende acabar com a maconha em território brasileiro. Disse que seu foco será contra o tráfico.

Enquanto isso, neste mesmo Brasil, a Anvisa caminha para normatizar a venda de medicamentos com compostos da maconha. Famílias garantem, na Justiça, o direito de plantar a erva para ela seja usada como um efetivo medicamento contra uma série de convulsões e demais problemas relacionados com a epilepsia.

Bem, mais 8 estados norte-americanos decidiram, por voto popular, abrir-se à maconha, medicinal ou recreativa.

E não é só:

2016 foi o ano também em que até mesmo as Nações Unidas (ONU) viram a necessidade de deixar bem claro o novo momento para as substâncias criminalizadas por décadas numa guerra que deixou mais vítimas do que soluções.

Em relatório publicado em março, o Painel Internacional de Controle de Narcóticos (INCB) da entidade internacional mais importante destacou que o bem-estar e a saúde das pessoas "devem estar no centro das políticas de drogas".

Destaca a ONU:

Em seu relatório anual, o Painel Internacional de Controle de Narcóticos (INCB) - organismo independente que monitora a implementação das convenções internacionais das Nações Unidas sobre o controle de drogas - destacou que os tratados internacionais de controle de drogas não autorizam uma "guerra às drogas".

Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, recebeu o Nobel da Paz dias atrás, neste mês de dezembro. No discurso, um aviso de quem viveu como poucos o flagelo da guerra perdida.

"Temos autoridade moral para afirmar que, após décadas de luta contra o narcotráfico, o mundo não conseguiu controlar este flagelo que alimenta a violência e a corrupção em toda nossa comunidade global", afirmou, em Estocolmo, relata o El País.

Para depois concluir: "A guerra contra as drogas é igual ou até mais danosa que todas as guerras juntas travadas no mundo. É hora de mudar nossa estratégia".

Pena o nosso ministro não ter aberto os ouvidos. Ou ter fingido ser surdo para o inevitável: a guerra que ele pensa em empreender já nasceu perdida.

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