OPINIÃO

Uma das mais de 800 mil 'Vidas Positivas'

No mês de combate à aids é importante dar nomes e entender a luta de cada um.

01/12/2017 08:00 -02
Divulgação/Fellipe Oliveira
Trabalhar minha arte, minha formação com a possibilidade de tocar o público só me trouxe orgulho ao lado de elenco e equipe do espetáculo "Da Razão do Vermelho".

Aceitar o convite do HuffPost Brasil para escrever algo para esse dia tão importante foi como encarar um desafio. Escrevo em primeira pessoa, já que para falar sobre HIV/aids, sobre minha experiência nesses oito anos após ser diagnosticado, eu só posso falar por mim. Não posso me esquecer dos meus privilégios sendo homem, branco, classe média, da região sudeste. Não posso deixar de frisar que os números – e as histórias por trás de cada pessoa – entre a população negra, de mulheres, jovens, pobres são, na maioria das vezes, ignorados por todos.

Dito isso, aceitei esse desafio acreditando que quando coloco meu nome e ,meu rosto expostos, é possível tocar o outro e levar um pouco do real, do palpável dentro de um contexto que, para muitos, ainda parece distante, algo como: "comigo não vai acontecer" ou "isso é distante da minha realidade". Não, não é!

Quando recebi meu diagnóstico, aos 25 anos, sozinho e pela tela do computador, tudo mudou. Minhas expectativas, meu olhar e a forma de ver ao meu redor se transformaram gradativamente. Lembro-me que em janeiro de 2010, comecei o projeto Uma Vida Positiva, um blog onde relatei por três anos meus medos, minhas questões, minha rotina, meus anseios em torno do que tínhamos de informação naquele período.

Um ano após o resultado, fui voluntário na pesquisa Start, realizada em vários países em que se pretendia comprovar (e comprovou) a eficácia de iniciar a medicação o quanto antes. Eu, que nunca fui alérgico a nada, descobri ter alergia a alguns antirretrovirais. Passei por uma fase de complicações e muitos medos.

Percebi, naquele momento, que pouco se falava na internet sobre os efeitos colaterais da medicação, sobre como – de fato – varia de organismo para organismo, sendo delicado resumir tudo, generalizar pessoas, histórias e contextos biológicos e sociais.

De início, a escrita era como uma terapia, mas depois de um tempo vi a necessidade de encontrar formas variadas de falar sobre HIV. Ao contar para cada amigo me tremendo de medo do preconceito, descobri como as pessoas são desinformadas. Com três anos de blog, entendi meu período de aceitação. Dali em diante, uma decisão que mudou tudo foi a de publicar o blog em versão impressa. Não mais com o pseudônimo Luan F., mas com meu rosto e como era conhecido. Rafael Bolacha.

No dia de lançamento, vi minha foto na capa de um dos maiores jornais do País, fui a rádios, em eventos, feiras literárias, programas de televisão e chorei, chorei quase sempre quando finalizava entrevistas e estava indo pra casa. Um choro com misto de medo e liberdade. Não era mais preciso carregar, além do peso de minha realidade, o peso da mentira, da omissão dessa minha informação.

O contato em palestras me chamou atenção sobre como as pessoas querem conversar sobre isso, como querem tirar dúvidas e quase nunca isso é possível. Participar da campanha "O Cartaz HIV Positivo" trazendo maior empatia pelas variadas vivências de cada um me engrandeceu como ser humano.

O projeto foi para os palcos e voltar a dançar dentro desse contexto, desse tema, me encheu de boas energias. Trabalhar minha arte, minha formação com a possibilidade de tocar o público só me trouxe orgulho ao lado de elenco e equipe do espetáculo "Da Razão do Vermelho". Recentemente, conquistei outra plataforma, o audiovisual. Antes por matérias e vídeos para o canal Chá dos 5, mas esse ano com o curta "DIA 1", em que encarei mais um desafio: reviver o primeiro dia me interpretando.

Posso dizer que aprendi a ter orgulho, aprendi a, de fato, aceitar meu diagnóstico e entender que é mais uma das inúmeras informações que fazem quem é o Bolacha, nenhuma informação sozinha é capaz de me definir.

Nesse dia 1º de dezembro, o combate à aids se faz em combater o preconceito, em combater a falta de informação, não discriminar, não achar que tudo se enquadra na mesma caixinha, na mesma pílula. Combater também as diferenças sociais, raciais, sexuais. Combater o monstro que temos dentro da gente e que nos impede de olhar o outro como ser humano e não apenas um número.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.