OPINIÃO

O que Bruna Lombardi tem a nos ensinar no caso Zé Mayer

A apresentadora fez sua escolha: confrontar o assédio no momento em que acontece. Não em declarações no Youtube, com tweets ou hashtags marotas.

09/04/2017 16:39 -03 | Atualizado 14/04/2017 17:19 -03
Montagem/Facebook/TV Globo
Para colunista, Bruna Lombardi agiu de modo elevado ao confrontar assédio sofrido.

Sempre que trato de assuntos polêmicos gosto de deixar registrado, de início, meu posicionamento. Então lá vai: Zé Mayer agiu como um idiota. Não se assedia nem se humilha ninguém em condição alguma. Fim. Muito menos se coloca a mão na vagina de alguém sem consentimento. Pronto.

O caso da figurinista Su Tonami, 28 anos, infelizmente é o caso de muitas mulheres pelo País. Por oito meses foi assediada por Zé Mayer, 67 anos, ouvindo porcarias do tipo "você é muito bonita", "fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho" ou "você nunca vai dar para mim?"

Após oito meses ela conseguiu reunir coragem e expôs o global gerando uma onda muito positiva sobre o caso. Muita gente prestou solidariedade a ela, e como o mundo está longe de ser perfeito, houve quem foi solidário a Mayer.

Mas meu ponto não é esse. Meu ponto é como uma figurinista consegue essa força para denunciar um ator global com décadas de carreira, enquanto mulheres famosas permanecem caladas?

Estamos condenados a ser livres

Jean Paul Sartre  —  filósofo francês que nos dias de hoje é mais famoso por ter sido amante de Simone de Beauvoir do que pela sua extensa e densa produção filosófica — afirma que estamos condenados a ser livres. Não escolhemos alguns itens, como o local de nascimento, cor de pele, condição financeira e outras coisas aleatórias decididas na concepção.

Isso não significa uma redução tola ao campo político que afirma que você é responsável pelo seu enriquecimento, ou que as situações a sua volta não lhe afetam. O que isto quer dizer é que, dentro das possibilidades de que você dispõe, você é responsável pelo significado que dá a sua existência, pois você é livre para isso. Não apenas livre, você é incapaz de abrir mão de sua liberdade.

Geralmente nos esquivamos de nos enxergarmos livres pois em muitos casos temos que escolher entre o ruim e o horrível. Durante um assalto escolho, reajo e talvez morro ou entrego meus pertences? Ambas as escolhas são péssimas, mas são escolhas.

Obviamente, alguns pontos devem ser analisados, de modo que para muitas situações da vida temos respostas automáticas, mas não é por isso que não foi um processo de escolha. Então quando você escolhe ser bancário ao invés de músico, porque como bancário sua renda é maior, seu emprego é mais estável, você é mais respeitado socialmente, tenha em mente que foi uma escolha. No futuro quando você lamentar ter escolhido uma profissão entediante ao invés de seguir seu sonho de cantar nos palcos, é preciso que você olhe no espelho e diga: eu escolhi ser bancário. Disse sim para este caminho em minha vida, anulando portanto todos os outros.

Ao dizer sim para o Rafael Bancário, eu digo não aoRafael Músico, ao Rafael Artista, ao Rafael Ator e a todos os Rafaéis que poderiam ter existido mas que não existiram e talvez jamais existirão.

Mas foi uma escolha. Somos jogados ao mundo tal qual um lance de dados  —  como no maravilhoso poema de Stéphane Mallarmé  —  mas daí em diante a responsabilidade é nossa... Daí "que minha liberdade é o único fundamento dos valores e nada, absolutamente nada, justifica minha adoção dessa ou daquela escala de valores."  —  Sartre, O Ser e o Nada —  e portanto somos impelidos a todo momento escolher entre A ou B, referindo a escolha por nós tomada a nós mesmos e nossos princípios. Ou seja eu não apenas sou obrigado a escolher como agir, mas também a escolher os princípios pelos quais vou agir.

A responsabilidade diante da escolha e a incerteza de estar realizando a melhor escolha nos causa angústia, diz Sartre, mas assim é a natureza humana. Temos de escolher, estamos condenados a ser livres, e mais, temos de arcar com as consequências de nossas escolhas, pois não há como falarmos em escolhas certas ou erradas na vida, haja vista que não há um Manual da Vida, nos dizendo como agir. Há antes, um amplo conjunto contraditório de valores sociais, ideológicos, políticos, culturais, filosóficos, religiosos que lhe são oferecidos e você escolhe quais vão nortear sua vida. Após esta escolha, você começa a decidir como agir em suas ações cotidianas tendo como base os valores que você escolheu.

A angústia nasce quando você é assediada no seu ambiente de trabalho e, com medo de escolher denunciar o caso e perder o emprego, você escolhe o silêncio.

Bruna Lombardi versus Trump & Bon Jovi

Anos atrás Bruna Lombardi entrevistou Bon Jovi para o programa Gente de Expressão que foi ao ar na Manchete e na Band nos anos 90. Lá pelas tantas Bon Jovi diz que "gastaria uma grana para fazê-la feliz". Bruna Lombardi não perde nem o tempo de refletir o que foi dito e retruca que não precisa do dinheiro dele, que é bem-sucedida e tem sua própria carreira.

Sendo entrevistada recentemente para comentar esse episodio, após o caso da Carol Moreira ,  Bruna Lombardi afirma que se alguém a provoca de alguma forma, essa pessoa irá ouvir o que ela tem pra dizer. E fim.

Ao fim do episódio com Bon Jovi, ela revela que o cantor, envergonhado da patada que recebeu, foi se desculpar e a convidou para sair. Ouviu mais um "não" e voltou para os EUA sabendo que no Brasil, há mulheres que colocam os homens no seu devido lugar.

Mas essa não foi a única vez.

Quando ela entrevistou Donald Trump, à época apenas um bilionário excêntrico, ela foi assediada novamente. Durante a entrevista Trump pergunta se ela era casada, algo fora da pauta da entrevista. E assim como com Bon Jovi, Bruna o corta e com firmeza diz que sim, era casada, muito bem casada.

Ela cortou as asas de um bilionário vingativo e de um rock star que se achava Don Juan de Marco. E o fez na hora, no ato, olhando nos olhos dos caras, que aparvalhados, olham para o lado, dão sorrisos amarelos e ficam claramente constrangidos.

Bruna Lombardi fez sua escolha portanto, que foi confrontar a situação no momento em que acontece, não em declarações no Youtube, em cartas à imprensa, com tuítes ou hashtags marotas.

Assim como a figurinista, Su Tonami, decidiu enfrentar publicamente aquele que a assediou. Em um mundo menos imperfeito, a mulher afronta seu assediador, e tudo acaba bem. A mulher sai feliz com o fim do assédio, e ele desmoralizado, preso, se tiver cometido algum crime  —  e se não me engano, colocar a mão na vagina de alguém sem permissão é crime. Mas o mundo está longe disso.

Às vezes a coisa degringola de tal forma que a mulher acaba demitida, como a jornalista Giulia Pereira, 21 anos, que denunciou aquele moleque malcriado, Biel. E isso é triste, muito triste.

O ponto aqui é que o confronto com o agressor-assediador como fizeram Bruna, Su, Giulia e muitas outras mulheres corajosas e anônimas, traz riscos, e ao escolher pela denúncia e pelo confronto, infelizmente não há garantias de que tudo acabará bem. Mas essa escolha revela uma força moral impressionante nessas mulheres, que serve de exemplo a toda a sociedade.

E o inverso é igualmente verdadeiro. Ao escolher não denunciar o assédio sofrido, temendo as consequências  —  como muitas artistas, jornalistas, cantoras, atrizes que estão somente agora quebrando o silêncio  , a mulher precisa assumir a responsabilidade por ter escolhido esse caminho. Não a responsabilidade por ter sido assediada  —  essa responsabilidade é do assediador e fim , mas a responsabilidade por não ter falado, dito, denunciado.

Ao escolher não fazer nada, você faz uma escolha. Escolhe o lado mais forte. E quando falamos em um caso de assédio entre um homem e uma mulher, sabemos de antemão que infelizmente há uma relação assimétrica de forças entre ambos.

Isso não quer dizer que o agressor é menos culpado, ou que não possamos revisitar esses casos em busca de justiça... Entendam e percebam a diferença entre responsabilidade e culpa. A culpa é do assediador, e apenas dele. A responsabilidade do silêncio é da mulher, até porque se ela não falar, o assediador também não falará e a situação, nesses casos, tende a piorar.

Que os exemplos de Bruna, Su e Giulia encorajem outras mulheres a falarem sobre o sofrimento que passam, pois mesmo que percam seus empregos, saibam que terão escolhido a única opção moralmente elevada.

Do contrário, restará a opção de esperarem caladas por mulheres corajosas como estas, para poderem livrar-se do sofrimento.

Como consolo resta o fato de, quem sabe um dia, saírem na capa da Veja.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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