OPINIÃO

Por que a vitória judicial de Taylor Swift é uma vitória para todas as mulheres

A mulher nunca tem culpa quando um homem toca seu corpo sem permissão. Nunca.

25/08/2017 12:30 -03 | Atualizado 25/08/2017 12:41 -03
Kevin Winter via Getty Images
Mas tudo pode começar a mudar graças a Taylor Swift.

Estava na escola e mal tinha chegado à puberdade quando fui atacada sexualmente pela primeira vez. Um grupo de rapazes mais velhos estava sentado embaixo da escada, tentando ver as calcinhas das meninas enquanto elas andavam de saia. Encorajado por seus companheiros, um dos meninos se aproximou de mim por trás e colocou a mão por baixo da minha saia.

Meu instinto foi empurrá-lo para trás e murmurar "vai se foder" na minha voz aguda dos 13 anos, o que eles acharam hilário. E, infelizmente, ao invés de sentir orgulho por marcar minha posição, senti vergonha e não contei para ninguém.

E aqui está o problema. Passar a mão é algo normalizado na sociedade, de estudantes que acham que apalpadas são "brincadeira" a homens adultos que se recusam a ouvir um "não" na balada. Ainda assim, as mulheres sentem vergonha quando isso acontece, como se fôssemos culpadas.

Mas tudo pode começar a mudar graças a Taylor Swift.

A cantora acaba de ganhar um processo contra o ex-DJ americano David Mueller. Ele foi considerado culpado de colocar a mão sob a saia de Swift e apertar sua bunda durante uma sessão de encontro com fãs.

Swift vai receber indenização de 1 um dólar, segundo a determinação da Justiça. Embora o valor possa ser pequeno, seu significado simbólico é enorme. O caso judicial demonstra de uma vez por todas que a mulher nunca tem culpa quando um homem toca seu corpo sem permissão.

Mueller tinha originalmente tentado processar a cantora por ter perdido o emprego depois que o caso veio à tona. Esse processo foi encerrado por um juiz na semana passada. Questionada sobre a demissão de Mueller durante o julgamento, Swift rejeitou tentativas de transformá-la na vilã da história.

"Não vou permitir que seu cliente faça eu achar que foi culpa minha, porque não foi", teria dito ela, acrescentando: "ele e você estão me processando, e estou sendo culpada por eventos infelizes da vida dele que são resultado de decisões que ele tomou, não eu".

Ao tirar a legitimidade do processo de Mueller, Swift lembrou a todos que temos de denunciar a cultura de culpar as vítimas, infelizmente algo ainda muito comum tanto nos tribunais quando na sociedade em geral. Assim como ela não teve responsabilidade alguma pela demissão de Mueller, nenhuma mulher pode ser culpada quando sofre agressão de um homem, não importa o quanto ela tenha bebido ou o que esteja vestindo.

O depoimento determinado de Swift também é um lembrete de que enfrentar ataques sexuais não é motivo de vergonha. Perdi a conta das vezes em que passaram a mão em mim na balada – tanto estranhos quanto pessoas do meu grupo de amigos --, mas me senti pressionada a simplesmente esquecer, como se fosse um dos caras. Quando acontece, há uma fração de segundo para decidir entre um revide – e o risco de ser chamada de "feminista nervosa" --, ou então esquecer e curtir a noite. Como Mueller, há homens que vão tentar te fazer sentir culpa por reclamar de apalpadas, mas não há vergonha em denunciar o sexismo.

Infelizmente conheço homens que acham que "não tem nada demais" em passar a mão em uma mulher depois de um ou dois drinks, mas o caso de Swift é um sinal de que as pessoas com poder estão finalmente levando esse tipo de coisa a sério. Apalpadas não devem ser relevadas. Elas são parte de uma questão maior: como as mulheres são vistas e tratadas na sociedade. Quando um homem força a barra, ele não te enxerga como um ser igual. Quando ele fica olhando para seus peitos ou sua bunda, ele está afirmando a agenda segundo a qual o valor da mulher está no corpo. Quando ele te toca sem permissão, está perpetuando o medo que as mulheres sentem todo os dias.

Um terço das britânicas foi apalpada em público, e a vasta maioria de nós não verá a Justiça sendo feita, como foi o caso de Taylor Swift. Mas a declaração final de Swift ressalta que a vitória não foi só dela, mas sim um passo importante para mulheres de todo o mundo.

"Reconheço o privilégio que tenho na vida, na sociedade e na minha capacidade de arcar com os enormes custos de me defender num julgamento como esse", disse ela.

"Espero ajudar aquelas cujas vozes também deveriam ser ouvidas. Portanto, farei doações no futuro próximo para várias organizações que ajudam na defesa de vítimas de ataques sexuais."

O fato de que Taylor Swift está fazendo esse tipo de declaração – e não qualquer outra celebridade – também é crucial. Suas fãs são meninas jovens em sua grande maioria, e elas vão aprender que têm o direito de ficar furiosas quando são vítimas de apalpadas. Se eu tivesse um modelo como Swift nos meus tempos de escola me sentisse empoderada para contar para algum professor.

É claro que, em vez de mulheres denunciando ataques, os homens deveriam parar de atacá-las. Então, além de ser uma vitória para meninas e mulheres, esperemos que esse veredicto sirva de lição para os homens: passar a mão não é OK.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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