OPINIÃO

"Você gosta de ser mãe?": a resposta que eu gostaria de ter dado

10/04/2014 10:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Um dia desses, alguém me perguntou se eu gostava de ser mãe.

Eu estava carregando a Tegan, com suas perninhas finas enroladas na minha cintura. A cabeça dela estava encostada no meu ombro já úmido, e seu cabelo preso com duas marias-chiquinhas fazia cócegas no meu rosto. De vez em quando ela mudava de posição e me olhava com seus olhos enormes.

Nós sentamos em um sofá enquanto o horário de ela dormir ia ficando para trás. Aí eu comecei a pensar sobre como eu já deveria ter dado banho nela, colocado o pijama e escovado os dentes, como eu deveria ter dado mais verduras para ela comer hoje.

Eu sabia que ela cairia no sono no carro na volta para casa e que iria se agarrar em mim quando eu a deitasse em câmera lenta no berço, equilibrada precariamente na grade, meus pés pendurados no ar. Eu iria cantar suavemente e acariciar seu cabelo, fazer uma prece e admirá-la da porta.

"Amo ser mãe," respondi. "É o sentimento mais natural do mundo."

Foi um daqueles momentos em que desejei que as palavras fossem palpáveis, para que pudéssemos removê-las ou bater palmas para vê-las dissipar, como se faz com poeira de giz.

O que eu havia dito era verdade, sem dúvida; mas depois me pareceu uma resposta tão... filme de Sessão da Tarde, tão piegas e comum.

A pessoa balançou a cabeça e sorriu ao ouvir minha resposta, ouvindo a respiração suave de Tegan, seus cílios abrindo e fechando contra o meu pescoço.

Pensei em como me expressar melhor. Tentei achar palavras mais eloquentes para dar voz ao meu coração que transbordava naquele momento. Mas não disse nada, simplesmente permaneci sentada com um sorriso tranquilo no rosto.

Às vezes, gostaria que pudéssemos enxergar a abundância em nossos corações, o que armazenamos lá dentro, o que nos é precioso. Seu o meu amigo pudesse ver o que estava dentro do meu coração, ele não teria perguntado. Mas ele certamente saberia:

Amar minha filha é beijar seus pezinhos suados. É limpar o seu nariz todo melecado com a minha mão, deixar que ela berre no meu ouvido enquanto eu tento acalmá-la e enxugo suas lágrimas. É cortar a comida dela em pedaços minúsculos, disfarçar o remédio amargo em um doce para ela conseguir tomar, cantar musiquinhas ridículas e dançar feito uma louca para ela rir.

É trocar a fralda dela de madrugada toda noite. É largar tudo por ela, dar tudo para ela. É fazer duas marias-chiquinhas antes do sol nascer e molhar o braço até o cotovelo dando banho nela quando o sol se põe. É admirar cada gesto dela, falando para ela o quanto ela é linda e inteligente e muitíssimo amada.

É segurar a mão dela enquanto estamos no carro, é fingir que sou um cavalinho, é correr atrás dela para passar protetor solar no seu rostinho e uma fralda no seu bumbum. É sentir meu coração derretendo feito manteiga ao som da sua voz, tentando lembrar de cada palavra inesquecível que ela fala. É apreciar tudo que ela é, aceitando a pessoa que ela é, amando tudo que ela é.

É ensiná-la que as mãos são para "fazer carinho"; que nós não batemos, só fazemos carinho. É ensinar quando é hora do "pezinho andar, não correr"; ensinar a falar "por favor" e "obrigada", a expressar os seus sentimentos, a se importar com os outros. É ensiná-la a ser bondosa, a compartilhar, a fazer perguntas, a tentar outra vez. Ensinar que ninguém é perfeito (inclusive eu), que perdoamos e continuamos amando. É compartilhar coisas belas, expressar alegria nas pequenas coisas. É encorajar, imaginar, fazer brincadeiras bobas, ser livre.

É agradecer a Deus por cada dia, apreciando cada momento. Quando ela bate. Quando ela dá aquele show de malcriação. Quando desobedece. Quando me desafia e grita comigo. Quando ela não aceita a minha terceira tentativa de fazê-la comer no jantar. Quando eu estou sem dormir há quatro noites. Quando só o que eu ouço o dia todo é "Não, mamãe!" e tenho que aguentar uma crise de choro atrás da outra.

Não dá para "gostar" de ser mãe. Só dá para amar. Incondicionalmente, completamente, abnegadamente.

Se eu gosto de ser mãe? Sim, loucamente.

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