OPINIÃO

Taís Araújo: Ela tem um sonho parecido com o seu

Taís, mesmo sendo a Araújo, sente o mesmo medo e angústia das mães de todas as crianças negras no Brasil.

16/08/2017 18:01 -03 | Atualizado 16/08/2017 18:43 -03
TEDxSãoPaulo
"Eu ouvi sussurros de espanto na plateia. Taís encontrou um tom que foi direto aos ouvidos dos presentes. Quem falava ali era a mulher, mãe, esposa e profissional. Não tinha atuação".

Coloco o som da Asa e puxo pela memória o que foi a experiência do TEDxSãoPaulo, que aconteceu no último sábado no Allianz Parque, em São Paulo.

Esta edição foi uma das maiores do mundo, reunindo nove mil pessoas. Desta vez, com um público bem diverso. Digo isso porque, há cinco anos, eu participei de um TEDx na Vila Madalena, com cerca de 200 pessoas e eu era a única negra do espaço.

Naquele dia, não sei como, fui parar num bar na vila com alguns dos palestrantes e os organizadores do evento e perguntei sobre a ausência de negros. Lembro que o organizador me disse que também não entendia já que a chamada era aberta para todos os públicos. Eu disse que se não houvesse palestrantes negros, raramente a plateia se interessaria.

Muitos anos e TEDx se passaram e eu vivi para ver uma edição com um corpo de palestrantes formado por mulheres, a maioria negra, no ano passado.

Voltando para o TEDxSãoPaulo, eu trabalhei no sábado de manhã, depois tive que passar na feira para garantir as quentinhas da semana já que vai ser uma maratona de atividades. Durante todo esse tempo, fui conversando por mensagem com minha amiga Mafoane Odara, que acompanhava o evento e ia me atualizando: a palestra da Taís Araújo ainda não tinha acontecido.

Cheguei quase às 16h no local e fui super bem recebida. Quem estava no palco era a Preta Rara, ressoando sua presença, beleza e poesia certeira.

Quando vi aquele estádio tomado de pessoas, fiquei encantada com a estrutura, as luzes e, claro, da diversidade na plateia, no grupo de voluntários do TEDx e, de certa forma, na seleção dos convidados.

Fui chegando até o deck e me sentei perto da minha amiga. As palestras seguiram e, como eu estava muito próxima do palco, podia ver a movimentação e a preparação dos convidados. Logo vi Taís, com um coque no alto da cabeça e uma cacharréu vermelha, calça jeans e um sapato claro de salto. Pura discrição, ela acompanhava a programação e me pareceu uma mulher compenetrada. Diferente da expansão de Lázaro, ela é contida, mas também atenciosa e querida com todos que se aproximaram.

Logo em seguida, foi chamada para colocar o microfone e se sentar mais perto da rampa de acesso para o palco. Percebi que ela se concentrava para falar. Ela foi anunciada pelo Casé e, por mais que estivéssemos em multidão, após os aplausos e gritos aclamados do anúncio da convidada, um silêncio tomou conta do espaço de um jeito que dava para ouvir a respiração de Taís.

Ela começou dizendo que era mãe de um menino chamado João Vicente, de cinco anos, e da Maria Antônia, de quase três.Partilhou que sentiu um alivio na sua primeira gestação quando soube que seria menino e que aquela criatura não teria que passar pela exigência de ser mulher, os abusos, machismos e o esforço para provar ser boa sempre.

No entanto, quando João nasceu, caiu a ficha de que era mãe de um menino negro e que teria que estar sempre atenta para que a criança não fosse maltratada durante a infância. Sentiu que quando ele crescesse e se tornasse um adolescente, correria o risco de tomar uma investida violenta da polícia, por ser um jovem negro. E que era apavorante pensar na Maria Antônia sendo mulher e negra, pois sabe o quanto a sociedade espera que as mulheres agradem aos outros e todas as violências cotidianas que poderia sofrer por ser negra.

Ali, eu percebi que Taís, mesmo sendo a Araújo, sentia o mesmo medo e angústia das mães de todas as crianças negras no Brasil.

Ela falou do mapa da violência de 2015, sobre ter diminuído em quase 10% o índice de assassinato das mulheres brancas e aumentado em 55% o índice de assassinado das mulheres negras. Nada novo para nós, ativistas ou mulheres negras antenadas às pesquisas, notícias midiáticas ou rede sociais. Mas eu ouvi sussurros de espanto na plateia. Taís encontrou um tom que foi direto aos ouvidos dos presentes.

Ela falava com uma voz tremula, mas firme. Ela apertava as mãos, talvez para trazer para o momento presente seu coração que batia acelerado. Quem falava ali de seus medos, sonhos e planos era a mulher, mãe, esposa e profissional consciente de sua responsabilidade. Ali não tinha atuação.

Taís seguiu sua narrativa enfatizando que pensa todos os dias em como criar seus filhos neste país que ela ama e acredita. E, para mim, a sacada da sua narrativa foi despertar a reflexão para o papel de cada um, branco, negro, indígena, brasileiro, sobre nosso papel enquanto sociedade civil atuante.

Taís até definiu a responsabilidade do governo em criar políticas públicas de qualidade, embasadas nos direitos básicos. Mas seu foco foi em cada cidadão que recebeu a herança de viver em um país que teve mais de 400 anos de escravidão.

Ela partilhou que uma frase dita no filme A 13ª emenda ficou pulsando nela. No filme, um homem branco diz que hoje, nos Estados Unidos, ele era fruto de uma escolha dos antepassados, e que os negros são fruto da não escolha de seus antepassados. E que se responsabilizar por um país mais digno, equânime e justo é responsabilidade de cada brasileiro e brasileira.

Resgatei o vídeo do TED e escrevo na íntegra a fala da mulher, que como Martin Luther King, também sonha:

"Eu tenho um sonho, de ver ricos trabalhando para acabar com a pobreza, de ver homens se colocando no lugar de mulheres, de ver mulheres brancas entendo que existe um abismo entre brancas e negras, eu tenho um sonho de ver crianças heterossexuais aceitando crianças homossexuais e trans, de ver mulheres heterossexuais aceitando mulheres lésbicas e que todos nós fiquemos atentos e garantíssemos os direitos dos índios."

Ali, a voz da moça já se mostrava um pouco menos nervosa e ela conseguiu compartilhar com o mundo seu sonho ousado de sociedade. O que me chamou atenção foi que ela subiu no palco sozinha, sem slides ou cola nas mãos.

Dias desses fui ao show da artista americana Akua Naru e ela disse que as pessoas podiam achar que ela estava sozinha, mas não, pois com ela estava a força de seus ancestrais. E foi isso que senti ao ver a Taís com sua voz serena compartilhando seus sonhos. Junto com ela estavam a força e a potência dos seus ancestrais.

A mulher saiu do palco aplaudida de pé. E, assim que desceu, olhou para mim e minha amiga e deu uma piscadela, como quem diz estamos juntas.

Enfim, quis dividir isso com vocês para dizer que estamos juntas, Taís. Seu sonho também é parecido com o meu, e espero que sua voz siga ressoando e que seus filhos e tantos outros filhos de mães negras, brancas e indígenas possam viver em um país mais amoroso, acolhedor e justo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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