OPINIÃO

2ª Marcha das Mulheres Negras em São Paulo, caminhamos pelo bem viver!

Mulheres negas e indígenas reivindicaram liberdade, acesso a oportunidades, garantia à vida e ao bem viver.

01/08/2017 12:54 -03 | Atualizado 01/08/2017 12:54 -03
Frida Comunica e Fotografa
"Saí do trabalho apressada na terça-feira, 25 de julho, lá pelas 18h. Tinha uma amiga já na Praça Roosevelt que ia me monitorando sobre os acontecimentos."

Demorei alguns dias para decantar o que foi participar da Marcha das Mulheres Negras.

Saí do trabalho apressada na terça-feira, 25 de julho, lá pelas 18h. Tinha uma amiga já na Praça Roosevelt que ia me monitorando sobre os acontecimentos.

Estava tão ansiosa que desci um ponto antes do devido, respirei e pensei que estava tudo bem, era só mais um pouco de caminhada, quando fui me aproximando da praça. Parei no farol numa rua estreita que dá para o túnel. Já conseguia ver a multidão de mulheres, mas tive que esperar mais um pouco para me unir a elas.

Atrás de mim, um casal de desconhecidos aparentemente conversava sobre um avanço. Ele, professor, dizia que, pela primeira vez, o reitor da universidade onde ela trabalhava havia confirmado presença em quatro encontros sobre a temática racial. E eu fiquei atenta, percebendo a empolgação do moço branco, empático a temática, dizendo que isso nunca aconteceu e que iria em todos os encontros para saber o que o reitor falaria.

O sinal abriu e atravessei apressada. Costurei entre as mulheres e fiquei em frente ao palco onde as representantes dos coletivos negros falavam das razões de se estar em marcha. No celular, perguntei onde estão minhas amigas e elas indicaram a posição. Mas, como havia um mar de cabelos crespos, tranças e turbantes, era muito difícil encontrá-las, estávamos entre iguais.

Quando as encontrei, comentamos sobre a dificuldade de nos encontrarmos. Olhava um black e pensava "achei". Chegava mais perto e via que não. A gente deu risada e celebrou aquele momento.

40 minutos depois da minha chegada, era a hora de ir para a rua. Enquanto isso, as mulheres davam voz a suas lutas e demandas, aproveitavam seu minuto para mandar o recado no microfone. Ali, todas podiam falar e o discurso de todas perpassavam temas de genocídio, sexismo, machismo e racismo institucional.

Eram mulheres, trans, catadoras, empregadas domésticas, professoras, doutoras, intelectuais, mulheres de axé, lésbicas, de partido, sem partido. Eram mulheres negras e o chamado era para a união e a resistência as todas as perdas de direitos dos últimos tempos.

As mulheres gritavam por serem livres, por ter acesso e por não mais ter filhos mortos pelo estado, mas também era o chamado para o bem viver.

Quando começamos a nos organizar para marcha, tivemos uma visão mais panorâmica da multidão, comecei a ver as nuances entre as mulheres. Eram as mais velhas, as famosas, as anônimas, as poetas, as cantoras, as blogueiras, as moradoras de rua, as mães. E como tinha criança, no sling, no colo, no carrinho.

Apreciei o leque dos diversos dos tons de pele da negritude. Altas, baixas, magras, gordas, cabelos coloridos, turbantes, maquiadas, sem maquiagem, coloridas, discretas, gritando, abraçando, dançando. Uma imensidão de mulheres diversas.

Também vi presentes muitos homens negros, mulheres brancas, asiáticas e alguns homens brancos.

Mas me emocionei com um grupo de mulheres indígenas. Elas também tiveram voz e estiveram lado a lado conosco na marcha. Estas mulheres emanavam força, mas também dor por todos estes mais de 500 anos de violência. O grito foi por demarcação, pelo fim da violência, por liberdade. Seja na natureza ou na cidade, poder caminhar com dignidade como cidadãs brasileiras.

A caminhada foi pelo centro da cidade, passamos em meio aos prédios, paramos o transito, chamamos a atenção dos que passavam, muitos se uniram ao fluxo durante a caminhada. Em frente a Biblioteca Mario de Andrade, aconteceu a primeira parada.

Seguíamos as instruções e abaixamos ou sentamos no chão quando preciso. Lá na frente acontecia algo que eu não sabia o que era, mas sentia que era importante. Depois de uns 10 minutos, seguimos em marcha.

Foi uma delícia encontrar com os conhecidos durante a caminhada, era sorriso de orelha a orelha. Depois houve uma segunda parada no teatro municipal, onde aconteceram outras apresentações e falas.

Encerramos ao lado da Igreja dos Homens Pretos, no largo do Paissandú, com vários shows conduzidos por mulheres negras. Por volta das 22h, encerraram as atividades. De longe, eu observava as organizadoras se abraçarem, chorarem e celebrarem o esforço hercúleo que é organizar, integrar, compor e realizar este encontro.

Eu fui no ano passado e, este ano, muito mais mulheres ouviram o chamado para, numa terça-feira, ir às ruas e não se calar. São centenas de anos em luta e resistência, acredito que o afeto é revolucionário. Apesar de estamos imersas no cotidiano com muitos atos de violência, foi um espaço de cuidado, afeto e celebração.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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