OPINIÃO

Presentes e homenagens não são o bastante (e isso não é mimimi)

As mulheres estão num exercício de tornar visível uma sociedade injusta que se autodenomina democrática, mas que violenta as mulheres.

08/03/2017 09:39 BRT | Atualizado 08/03/2017 11:46 BRT
Anadolu Agency via Getty Images
Barreiras que atuam para a manutenção de papéis tradicionais de gênero que impedem a realização dos direitos de meninas e mulheres.

*Por Viviana Santiago

Oito de março chegou e por todos os lados há um bombardeio de promoções de produtos de beleza, de produtos para a casa, de livros sobre amor e sobre como enlouquecer um homem na cama. Tudo isso é oferecido como possibilidade de compra para cada pessoa que se relaciona com uma mulher em sua vida. E não nos esqueçamos: desde o início deste mês, estamos em constante exposição às incansáveis homenagens das mídias: novela, propaganda, meios de comunicação, escolinha, postos de saúde. Todos os espaços da sociedade passam a veicular mensagens com forte apelo emocional sobre como as mulheres são maravilhosas: corajosas, lutam por seus filhos, abnegadas dão a vida por sua família, cuidam da casa, do emprego, das amigas, dos maridos e tudo isso de salto alto e maquiagem impecável no rosto... quem nunca viu ou ouviu essa abordagem?

Não que não exista isso de fato, o problema com essas práticas é que elas mascaram a realidade da vida das mulheres, invisibilizam a intencionalidade do 08 de março como um dia de luta e criam uma falsa sensação de que as mulheres já chegaram lá e que agora só nos resta celebrar!

Além disso, homenagens estereotipadas esvaziam as pautas que orientam as lutas das mulheres e cumprem com o mesmo repertório: consolidar os estereótipos de gênero em torno da vida das mulheres. Essencializam as mulheres num único tipo de ser mulher que se organiza a partir dos papéis tradicionais de gênero então naturalizados e equiparados a uma essência de ser mulher. Existem muitas e variadas formas de sermos mulheres no mundo.

Quando as mulheres se insurgem contra uma cultura de pseudo homenagens e presentes, não estão criando "mimimi"

Me responda com sinceridade: depois de assistir às lindas propagandas das lojas para a data, nas quais mulheres magras, altas, brancas, heterossexuais e cisgêneras, impecavelmente maquiadas, saem de seus empregos estonteantes para os braços de maridos maravilhosos em direção a um lar para uma casa deslumbrante, você conseguiria imaginar que no Brasil 13 mulheres são assassinadas por dia? A maioria delas por parceiros íntimos? Quem assiste a esse comercial poderia imaginar que no Brasil as mulheres são minoria da população empregada (42,8% do total), minoria da população com carteira assinada, têm menores salários que os homens, levando mais que o dobro do tempo dos homens em trajetória de carreira? Além disso, somente 5% das mulheres são CEO´s das principais empresas?

Não. Nós não conseguimos imaginar nada disso porque essa é a função dos presentes e homenagens do 8 de março: mascarar a realidade de violação e negação e direitos. Por isso que não nos resta celebrar.

Quando as mulheres se insurgem contra uma cultura de pseudo homenagens e presentes, não estão criando "mimimi", não estão mandando textão, sendo mal amadas ou mal queridas, as mulheres estão num exercício de tornar visível uma sociedade injusta que se autodenomina democrática, mas que violenta as mulheres. Um país em que não existe a igualdade de gênero é um país no qual nunca vivenciou a experiência democrática. O machismo garante privilégios para alguns e mata e violenta mulheres de muitas e diversas formas.

E é isso que se questiona quando se problematiza os presentes e homenagens soltas no tempo e fora de uma análise histórica. Se questiona a ordem da sociedade machista que abusa, violenta, mata mulheres; e esse é o primeiro passo para o enfrentamento: a visibilização de uma prática social, para que se possa então assumir-se sociedade violadora e reconstruir-se em outra direção.

Dessa forma, pseudo homenagens que reiteram estereótipos, flores e bombons não são o bastante para modificar essa realidade.

Conscientes de que a história é uma construção, que não está dada, mas vem se dando, busca-se então a construção de um 8 de março que visibilize os desafios que ainda se colocam à vida das mulheres, visibilizando o contínuo processo de retirada de direitos que afetam suas vidas, transformando metade da população mundial numa imensa minoria. É necessário então que se lancem luzes sobre a realidade das mulheres, em sua diversidade, propondo a celebração de um 8 de março anticapitalista, antirracista, antilesbo-bi-transfóbico, anunciando a necessária interseccionalidade para a análise e construção de novos projetos societários que visem a inclusão plena das mulheres.

Buscamos aqui explicitar a violência e desafiar a sociedade a lançar um olhar intergeneracional que possibilite perceber que a violência é colocada desde o início da vida das mulheres, de todas elas para além do fato de reconhecermos aqui que além de negras, indígenas, migrantes, ciganas, descapacitadas, trans, elas são meninas e em suas vidas estão interagindo com múltiplos e simultâneos sistemas de pressão e dominação.

Dessa forma, pseudo homenagens que reiteram estereótipos, flores e bombons não são o bastante para modificar essa realidade. Lutamos nesse 8 de março para que sejam enfrentadas ativamente as barreiras existentes na vida das mulheres e que são enfrentadas pelas mulheres desde o começo de sua vida: estereótipos, preconceitos de gênero, de raça, de orientação sexual, religiosa e de lugar de origem, de capacidades. Barreiras que atuam para a manutenção de papéis tradicionais de gênero que impedem a realização dos direitos de meninas e mulheres. Lutamos ativamente para a criação de um novo mundo no qual todas as meninas possam aprender, liderar, decidir e prosperar, que as mulheres vivenciem plenamente seu direitos e estejam num outro status da sociedade, sendo plenamente cidadã e humana. Esse novo mundo chegará com diálogos, com reconhecimento histórico, com organização e luta. Bombons são deliciosos, mas não nos trarão nada disso.

*Viviana Santiago é gerente técnica de Gênero da Plan International Brasil.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.