OPINIÃO

O caso Maisa é só mais um que comprova a masculinidade predatória e o machismo nosso de cada dia

Em uma sociedade machista, acompanhar o crescimento de uma menina significa presenciar as violências de gênero a que ela é submetida.

29/06/2017 15:02 -03 | Atualizado 29/06/2017 15:02 -03
Reprodução
A atriz Maísa se incomoda com a insistência de Sílvio Santos para que haja uma aproximação entre ela e Dudu Camargo.

Todo mundo conhece a Maísa, aquela menina engraçadinha, cheia de cachinhos, que apresentava um programa infantil naquela emissora que todos também conhecem. Maísa ficou famosa ainda bem precoce, vimos sua passagem pela infância e temos visto sua transformação em uma jovem mulher.

Lembro que, há alguns anos, a menina ampliou seu repertório artístico e lançou-se no mercado musical. Foi quando recebeu uma enxurrada de críticas porque, aos 12 anos, não estava sendo sensual o bastante para vender discos. Aos 12 anos de idade, estava sendo, segundo "acusavam", muito infantil.

Na semana retrasada, foi convidada pelo dono do SBT, Silvio Santos, para participar de um jogo. O que poderia ter sido apenas um momento de jogos e brincadeiras inocentes se transformou em uma sessão de atitudes invasivas, desrespeitosas e constrangedoras contra ela em rede nacional.

O que esses episódios ocorridos na vida de Maísa têm em comum? São episódios profundamente reveladores de um conteúdo muito simples: o machismo de cada dia. Em uma sociedade machista, acompanhar o crescimento de uma menina significa, infelizmente, presenciar as violências de gênero a que essa menina é submetida.

Não podemos esquecer, meninas são as mulheres no começo de suas vidas. E a sociedade machista as submeterá a violência durante toda a sua existência.

Qual o significado de se cobrar de uma menina de 12 anos de idade para que seja mais sensual? Por que pode ser considerado engraçado invadir a privacidade dessa menina, perguntando sobre práticas afetivas, impondo a necessidade de se relacionar com o outro? O que provoca isso?

Já falamos disso algumas vezes. Vivemos no bojo de um sistema patriarcal e sabe o que isso significa? Que vivemos em uma sociedade em que coloca o homem no centro e que funda práticas sociais que pregam a superioridade do homem sobre a mulher. Por isso, creem que podem dirigir às mulheres ações de uma subalternização violenta e misógina.

É por conta disse que, em um programa de TV destinado a todas as famílias brasileiras, homens acreditam que têm o direito de ultrapassar os limites impostos pelas meninas e mulheres. Acreditam que são superiores e não devem considerar desejos (por que você não namora com ele?), privacidade (mas você já beijou?) ou o tempo de vida (você precisa ser mais sensual, tá muito infantil) dessa mulher.

Silvio Santos, com o objetivo de minimizar e botar panos quentes no assunto que foi notícia em diversos veículos, reuniu Maísa e Dudu Camargo para uma gravação que selaria a paz entre os dois. Porém, mais uma vez sua postura machista venceu, e a menina deixou o palco do programa aos prantos após a insistência de Silvio em que os dois jovens se beijassem.

Esses episódios não devem ser considerados como brincadeiras de mau gosto, mas sim machismo e violência contra as meninas e mulheres. E se você não consegue perceber isso ou acha que eu estou exagerando, ou pior ainda, que episódios assim são normais, infelizmente preciso te informar que há mais da cultura machista em você do que você imagina!

O problema do que é considerado normal é que as normas vão sempre estar acompanhadas de preconceitos e discriminações que inferiorizam o "outro". Na cultura machista, as mulheres nunca são sujeitas como os homens são.

Nesse heteropatriarcado em que vive o Brasil, a norma é o não reconhecimento das mulheres como sujeitas de direitos. O exercício da masculinidade hegemônica pressupõe o consumo de vidas e corpos de mulheres. Ou vocês não viram as fotos do moço que, para tentar afastar o rumor de um suposto relacionamento homoafetivo, trata de reforçar sua performance de "homem hétero" e, na semana seguinte, é visto em outro programa de televisão a objetificar mulheres, com gestos obscenos e abusivos.

Ano passado, em Recife, um homem perguntou a uma jovem se ela queria ficar com ele. Como ela não respondeu e seguiu caminhando, ele correu atrás dela, socou seu rosto, a derrubou no chão e foi embora. Uma fisioterapeuta de 27 anos foi assassinada em Recife por um vizinho que, durante alguns meses, tentou forçar uma aproximação... soa familiar?

Essas histórias são a continuidade das práticas perversas de objetificação e a destituição de direitos que os episódios acima mostraram. As violências a que Maísa foi submetida em rede nacional infelizmente não são uma história ou caso isolado.

Todos os dias, meninas, adolescentes e mulheres de todas as idades e em todas as etapas de sua vida sofrem esse tipo de violência. E o pior: muitas não sobrevivem. Maísa, mesmo com sua pouca idade, nos deu um belo exemplo de que precisamos desvelar essas atitudes, enfrentá-las e até denunciá-las.

Cumpre dizer que uma outra faceta dessas histórias é a que mostra a adolescente como alguém que resiste, insiste em se afirmar como possuidora de direitos. Defende suas convicções e exige respeito. É preciso demarcar a importância desse aspecto, se as mulheres e meninas não tivessem essa capacidade, nós não estaríamos aqui, não teríamos sobrevivido a tantas violências.

Mas cuidado: a maneira como a mídia explora as histórias de resistência pode fazer-se perder a dimensão da violência, romancear o conteúdo perverso que se opera. Não esqueçamos que só é capaz de resistir, quem foi violentado. Só é capaz de lutar, quem está sendo ameaçado e destituído. E não é isso que queremos.

Mais do que ver uma Maísa que resiste, meu sonho seria ver milhões de meninas e mulheres vivendo em um mundo em que nunca mais precisassem resistir ou sofrer violência. Um mundo sem desigualdade de gênero, com respeito e todos vivendo em harmonia.

*Viviana Santiago é gerente técnica de gênero da Plan International Brasil

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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