OPINIÃO

O privilégio de decidir sobre os direitos alheios

13/01/2016 20:04 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
lisafx via Getty Images
One groom placing the ring on another man's finger during gay wedding.

É impossível para alguém que seja gay, ou simplesmente alguém que se importe com direitos humanos, não ficar feliz quando a população de algum país aprova, por meio de um referendo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo - como foi o caso da Irlanda recentemente.

Mas o bem-sucedido caso irlandês já havia me provocado certo sentimento, que foi confirmado com o caso triste da Eslovênia, que rejeitou a aprovação do casamento igualitário. É um sentimento de indagação que vira indignação: por que você, heterossexual, tem o direito de legislar sobre a minha vida? Por que os homossexuais e bissexuais ficam à mercê da decisão dos héteros?

Obviamente sabemos que para uma lei ser mudada alguém vai decidir sobre a vida alheia. Mas não seria esse o papel dos políticos eleitos pelo povo? Não seria deles a responsabilidade em garantir que cada cidadão, e mais ainda, cada contribuinte, tenha os mesmos direitos? Não é esse o papel de alguém que se propõe a legislar e defender os interesses de quem os elege? Então por que lavar as mãos e entregar para a população a decisão sobre a vida de um determinado grupo? Em que momento da humanidade ficou decidido que determinadas pessoas têm o direito de escolher se outras podem, por exemplo, casar com quem elas bem entendam?

E a questão vai além do casamento homossexual: entra também no aborto. Quem deu o direito a alguém de decidir sobre o corpo e a vida alheios? Quem é você para dizer que eu não posso escolher o que acontece comigo?

Sim, tudo desemboca na religião. É a Bíblia, o Corão ou o raio que o parta que dizem uma coisa ou outra.

São esses livros, arcaicos, escritos por seres humanos, que continuam impedindo a evolução da sociedade quando não há a separação do Estado com a igreja. Mas as perguntas continuam surgindo: alguém acha que pessoas deveriam ser forçadas a acreditar em determinada coisa? O livre arbítrio tem tanta falta de valor assim para quem é religioso? E o que eu gostaria de perguntar a todos esses que lutam contra o aborto e o casamento igualitário: e se eu quisesse decidir sobre o que você deve acreditar, você aceitaria isso?

Em teoria - e bem em teoria mesmo, porque na prática eu não conheço muitos casos - os políticos deveriam ser estudados e preparados para atender às demandas e beneficiar a todos aqueles que vivem sob a legislação ou comando deles. Então jogar decisões importantes e fundamentais nas mãos de tanta gente despreparada ou relutante em evoluir ou mudar é uma estratégia covarde e patética. E aí que vem o pior: o nível de egoísmo e falta de empatia precisam ser muito grotescos para fazer alguém se deslocar a uma urna só para impedir a felicidade do próximo - ou a decisão de uma mulher de assumir a responsabilidade pela própria vida e o que acontece com ela.

Da parte dos "representantes do povo" (ou que assim deveriam ser) é fácil entender o que se passa. Na dúvida, preferem não se indispor com líderes religiosos que poderão os apoiar no futuro ou com qualquer eleitor que desaprove o assunto. Aí é só culpar a própria população pelo resultado de uma questão polêmica. Penso na porcentagem da população que teria sido contra a abolição da escravatura ou o casamento interracial na época em que ambos foram legalizados e não consigo parar de imaginar o que seria o mundo se isso não tivesse sido mudado. Ou em Mujica, ex-presidente do Uruguai, que declarou certa vez que se fizesse tudo pensando nas próximas eleições não conseguiria aprovar nem o casamento, nem o aborto e nem a legalização da maconha, já que a maior parte da população uruguaia era contra isso e ainda assim o presidente foi em frente.

Já da parte do povo em si, não é fácil entender o que se passa na cabeça de quem é contra. Ainda que sejam levados por uma doutrina ignorante e cega, legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou o aborto não vai ter absolutamente nenhum impacto na vida de quem gosta do sexo oposto ou em quem simplesmente não quer abortar. Então o que justifica tamanho preconceito? Será que as pessoas realmente não colocam o cérebro para funcionar um pouquinho a mais do que o normal?

Esse tipo de comportamento e pensamento deve ser combatido em todos os lugares. Nos países miseráveis, a doutrinação religiosa que funciona como único escape das mazelas diárias vira também uma pílula anestésica e permite a entrada de todos os dogmas e preconceitos levados por estes canalhas corruptos que lucram com tanta miséria. Mas em países desenvolvidos, mesmo aqueles com certo atraso de desenvolvimento ou ainda presos, de certa forma, ao passado (como parte dos lugares do Leste Europeu), é inaceitável que tanta gente ainda carregue esse tipo de pensamento. É fundamental separarmos o que é papel da sociedade e o que é papel do indivíduo.

Como não existe privilégio maior do que decidir sobre a vida do outro, é inadmissível que alguém precise de autorização para amar e passar o resto da vida com quem quer que seja.

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