OPINIÃO

O mundo precisa falar sobre sexo

A maioria dos adolescentes no mundo ainda não tem acesso às informações e serviços de planejamento familiar.

21/07/2017 16:30 -03 | Atualizado 21/07/2017 16:30 -03
RapidEye via Getty Images
Em todo mundo, 214 milhões de mulheres e meninas não têm suas necessidades de contracepção moderna atendidas.

Josaphine* tinha 13 anos quando começou a ter relações sexuais sem proteção.

"Comecei a ter relações sexuais aos 13 anos com um garoto de 15. Em minha comunidade, a maioria das famílias é pobre e muitas garotas começam a fazer sexo em uma idade precoce, às vezes já com 9 anos, com a expectativa de apoio financeiro."

Em todo mundo, 214 milhões de mulheres e meninas como Josaphine não têm suas necessidades de contracepção moderna atendidas. Os jovens — especialmente mulheres jovens e meninas — correm um risco maior e são mais afetados por saúde reprodutiva e sexual precária do que qualquer outro grupo na sociedade.

Os jovens podem ser impedidos de ter acesso à contracepção devido a estigmas sociais e medo de serem julgados. Tradições e crenças prejudiciais, tais como o casamento forçado ou em tenra idade, pioram o problema, enquanto a probabilidade de uma mãe morrer durante o parto é duas vezes maior entre mulheres jovens ou adolescentes em comparação com as mais velhas.

Isso nega às meninas e mulheres jovens a oportunidade de assumir o controle de suas vidas e de seus corpos, e de alcançar seu total potencial. Isso significa que abandonam a escola cedo, são forçadas a abortos inseguros e correm um risco desnecessário no parto.

Agora, chegamos a um momento crítico. Cerca de 1,2 bilhão de adolescentes em todo o mundo estão atingindo a idade reprodutiva e, ainda assim, a maioria desses homens e mulheres jovens não tem acesso às informações e serviços de planejamento familiar.

Se perdermos esta oportunidade de educar e proporcionar aos jovens do mundo serviços que poderiam definir suas vidas, uma geração inteira pode acabar estacionada no mesmo ciclo de pobreza de seus pais.

Em 11 de julho, governos, instituições de caridade, ONU e defensores dos jovens se reuniram na Cúpula de Planejamento Familiar com uma proposta — assegurar que todas as mulheres, em todos os lugares, tenham acesso ao planejamento familiar até 2020.

Empoderar os jovens para assumir o controle de sua saúde reprodutiva e sexual é vital para atingir este objetivo.

A organização VSO (sigla em inglês de Trabalho Voluntário no Exterior) está trabalhando com jovens como Josaphine, que mora em uma remota ilha de pesca no noroeste da Zâmbia, por meio de nosso projeto TALK, liderado por jovens.

Os voluntários da VSO treinam jovens moradores da ilha para trabalhar como educadores, compartilhando informações sobre planejamento familiar e saúde sexual com outros jovens da comunidade. Eles coordenam centros amigáveis onde jovens podem receber conselhos de saúde sexual adequados às suas idades e acesso a preservativos gratuitos sem receio de serem julgados.

O projeto envolve líderes locais — que possuem grande influência nessas comunidades remotas para lutar contra estigmas sociais. Mas também é essencial envolver os jovens nas decisões sobre suas vidas e em serviços de saúde reprodutiva e sexual. Muito frequentemente eles são excluídos e ignorados quando se trata de decisões sobre como os serviços são projetados e prestados e têm o acesso negado às informações que poderiam potencialmente salvar suas vidas.

Josaphine e o namorado frequentam sessões de apoio organizadas por voluntários do projeto TALK, e agora estão usando o planejamento familiar para prevenir uma gravidez indesejada ou doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Josaphine está frequentando a escola e planejando o futuro. Com apenas 18 anos, ainda tem toda a vida pela frente.

Desde 2012, o número de mulheres usando contraceptivos aumentou em 30 milhões. Só a organização UK Aid, do Reino Unido, forneceu apoio para 7 milhões dessas mulheres, ajudando-as a assumir o controle de seu planejamento familiar. Estamos promovendo um progresso real e tangível — e os britânicos, por meio da UK Aid e voluntários da VSO, estão contribuindo muito para isso.

Os voluntários do nosso Serviço ao Cidadão Internacional (ICS), financiado pelo Reino Unido, estão reforçando nosso projeto TALK na Zâmbia continental. Voluntários britânicos e zambianos, com idades entre 18 e 25 anos, estão trabalhando lado a lado para dar classes de educação sexual em escolas e grupos de jovens. Estão organizando dias de conscientização na comunidade local e treinando voluntários para se tornarem defensores da saúde sexual.

A VSO participou da Cúpula de Planejamento Familiar como orgulhosa parceira do Reino Unido em seu papel de liderança na prestação de serviços de planejamento familiar para todas as meninas e mulheres que precisam desse tipo de apoio até 2020.

Continuaremos trabalhando com jovens para assegurar que suas vozes sejam ouvidas. Continuaremos a exigir o fim do casamento infantil e de outras práticas prejudiciais — fazendo com que esse tipo de tratamento em relação às meninas seja coisa do passado. Continuaremos a incentivar e apoiar países para que implementem educação sexual abrangente para todos. Vamos realizar este trabalho e permitir que 1,2 bilhão de jovens tenham a chance de prosperar.

*O nome verdadeiro de Josaphine foi omitido

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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