OPINIÃO

Trancoso foi transformada pela música

26/02/2016 12:17 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Foi um sonho incrível, daqueles que fazem acontecer coisas surpreendentes no Brasil.

Sete anos atrás, num lindo anoitecer em Trancoso, um pequeno grupo de amigos estava tomando um drink na varanda da casa de férias de Sabine Lovatelli, criadora da série de concertos Mozarteum. O grupo incluía amigos de Trancoso e de São Paulo, além de um visitante estrangeiro.

O tema da conversa era saber se seria possível criar um festival anual de música clássica no fim do verão em Trancoso, depois da partida dos visitantes da alta temporada de Natal e Ano Novo. "Imagine", disse Sabine, entusiasmada, "como seria espetacular construir no vale um teatro a céu aberto onde os melhores músicos do mundo pudessem se apresentar em concertos num lugar perfeito, trazendo música para Trancoso". Se a minúscula e pitoresca Salzburg, na Áustria, pode receber um festival de música internacional, por que não a linda Trancoso?

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A ideia - o sonho - de que o festival pudesse transformar a serena Trancoso em um destino cultural, trazendo outro tipo de visitantes e ao mesmo tempo incrementando a economia local durante uma temporada de pouco movimento, era tão intoxicante quando as maravilhosas caipirinhas que embalavam a discussão.

Mas a jornada do sonho à realidade nos deixa sóbrios. No grupo reunido na varanda de Sabine estava o famoso arquiteto de Luxemburgo François Valentiny, que tinha projetado para o espaço um espaço para performances de tirar o fôlego. Mas, como diz Sabine: "'Deus é brasileiro', e ele nos protegeu da ideia de construir um teatro no vale.

A logística - levar os instrumentos e o público para lá seria impossivelmente complicada. Era um sonho, mas a providência divina garantiu que ficássemos em terra firme, com acesso fácil para todos".

François voltou para a prancheta. O problema, diz ele, era transferir "a situação acústica excelente do vale" para o novo espaço, ao lado de um campo de golfe, com vista para o mar. O som do oceano não poderia competir com a música. A solução é uma obra-prima arquitetônica: "superfícies curvilíneas e reflexivas cercando a orquestra e o público". Ela deveria ser classificada como um dos maiores monumentos arquitetônicos do Brasil.

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A providência divina certamente teve a ajuda de várias famílias abastadas, com casas elegantes perto da praia ou com vista para o campo de golfe, famílias que compartilhavam do desejo de contribuir com Trancoso. Graças ao apoio generoso da L'Occitane ao festival, o teatro agora leva seu nome. Outras marcas importantes são patrocinadoras.

O teatro tem 1 000 lugares, e os amantes da música brigam pelos ingressos. Inicialmente distribuídos de graça, eles são vendidos desde o ano passado, e custam entre 12 e 120 reais. A população local tem prioridade, mas também precisa ficar na fila.

O festival deste ano, quinta edição do "Música em Trancoso" vai começar em 5 de março, com um concerto de jazz clássico com a lenda americana Bobby McFerrin e a Orquestra Experimental de Repertório (São Paulo). Durante a semana, haverá uma ampla gama de estilos, de uma opereta e uma noite de Bossa Nova a um concerto de música de câmara, concluindo com uma "Rock Symphony".

As performances públicas são o foco do festival, mas, para alguns, como o pianista e arranjador César Camargo Mariano, os vários outros eventos musicais em Trancoso são ímpares. "O festiva de música em Trancoso é importante não só por sua qualidade musical, mas também pelos eventos paralelos, como as aulas." Ele fica maravilhado com o fato de que as crianças locais assistam aos ensaios e se interessem em aprender música.

Não há dúvidas de que o festival seja um sucesso para Trancoso, e até os mais céticos agora são fãs da ideia. Alguns, como Caloca Fernandes, dizem que o festival mudou pouca coisa, mas que sua existência e a orquestra jovem Neojibá despertaram o interesse "pela música clássica. Agora eles sabem quem são Mozart, Bach e Villa e querem viajar para lugares onde haja apresentações de orquestras".

Diz Sabine: "É sempre difícil criar um evento e trazer mais pessoas sem estragar o lugar. Acho que, com a ajuda dos moradores e Trancoso e região, conseguimos realizar uma mudança saudável e próspera".

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A realidade vibrante do Música em Trancoso e o 35º ano dos concertos Mozarteum são um tributo ao amor de Sabine pela música e seu desejo de compartilhá-lo. Isso foi reconhecido recentemente quando o cônsul geral da Alemanha lhe concedeu a prestigiosa "Cruz da Ordem do Mérito", de seu país natal, a Alemanha. Ao aceitar a comenda, ela lembrou o público da longa história de amor do Brasil com a música. "O amor dos brasileiros pela música é grande e muito antigo" e, se a existência do Mozarteum e do Música em Trancoso, com seus programas educacionais, contribuem para esse amor se perpetue, ela se sentiu muito honrada.

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