OPINIÃO

Política americana: circo da realidade

11/02/2016 17:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Gage Skidmore/Flickr
Donald Trump speaking at CPAC 2011 in Washington, D.C. Please attribute to Gage Skidmore if used elsewhere.

Jurei que não comentaria o circo de realidade que passa por processo democrático na campanha presidencial americana. As essencialmente insignificantes primárias de Iowa e New Hampshire acabaram e agora o circo segue para o Sul do país. Meus amigos brasileiros fazem para este gringo a mesma incômoda: que diabos está acontecendo nos Estados Unidos?

Sou meio viciado em política, então não consigo ficar quieto. Minha resposta é que simplesmente não sei. Leio e assisto e espero que a luz prevaleça sobre as trevas. Por enquanto, não aconteceu.

Se o sonho de toda criança americana é se tornar presidente, como os principais postulantes dos dois partidos consegue não incluir um único candidato que tenha algo parecido com missão e um pouco de bom gosto? Missão e gosto infelizmente estão faltando nessa turma de egomaníacos que estão disputando as chaves da Casa Branca.

Donald Trump é uma piada desastrosa e de mau gosto, uma celebridade que saiu do controle; o senador Ted Cruz é a reencarnação do autor da caça às bruxas, Joe McCarthy, mas pior; Marco Rubio é tão firme quanto uma água-viva; Bernie Sanders parece um socialista idealista simpático, mas perto dele Jimmy Carter é um pragmático; Hillary Clinton é Hillary, flertando com desastres e com problemas de confiança, apesar da experiente e competente.

É perturbador que esta eleição em particular seja questão de dinheiro - os milhões gastos para que os candidatos tenham dívida de gratidão para com um minúsculo grupo de bilionários que, honestamente, querem mandar no país de seu jeito, em benefício próprio. Eles estão acostumados a conseguir o que querem. A culpa poderia ser deles ou do implacável ciclo de notícias 24 horas, que depende de um fluxo contínuo de "coisas" para seus leitores e telespectadores e que aceita qualquer tipo de "notícia" para encher espaço nas páginas ou horas de programação.

Quer algo melhor para aumentar a audiência que destacar os últimos ultrajes de Donald Trump, que nunca foi eleito para nada e que diz, entre outras coisas, que vai deportar os 14 milhões imigrantes indocumentados e proibir muçulmanos de entrar no país? O evangélico direitista Ted Cruz quer acabar com a ameaça terrorista com uma política militar de "terra arrasada" no Oriente Médio, fazendo "o deserto brilhar", em suas palavras. Em seus primeiros anos no Senado, ele não é lembrado por nenhuma legislação importante que tenha proposto ou aprovado; em vez disso, ele é conhecido por paralisar o governo porque os democratas não queriam acabar com o Obamacare.

O latino Marco Rubio está desesperado para se tornar o candidato do establishment republicano, uma chance de salvar o partido de um destino pior que a morte, a probabilidade de uma derrota desastrosa caso o candidato escolhido seja Trump ou Cruz. A declaração de Rubio de que "não podemos ter um presidente dos Estados Unidos que apóie o controle de armas" resume tudo. Se a máquina financeira republicana, azeitada pelo lobby pró-armas da National Rifle Association, apoiá-lo, Rubio quer ser visto na primeira fileira, acenando com sua M16 e se curvando a seus benfeitores.

Os democratas Bernie Sanders e Hillary Clinton, diferentemente de seus colegas republicanos, articularam propostas coerentes e atenciosas. O problema com as ideias de Bernie - como um imposto único ou sua solução para a questão da saúde - é que elas são simplistas, pouco práticas e impossíveis de pagar.

E então temos Hillary Clinton, ex-primeira-dama, ex-senadora por Nova York, ex-secretária de Estado no governo Obama. Ela certamente é a melhor entre os piores (especialmente se você for democrata, como eu). Mas falta alguma coisa: ela é programada demais pelo establishment ou simplesmente não consegue expressar empatia com as pessoas comuns, as pessoas que vão às urnas em novembro escolher o novo presidente?

Voltamos à incômoda questão: que diabos está acontecendo nos Estados Unidos?

Quando Barack Obama foi eleito presidente pela primeira vez, em 2008, um jornal estampou a seguinte manchete: "Homem negro escolhido para o pior emprego do país". Barack Obama seria o primeiro a dizer que a Presidência não é um passeio no parque. Quem gostaria desse pepino?

Do ponto de vista de um gringo curioso, pode ser que os americanos mais brilhantes simplesmente não queiram "o pior emprego do país", apesar do glamour e do poder óbvios. Sobra para os outros brigarem pelo cargo.

É uma pena.

LEIA MAIS:

- Polarizou total! Bernie Sanders e Donald Trump vencem primárias em New Hampshire

- Ainda bem que os conservadores venceram o populismo de Trump em Iowa

Também no HuffPost Brasil:

10 caras de Donald Trump

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: