OPINIÃO

O Propósito de um Cão

Todo Golden que eu conheço está sempre observando o mundo com seus grandes olhos e focinho proeminente e se perguntando: qual é o sentido da vida?

08/02/2017 17:01 -02 | Atualizado 08/02/2017 17:46 -02

Então, eu sou um Golden Retriever de três anos chamado Jordan e tenho este amigo, o Peter. Ele é um gringo e gostaria que seus leitores vissem as coisas através de seus olhos de gringo. Mas, quando eu comecei a ouvir todo mundo falar sobre um novo filme, tive a certeza de estar melhor preparado do que ele para falar sobre Quatro Vidas de um Cachorro.

Naturalmente, presumi que o Bailey, a estrela do filme, seria um Golden como eu. Na verdade, ele é um Red Retriever, um primo nosso um tanto caipira e provinciano, mas tudo bem. Somos quase da mesma raça e, sem querer me vangloriar, eu e os meus parentes compartilhamos de um intelecto especial. Somos de natureza bastante filosófica. Todo Golden que eu conheço está sempre observando o mundo com seus grandes olhos e focinho proeminente e se perguntando: qual é o sentido da vida? Qual a razão de ser para nós cachorros? Existe algum fim para a nossa existência ou o fato de sermos o melhor amigo do homem é apenas uma espécie de acidente cósmico? Aliás, adoraria ter o diretor, Lasse Hallström como amigo. Com certeza ele é alguém que ama e entende os cachorros.

Para falar a verdade, depois de ler uma crítica do filme no New York Times do Peter, deixada, por acaso, no lugar onde eu durmo, eu quase desisti de assistir. O crítico, Adam R. Holz, obviamente um dono de gatos, definiu o filme como "uma série de clichés inofensivos com um cachorro injetado neles". Eu tentei visualizar um cachorro sendo injetado num cliché, mas desisti ao farejar o meu jantar.

O crítico alerta os pais que, depois de assistirem o filme, seus filhos vão implorar por um cachorro, sem saber quanto trabalho nós damos. Diz ele que as crianças vão pensar que o cachorro vai simplesmente estar sempre "de prontidão, esperando que o dono caia num rio para que ele possa resgatá-lo". Peraí, isto é uma injustiça. Nós não ficamos esperando que alguma coisa importante aconteça. Estamos sempre à disposição dos nossos donos e prontos para entrar em ação, quando se faz necessário. Um outro crítico, um tanto pretensioso, comentou: "os humanos na tela realçam a presença de seus fiéis caninos". Cachorros são capazes de atos de coragem e é possível pegarmos pulgas ou sermos um incômodo de vez em quando. Posso estar sendo "coruja", mas acredito realmente que um cachorro enriquece a vida das pessoas à sua volta e nenhuma criança deveria passar sem um. Recentemente visitei um escritório que exibia na parede os seguintes dizeres: "não compre um computador, compre um cachorro". Ora, isto é que eu chamo de pensar fora da caixinha.

É verdade que, no filme, o Bailey passa sua primeira vida ao lado de seu querido dono Ethan, morre e reicarna três vezes, assumindo raças diferentes. Esta parte me deu sono, exceto quando cada cachorro demonstra sua inteligência e coragem, superando a solidão inerente de seus donos, mostrando porque nós somos mesmo o melhor amigo do homem; talvez seja este o nosso propósito na vida.

Veja bem, assim como o Bailey no filme, quando eu não estou pensando no que vou comer, quando fico deitado observando as pessoas, não posso deixar de notar que elas às vezes fazem bobagens que nenhum cão moderadamente inteligente faria em um milhão de vidas. Dizem que conseguem farejar problemas que estão por vir, mas nenhum humano consegue perceber os cheiros que captamos em segundos. As vidas deles se tornam muito complicadas, enquanto nós só queremos lhes dar amor, amizade e brincadeiras divertidas.

Bailey e Ethan crescem juntos e criam uma ligação daquelas que fazem todo cachorro orgulhoso e feliz. Bailey arquiteta o encontro do Ethan com a Hanna, uma garota adorável ("ela tem cheiro de biscoito") num parque de diversões, e logo logo começa a imaginar o que Ethan tanto procura na boca da Hanna, já que eles não se desgrudam. Aquela parte eu não entendi. Porque ele não dava simplesmente umas boas lambidas nela, como eu teria feito?

Quanto mais eu penso no filme, mais me parece que qualquer um que já tenha amado e respeitado seu cachorro pode achar o filme hiper-sentimental, mas talvez chegue a verter uma ou outra lágrima. Eu não recomendaria o filme aos meus amigos, a não ser que eu soubesse que ia ter muita pipoca.

Melhor é ficar em casa e levar seu cachorro para um bom passeio, lembrando de levar seus petiscos favoritos.

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