OPINIÃO

O copo está metade cheio ou metade vazio?

31/03/2015 18:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
guilhermealbuquerque/Flickr

Ao telefone outra noite, minha filha, nascida e criada em Nova York, me perguntou, com certa ansiedade na voz: "Como você pode continuar a viver no Brasil, pai, como toda a criminalidade e a corrupção, a crise de água, a economia em queda?"

É uma pergunta válida, e não é a primeira vez que ela é feita, de uma forma ou outra. Alguns de meus amigos gringos andam fazendo as malas e "voltando para casa", por assim dizer. Amigos no exterior que pouco tempo atrás estavam pensando em fazer investimentos comerciais substanciais aqui os suspenderam, apesar de que, com a mudança acelerada na taxa de câmbio, seus dólares agora comprariam bem mais ativos brasileiros do que teria sido o caso alguns meses atrás.

Se você pensa que o copo está metade cheio, eles estão cometendo um erro grande. Se considera que está metade vazio, eles devem ter razão.

É claro que nas mesas de jantar as especulações correm soltas sobre se a má notícia é que o Brasil está voltando à sua trajetória histórica de "terra que é e sempre será do futuro" e ao que a Exame declara em manchete como sendo "O Risco Do Caos", ou se as notícias são boas: a situação atual é temporária e há sinais de um futuro positivo.

A edição atual de minha bíblia liberal gringa, a The Economist, geralmente contida no que afirma, diz que, em suas promessas eleitorais,

"Rousseff vendeu uma mentira. Foram os erros cometidos em seu primeiro mandato que levaram aos cortes nas despesas e às altas dos impostos e juros que ela agora está impondo (e que lhe valeram a inimizade de seu próprio partido). Some-se a isso a percepção de que sua campanha de reeleição pode ter sido financiada parcialmente por dinheiro roubado da Petrobras, e os brasileiros têm todos os motivos para se sentirem vítimas do equivalente político de um conto do vigário."

É claro que isso é assustador, se cometemos o erro de pensar que os políticos brasileiros mentem mais que os de outros países. Ao que tudo indica, não é esse o caso. O conto do vigário tornou-se universal; provavelmente sempre o foi. É apenas que, na medida em que mais e mais pessoas estão ligadas à mídia, uma parcela grande (mas, felizmente, decrescente) do eleitorado acredita nas mentiras.

Outros exemplos da cobertura que a mídia estrangeira está fazendo do escândalo de corrupção da Petrobras não têm ajudado a imagem do Brasil, mas têm valido algumas gargalhadas. Tudo focaliza a questão de se as coisas no Brasil estão tão ruins quanto agora é de praxe dizer que estão. Felizmente, alguns sinais positivos nos levam a pensar duas vezes antes de fazer as malas.

O fenômeno totalmente inusitado de algumas pessoas de perfil muito alto irem parar na prisão é extraordinário, algo que assinala que, hoje, ninguém está acima da lei. E que a lei será implementada. No milhão e pouco de manifestantes pacíficos reunidos na Paulista 15 dias atrás foi possível sentir que suas reivindicações de mudanças não vão desaparecer. A questão é por quanto tempo esses protestos vão continuar pacíficos. A resposta pode determinar o futuro.

Outro dia um advogado amigo descreveu como um "tsunami" o número de clientes que vêm batendo na porta de sua firma, implorando por ajuda urgente para implementar toda espécie de procedimentos de "compliance". "Eles estão muito sérios na intenção de corrigir seus possíveis desvios e garantir que continuem a cumprir as regras", ele disse. Isso é outro sinal muito positivo.

Então será que o copo proverbial está metade cheio ou metade vazio?

Supondo que decidíssemos que o copo está metade vazio e que é hora de partir, seria difícil identificar outro lugar que seria melhor que permanecer no Brasil. Estados Unidos, Reino Unido e Europa todos enfrentam problemas graves.

Tenho dificuldade em imaginar a vida em outro lugar, sem o calor humano dos brasileiros, sua gentileza instintiva, seu prazer em viver, o trânsito impossível e o "jeitinho" que quase sempre possibilita o impossível.

Portanto, acho que acabei optando pelo copo metade cheio. Saúde!