OPINIÃO

GringoView: Visões artísticas do futebol

18/06/2014 09:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Rosina Becker do Valle/Reprodução

Algumas semanas antes do início da Copa do Mundo de 1998, comprei uma pintura de futebol do falecido Camilo Tavares, um dos artistas que vendiam suas obras brasileiras naïf [primitivas] na rua, em frente à Praça da República em São Paulo.

Era quase profética. Mostrava um jogo entre o Brasil e a França. O conceito da pintura era de que nas laterais do campo, e no primeiro plano da pintura, havia uma fila de belas e seminuas dançarinas de carnaval. Os jogadores franceses, naturalmente, estão todos olhando para as garotas, enquanto os brasileiros, mais habituados a essas distrações prazerosas, marcam um gol. Um placar na pintura mostra 3 a 0 para o Brasil.

Embora os brasileiros provavelmente prefiram não se lembrar, não foi assim. O resultado final foi França 3, Brasil 0, e a Copa foi para os franceses.

O recebimento de um convite na semana passada para a inauguração de uma esplêndida exposição durante um mês chamada Futebol na Arte, na Galeria Jacques Ardies em São Paulo, ativou minha memória e me fez começar a pensar em quanto a arte naïf, especialmente a brasileira, é uma imagem geralmente não filtrada da vida e das visões diárias dos artistas. Como o futebol está em todo lugar, fazendo parte da vida brasileira tanto quanto o canto e a dança, especialmente ao nos aproximarmos da Copa, não é de surpreender que encontre seu caminho nas pinturas de tantos desses artistas.

Futebol de Rua, de Alba Cavalcanti

O que é surpreendente e decepcionante é o quão pouco o Brasil valoriza seus artistas nativos, especialmente os que podem ser melhor agrupados sob as rubricas de naïf ou "primitivo", e como foi preciso um francês e um belga chamarem a atenção para esse trabalho.

O falecido Lucien Finkelstein, um joalheiro francês que criou e foi curador do Museu de Arte Naïf do Rio (hoje chamado Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil), citou o comentário do psiquiatra Carl Jung: "Os pintores naïf representam os últimos ecos da alma coletiva em via de desaparecimento". Finkelstein continuou: "A arte naïf pode ser vista como remontando ao próprio nascimento da arte... foi nas telas do homem pré-histórico que a arte naïf, e portanto toda a arte, nasceu".

Futebol de Sábado, de Edivaldo

Jacques Ardies, um belga, se apaixonou pelo Brasil e seus artistas naïf no final dos anos 1970 e fundou a principal galeria de arte naïf brasileira. Ele não pode compreender o desejo quase universal dos críticos de arte de desprezar esse trabalho "como se o rótulo naïf carregasse uma espécie de doença da qual o artista deveria tentar se livrar".

Estimulado sem dúvida pela excitação da Copa e a possibilidade de aumentar a consciência pública sobre essa arte, tanto o museu do Rio como a Galeria Jacques Ardies em São Paulo, assim como muitas outras no país, enfocam suas atuais exposições sobre futebol nas pinturas de artistas naïf brasileiros. Muitas pinturas em exposição foram feitas muito antes de o Brasil ser escolhido para sediar a Copa deste ano, e não são simplesmente uma exploração do evento, o que mostra que o "jogo bonito" também faz parte da vida cotidiana aqui.

Jogo de Futebol, de Rosina Becker do Valle

Existe uma alegria nessas pinturas. Como se pode ver em Jogo de Futebol, de Rosina Becker do Valle, elas podem mostrar a ação no campo como o objeto central da pintura, enquanto na paisagem tranquila e quase mística de Edivaldo, Futebol de Sábado, o jogo está bem ao fundo. Uma simples formação de times antes de uma partida, em uma pintura de Ernani Pavaneli intitulada simplesmente Futebol, tem uma mulher topless perseguida por um guarda ao fundo. E Futebol de Rua, de Alba Cavalcanti, tem um aspecto único que nos permite ver com humor como o futebol está integrado à vida das pessoas.

Futebol, de Ernani Pavanelli

O que distingue todas essas pinturas é sua espontaneidade e total falta de pretensão. Todas expressam uma emoção feliz. Como as fachadas imaginativamente decoradas com bandeiras que surgem por todo o Brasil, essas pinturas são simples expressões emocionais do prazer do evento, despidas da irritada política que cerca esta Copa.

São essas expressões emocionais simples e cordiais que distinguem as obras naïf da arte que ganha as manchetes e alcança preços enormes, arte muitas vezes exibida nas casas dos novos ricos que parecem desprezar a beleza nativa que vem diretamente do coração e toca as emoções em favor do que é chique, novo e na moda. É uma atitude que diminui o valor do trabalho de muitos artistas maravilhosos do Brasil que deveriam ser vistos e apreciados.

Talvez nossa "alma coletiva" incendiada por esta Copa encontre nessas pinturas uma renovação que as impeça de desaparecer, pelo menos por algum tempo.

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