OPINIÃO

Gringoview: Thiago Soares volta para casa

28/07/2015 17:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

thiago soares ballet

foto: Mario Veloso/Reprodução Facebook Thiago Soares

Foi um pouco como uma volta da vitória em um estádio esportivo.

Para comemorar os 15 anos de sua carreira excepcional como bailarino, saindo de uma escola de circo no Rio de Janeiro para tornar-se o primeiro bailarino do Royal Ballet britânico, Thiago Soares voltou ao seu país, o Brasil, para mostrar o que faz e curtir os aplausos dados a um garoto local que fez sucesso.

Patrocinado pelo Bradesco Seguros, o espetáculo de balé e dança foi criado especialmente por e para ele para destacar seus talentos consideráveis e atrair plateias endinheiradas no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, onde os preços dos ingressos variaram entre R$ 180 e R$ 50 (os programas foram vendidos por R$ 20).

Marius Petipa, o legendário coreógrafo russo de "Lago dos Cisnes", nunca foi superado em sua capacidade de eletrizar uma plateia com dança ousada e brilhante. O espetáculo começou com uma versão um tanto condensada do terceiro ato do balé, justamente no emocionante "pas de deux" do Cisne Negro, cheio de saltos extensos de Thiago no papel do Príncipe e intermináveis piruetas e giros do Cisne Negro, a primeira bailarina do Royal Ballet, Lauren Cuthbertson.

(O papel do Cisne Negro foi dançado no Rio pela mulher de Thiago Soares, a argentina Marianela Núñez, outra estrela do Royal Ballet. Ele a pediu em casamento de modo sensacional em uma ocasião em que os bailarinos foram chamados de volta ao palco pelos aplausos no Royal Opera House, em Londres. Para ver o casal apresentando um de seus números mais instigantes, o pas de deux de "O Corsário" foi capturado no YouTube.)

O belo corpo de baile da Companhia Brasileira de Ballet-Ourinhos se encarregou das tradicionais danças "nacionais" e enfeitou o palco com cortesãos belos e verossímeis, conferindo autenticidade e charme à cena em que o Príncipe é apresentado a potenciais esposas. Ela mostrou que Ourinhos merece aplausos por sua companhia de balé, não apenas por seu rodeio.

Não se deixando incomodar pelas falhas do Teatro Sérgio Cardoso em matéria de iluminação (em alguns momentos os bailarinos aparentavam todos estar com icterícia) e a reprodução riscada da amada trilha sonora de Tchaikovski, a platéia adorou o balé e mostrou mais uma vez que existe, sim, um público brasileiro para os grandes balés clássicos.

"Caresse du Temps", coreografado pelo bailarino italiano Alessio Carbone e dançado ao som do "Prelúdio 14" de Chopin, obra-prima para o piano, é até certo ponto um enigma. Com piano tocado sobre o palco por Silas Barbosa, o número nos mostra bailarinos trabalhando sozinhos ou em grupos, usando os figurinos de trabalhos futuros, ensaiando posições, passos e danças coletivas, fazendo aquecimento para um espetáculo que ainda não começou.

Por mais original e bem-intencionada seja, a ideia de usar o "prelúdio" formal como metáfora musical do ensaio informal que antecede uma apresentação dos dançarinos parece um pouco improvável. Thiago aparece entre os bailarinos repetidas vezes, dá um ou dois saltos gigantes, alguns giros grandes, e depois sai do palco, apenas para retornar alguns instantes mais tarde. Estará ironizando a coisa toda? Fiquei sem saber. Me pergunto se o número não teria sido menor sem a atração principal ficar subindo e descendo do palco a todo momento.

Junte Thiago com a coreógrafa e bailarina excepcional Deborah Colker, dois dos nomes mais mundialmente famosos da dança do Brasil, e é quase certo que o resultado será um sucesso absoluto "Paixão", o terceiro número do programa, é o nome que Deborah deu a uma seção de "Vulcão", o trabalho com que lançou sua companhia em 1994. "Só sei fazer as coisas com paixão", ela disse em entrevista recente. Isso é visível.

Dançado ao som de uma colagem de grandes sucessos românticos gravados, "Paixão" produz uma série maravilhosa de encontros, expressando a liberdade completa da paixão incontrolável entre os dois bailarinos, muitas vezes violenta, às vezes terna, mas nunca constante ou cansativa. Se a performance de Thiago nos outros trabalhos pareceu um pouco contida e "britânica", aqui ele se envolveu por completo na vibrante energia brasileira de Deborah Colker, cheia de paixão.

Infelizmente, não pude ficar para ver o número final do programa, "La Bola", um solo criado por Arthur Pita especificamente para Thiago.

A impressão é que, aos 34 anos de idade, Thiago está deitando as bases de uma nova carreira "madura", aproveitando sua reputação excelente, passando seu tempo com apresentações como convidado com companhias de todo o mundo, encontrando veículos apropriados para seu talento e maximizando seus rendimentos. Ele chegou a lançar uma linha de roupas inspirada, segundo ele, na vestimenta pessoal de um bailarino.

Considerando tudo isso, depois de ter conquistado renome mundial como bailarino brasileiro e voltado para casa em uma visita triunfal, Thiago Soares merece sua volta da vitória.

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