OPINIÃO

GRINGOVIEW: Rupturas por toda parte

16/12/2016 16:49 -02
DON EMMERT via Getty Images
President-elect Donald Trump speaks at the USA Thank You Tour 2016 at the Giant Center on December 15, 2016 in Hershey, Pennsylvania. / AFP / Don EMMERT (Photo credit should read DON EMMERT/AFP/Getty Images)

Alguma coisa nesta época do ano nos convida a olhar para trás e para a frente mais ou menos ou mesmo tempo e tentar entender o que está acontecendo.

Para este gringo, tentar compreender tudo o que aconteceu nestes últimos meses no Brasil, nos Estados Unidos e, por extensão, no resto do mundo, além de se permitir contemplar cenários otimistas para o próximo ano, dá vertigem.

Tudo à nossa volta parece estar passando por período de ruptura: governo, negócios, política, comunicações, línguas e as artes. O que devemos pensar disso tudo?

Os meninos-cabeça do Vale do Silício há um bom tempo falam sem parar em "ruptura", pegando o bonde lançado há mais de uma década por Clayton Christensen, professor da escola de administração de empresas de Harvard e honrado pela revista Forbes como um "guru da ruptura".

Ruptura, segundo Christensen, "desaloja um mercado, indústria ou tecnologia existentes e produz algo novo e mais eficiente e de maior valor. É ao mesmo tempo destruidor e criador". A pergunta é: o que acontece entre esse desalojamento e o seu substituto?

Não há dúvidas de que, junto com a recessão, os escândalos de corrupção que elevaram o juiz federal Sérgio Moro à condição de celebridade, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a prisão de Marcelo Odebrecht, bilionário dono do conglomerado Odebrecht, e de todos os outros que provavelmente vão parar na cadeia, tiveram efeito disruptivo.

O governo anterior foi derrubado, o atual presidente está sob investigação e a economia está estagnada. E agora?

Até mesmo o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, que só assume em 20 de janeiro, tornou-se o "disruptor-chefe". Para que não haja dúvidas, seu estrategista-chefe será Stephen Bannon, ex-banqueiro de investimentos do Goldman Sachs e mais recentemente presidente do site racista e de extrema direita Breitbart News Network. Bannon é conhecido por opiniões como esta sobre mulheres em posições de liderança: "... as mulheres que liderariam este país seria feministas, seriam pró-família, teriam maridos, amariam seus filhos.

Não seria um bando de sapatões que vieram da Escola das Sete Irmãs." E ele acredita que "progressismo é essencialmente nada mais que a filosofia das vítimas" e que quem não é branco e rico se vê como vítima e culpa todo mundo por seus problemas - menos eles mesmos.

Em um exemplo excepcional da raposa cuidando do galinheiro, o chefe da Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt, procurador geral de Oklahoma, estado produtor de petróleo e gás, não acredita no aquecimento global nem na regulamentação dos poluidores.

Ele certamente vai fazer o que puder para atrapalhar os esforços de salvamento do ambiente. E estes são apenas dois dos nomes indicados por Trump.

Em sua introdução para "Invisible Ink" (tinta invisível, em tradução livre), um livro excelente sobre a luta de Jon Peter Zenger e o nascimento da imprensa livre nos Estados Unidos, Richard Kluger (sendo transparente: ele é um velho amigo de escola) captura o declínio moral e social dos Estados Unidos, "o cada vez maior abismo entre a riqueza extrema e a pobreza, entre a compaixão e a insensibilidade".

Ele alerta que "nossa preciosa democracia pode estar se esfacelando, mas, em vez de tentar consertá-la, nosso discurso público é cada vez rancoroso, levando o governo às margens da disfunção e da irrelevância". Não é um quadro bonito.

No Reino Unido, o voto pela saída da União Europeia só pode ser descrito como um ato de ruptura de um país frustrado com uma suposta perda de sua "grandeza" e soberania para os burocratas de Bruxelas.

Como relatado em Open Democracy, quando questionado se estamos diante do "fim da ordem mundial liberal", Quentin Peel, um jornalista britânico de destaque, respondeu que talvez seja algo "menos dramático".

"Quando as pessoas estão inseguras, procuram soluções simplistas. E é isso o que fizeram americanos e britânicos, com Trump e o Brexit - ambas soluções populistas de direita.

Mas também, na Europa, podemos ver o crescimento do populismo de esquerda. O traço comum é o colapso do centro - e, para mim, isso é profundamente preocupante, porque ainda não vimos como recriar esse espaço central.

Aqui, lembro as palavras de W.B. Yeats em 'Second Coming': "... o centro não pode perdurar, aos melhores falta convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade passional"

E, escreve Peel, "temo que estejamos passando por um período desses novamente".

Essa divisão raivosa entre a chamada "esquerda" e a chamada "direita" parece não deixar espaço no centro. Houve uma ruptura no centro.

Quando soube em 1789 que a população francesa não tinha pão, Marie-Antoinette (noiva do rei Luís 16) teria dito: "Que comam brioches". Como os ultra-ricos poderiam entender que não ter pão era uma realidade diária para uma população que passava fome enquanto os ricos ficavam cada vez mais ricos.

Era um convite à Revolução Francesa, o tipo de ruptura violenta que os críticos de hoje dizem que pode estar no horizonte.

Escrevendo no "New York Times", Eduardo Porter chama a atenção para um livro muito aguardado, "The Great Leveler" (o grande equalizador, em tradução livre), de Walter Scheidel, professor de história da Universidade Stanford.

Ele escreve que "os grandes momentos de equalização na história nem sempre têm as mesmas causas" e cita o professor Scheidel: eles têm uma raiz comum: rupturas violentas e maciças da ordem estabelecida... só uma guerra termonuclear total poderia resetar a distribuição de recursos atual".

Dito isso, Scheidel acredita que isso seja pouco provável e prevê que "o mundo do futuro deva ser bem estável e ter muita desigualdade".

Parece que estamos cercados de todo tipo de ruptura. Talvez só precisemos ir para uma praia tranquila, olhar para as ondas e fugir de tudo. É assim que este gringo planeja passar as festas, e deseja um Feliz Natal e um Feliz Ano Novo para todos os seus leitores.

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