OPINIÃO

Gringoview: Realizando Sonhos

Ines Bogéa comanda a São Paulo Companhia de Dança e enfrenta a precariedade de levar a dança adiante no Brasil.

14/07/2017 13:53 -03 | Atualizado 14/07/2017 14:02 -03
Reprodução/Renan Livi
São Paulo Companhia de Dança lotou o Teatro Sergio Cardoso durante quatro semanas.

A diminuta Ines Bogéa, diretora artística da São Paulo Companhia de Dança (SPCD), senta-se calmamente e fala dos seus sonhos e de como consegue realizá-los.

O enorme sucesso da temporada de quatro semanas no Teatro Sergio Cardoso exibiu a SPCD em plena forma, confirmando seu lugar como principal companhia de dança do País. As dez obras apresentadas, que abrangem do clássico ao contemporâneo, mostram que a companhia consegue transitar com fluidez de uma linguagem a outra.

O mesmo programa nos trouxe a elegantemente dançada Suite de Raymonda, coreografada por Guivalde de Almeida a partir do original de Marius Petipa de 1898; Primavera Fria, obra cerebral e contemporânea que examina a essência da ruptura inesperada de uma relação, criada este ano por Clébio Oliveira; Pivô, de Fabiano Lima, um hip-hop obcecado por basquetebol; e Ngali, de Jomar Mesquita, premiada em 2016. La Sylphide, um clássico do século XIX de Auguste Bournonville, lotou a casa nas duas últimas semanas.

Esta temporada, diz Inês, é a realização de seu sonho de uma companhia madura. É resultado de um processo de crescimento irregular desde sua fundação, em 2008, até alcançar a sustentabilidade de um elenco forte e cativante.

Divulgação/Arnaldo Torres
Ines Bogea é a diretora artística da São Paulo Companhia de Dança

Apesar de operar sob contratos quinquenais com o governo do estado de São Paulo, o orçamento tem que ser negociado ano a ano. O que pode ser "problemático" em vista da crise atual. Isto causou dificuldades para a companhia? "Certamente", diz ela. "A transformação é própria da natureza do processo artístico". Ela parece vicejar neste ambiente.

Ines foi bailarina do Grupo Corpo de Belo Horizonte, crítica de dança da Folha de São Paulo, documentarista, com autoria e curadoria de mais de 40 obras sobre dança, além de Figuras da Dança, série anual de livros e videos que documentam a história da modalidade no Brasil.

PhD em Artes e professora da USP, insiste em dizer que, já que "arte é vida", toda esta devoção à dança é perfeitamente natural, mas que sua paixão não se restringe a ela. Educar as pessoas e se enriquecer através das artes são sua força motriz.

"Meu sonho, prazer e inspiração sempre vieram do meu contato com artistas, cultivando com eles relações vivas, ajudando a arte de cada um a florescer." Foi, sem dúvida, esta postura que a inspirou a convidar grupos de dança menores, como Galpão 1 e Chris Matallo e Alunos, para apresentar pequenos trabalhos no saguão do teatro antes das apresentações da companhia, dando a este jovens bailarinos e coreógrafos a rara oportunidade de serem vistos por um público de dança tão numeroso.

Se, em seu avanço, Ines passou por conflitos ocasionais com alguns artistas e administradores com uma certa indiferença autoprotetora, isso não a impediu de galgar até o ápice do mundo da dança. Também não diminui seu entusiasmo em registrar e preservar a dança no Brasil.

O fato de existirem, hoje em dia, 18 companhias localizadas em grandes e pequenos centros populacionais recebendo apoio do governo é, para Ines, um indicador do aumento de interesse na dança. "Esse fato é visível no crescimento de nosso programa de assinaturas, que conta agora com mais de 800 assinantes e uma taxa de 80% de renovação anual", diz. "É um sinal inegável de que a companhia conta com o apoio dos amantes da dança e de que o público cresce a cada dia."

"Mais do que qualquer outra coisa, os bailarinos querem dançar", ela diz. E eles querem dançar o mais frequentemente possível e ser vistos pelo maior público possível. Turnês internacionais dão aos bailarinos a oportunidade de serem comparados com as principais companhias de dança do mundo, um desafio artístico importantíssimo.

Depois do sucesso de sua última turnê, a SPCD planeja 45 dias de apresentações na Alemanha, França e Luxemburgo com um repertório ambicioso. A estreia será em Baden-Baden com o espetáculo O Sonho de Dom Quixote, da bailarina brasileira Marcia Haydée, acompanhado ao vivo pela Deutsche Staats Philarmonie Rheinland-Pfalz. Ines comenta com orgulho: "E não vai nos custar nem um real sequer. Vamos voltar para o Brasil com mais dinheiro do que tínhamos".

Qual é o próximo sonho de Ines? Ela ainda não elaborou todos os detalhes, mas está certa de que envolverá música ao vivo e educação. Considerando seu histórico, tem tudo para ser um sucesso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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