OPINIÃO

GringoView: Quebrando as costas do camelo

Quem irá decidir o que pode passar pela internet e o que não pode?

22/11/2017 18:35 -02 | Atualizado 22/11/2017 18:35 -02
The Washington Post via Getty Images
A máquina de propaganda russa usou as redes sociais para influenciar as últimas eleições dos EUA?

Há uma metáfora famosa que diz que uma palha a mais que seja pode quebrar as costas de um camelo: o animal só pode carregar um tanto e nenhuma palha além. Cada fim de semana, aqueles que acompanham as notícias se perguntam se o tsunami de eventos absurdos da semana seguinte não vai representar essa palha que afunda o camelo.

Este gringo entende as investigações de corrupção brasileiras em curso e a corrida eleitoral como reconfortantes em relação ao resto do mundo, que parece cada vez mais desenfreado, irracional, imprevisível e perigosamente caótico. Um dos meus professores, no passado, escreveu perfeitamente que não há nenhuma ordem que valha a pena ter "o que não convida, para a sua vida, a oferta constante e aleatória de novas desordens". Isso certamente é verdade, mas, ei: assim já é demais!

No início do mês, nos Estados Unidos, representantes legais do nosso triunvirato de deuses digitais - Google, Facebook e Twitter - vestidos, de forma incomum, com roupas de negócios conservadoras - a antítese do jeans e do modo de t-shirt do Vale do Silício - foram testemunhar frente aos comitês do Congresso dos EUA.

Os congressistas queriam saber o que suas empresas haviam feito (ou não conseguiram fazer) para evitar que a máquina de propaganda russa (popularmente chamada de "fábrica de trolls") usasse suas plataformas de redes sociais para influenciar as últimas eleições dos Estados Unidos e abafar as chamas da discórdia racial e econômica que está viva em todo o país.

A Wired informou que o Facebook sozinho reconheceu que 470 perfis criadas pelos russos "criaram coletivamente 80.000 artigos que podem ter sido compartilhados, tanto organicamente quanto através de anúncios, por 126 milhões de pessoas".

Esta é apenas a ponta de um iceberg gigante que tem dimensões totalmente desconhecidas em todo o mundo. Escrevendo no Guardian, Natalie Nougayrède comentou:

"Não se trata apenas de Trump e se sua campanha se entrelaçou com o Kremlin. É sobre como as grandes e não governadas áreas do ciberespaço são a nova arena onde os poderes autoritários e democracias estarão iniciando, cada vez mais, uma batalha para a qual estes não estão suficientemente preparados. A lei das da selva domina nas mídias sociais."

Domar a selva nunca foi fácil. O Congresso dos Estados Unidos está compreensivelmente perguntando a essas empresas o que elas podem fazer para censurar de forma eficaz a internet, tanto como uma contradição com a ideia de liberdade na internet, como os ternos e gravatas dos executivos que testemunhavam.

A pergunta óbvia: quem irá decidir o que pode passar pela internet e o que não pode? Colocando a máquina da "fake news" russa de lado, a grande questão é: qual Big Brother terá o poder de decidir o que podemos dizer em nossas postagens, o que é "falso" e o que não é?

Um dos aspectos assustadores da tecnologia é a dificuldade em conter o monstro uma vez que já está lá fora. Mesmo usando a inteligência artificial mais sofisticada disponível, imagine a incumbência de decidir qual das 60 bilhões de mensagens diárias no Facebook não atendem a algum padrão de verdade e consentimento. Será um "discurso de ódio" que deve ser impedido? Será que a minha postagem "eu odeio couves-de-bruxelas" será considerada um discurso de ódio por algum algoritmo onisciente, que tem uma inclinação vegetariana?

Escrevendo para o New York Times, Emily Parker propõe: "o verdadeiro problema é que os americanos não têm um senso compartilhado de realidade". Talvez um problema maior seja que, neste mundo cada vez mais rápido, nenhum de nós tenha. O que levanta a angustiante questão: em um mundo onde não existe um senso comum de realidade, o que é e o que não é um discurso aceitável?

Empresas de mídia, juntamente com as agências públicas ou governamentais geralmente bem-intencionadas exigem requisitos mínimos de idade em materiais que eles acreditam ser inadequados para os mais jovens. Mesmo que isso possa ser aplicado, é totalmente arbitrário.

Me lembro de um neto entrar na sala enquanto a televisão exibia uma cena altamente erótica em um filme e sua avó tentando protegê-lo de vê-la. Divertidamente, esse garoto de nove anos sorriu e disse: "sabe vó, eu sei muito mais do que você acha que eu sei".

E quanto à mentira? Se a internet tratasse apenas a "verdade", isso eliminaria imediatamente grande parte da cobertura política e comentários. Donald Trump é um mentiroso em série com tanta intensidade que o NY Times agora publica uma lista de suas mentiras corrigidas com a verdade fornecida por agências de fact checking.

Infelizmente, a mentira absoluta agora está virando prática comum. Uma grande porcentagem de pessoas não acredita no que leem nas notícias. Com toda essa confusão, notícias falsas e mentiras, não sabem em quem acreditar. Onde devemos encontrar uma bússola moral? Como podemos separar o "certo" do "errado", "verdadeiro" do "falso"?

Recentemente, aprendemos que algumas de nossas celebridades mais conhecidas são predadores sexuais, que indústrias inteiras estão infectadas com uma cultura de assédio. Com uma mitigação esperançosa de seu comportamento ultrajante, o produtor de filmes Harvey Weinstein disse: "Eu virei adulto nos anos 60 e 70, quando todas as regras sobre comportamento e locais de trabalho eram diferentes. Essa era a cultura então".

Se era ou não, depende do seu ponto de vista, mas aqui está outra área em que é difícil saber o que você pode e não pode dizer, ou fazer, com um colega.

Alguns anos atrás, aqui em São Paulo, guiando uma executiva sênior da IBM nos Estados Unidos para o seu carro, apareceu minha assistente, uma mulher atraente, que voltava das férias. Com um grande sorriso, ela veio até nós, foi apresentada, me deu um beijo na bochecha e continuou sua jornada. Obviamente surpreendida, a executiva da IBM disse: "se você trabalhasse na IBM nos EUA, você teria sido demitido na hora por isso".

Não parecia ser nem hora nem o lugar para explicar que a vida no Brasil era maravilhosamente menos formal e o ato que ela tinha testemunhado era tão comum quanto dizer "tenha um bom-dia". Eu notei que fiquei extremamente feliz por não ter trabalhado para a IBM ou nos EUA.

Quantas palhas a mais pode o camelo carregar antes que suas costas estejam quebradas e nós tenhamos ainda mais caos?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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