OPINIÃO

GringoView: Por Que Mesmo Precisamos de Mentores?

Os executivos pós-algoritmo parecem não valorizar o conhecimento dos mentores na trajetória corporativa.

29/03/2017 13:42 -03 | Atualizado 05/04/2017 23:16 -03
mediaphotos via Getty Images
Mentoria requer relação guru-discípulo para garantir mais acertos na trajetória do executivo.

Recentemente, algumas interações ligeiramente frustrantes com colegas brasileiros fizeram este velho gringo questionar se a figura tradicional do mentor, o desenvolvimento de uma parceria entre alguém mais jovem com vontade de aprender e alguém mais velho e substancialmente mais experiente, é coisa do passado. Será que as incrivelmente excitantes novidades tecnológicas criaram um profundo e intransponível abismo entre as gerações?

Se, historicamente, a relação mestre-aprendiz vem de longa data -- "Mentor" é um personagem da Odisséia de Homero, tradições religiosas baseadas na relação "guru"-"discípulo" permanecem vivas até os dias de hoje.

Na área de business, mentores estavam na moda na década de 90. Se era como dar uma espécie de rótulo chique ao aprendiz tradicional nas esferas mais altas do business management, não havia dúvida de que servia a um propósito fundamental no desenvolvimento de quadros de bons gerentes de negócios. Alguns anos atrás, o diretor de Recursos Humanos da Pepsico na America Latina me disse que a combinação do sistema de mentores internos, aliada ao sistema de promoções dentro da própria empresa, era o segredo do seu sucesso.

A Endeavor, organização internacional com uma base sólida no Brasil, se autointitula "o maior movimento de empreendedorismo de alto impacto do mundo" e considera a provisão de mentores voluntários – alguns dos executivos top do Brasil, num amplo espectro de disciplinas – uma das principais contribuições que a empresa faz dentro de seu seleto grupo de empresas empreendedoras constituintes.(Observação: eu fui um dos mentores da Endeavor durante mais de cinco anos).

Daniel Wjuniski, fundador e CEO da Minha Vida, uma das principais empresas de bem-estar do Brasil, dá total apoio ao sistema de mentores da Endeavor. "Não é tanto pelas novas ideias trazidas pelos mentores, mas pela ajuda inestimável em evitar erros que poderiam vir a ser catastróficos. Crescer sem eles teria sido muito mais difícil para nós".

"A principal razão para adotar um mentor é ajudar a tomar decisões", opinou Mario Calliari, ex-editor de Veja: "Um mentor não lida necessariamente com questões de tecnologia e modelos de business. Ele irá fazer perguntas e facilitar o processo de tomada de decisões, a maneira de se pensar sobre um assunto, a forma de se acessar um problema".

Com todo este histórico positivo, por que tantos dos nossos jovens managers não só se afastam de mentores dispostos mas abertamente desencorajam a formação de relações mentor-discípulo?

A resposta costumeira aponta para o abismo entre a tecnologia atual e a presumida falta de conhecimento e experiência tecnológica do mentor.

Frequentemente, torna-se uma batalha burlesca entre as educações pós e pré-algoritmo. Também parece ser o resultado da dependência da geração atual do Google e outras formas de tecnologia como fonte de "conhecimento".

Por que, perguntam os garotos prodígio de hoje, me ocupar de todo aquele lixo histórico quando o código certo vai me dar a resposta que busco instantaneamente?

É um argumento válido, construído numa base frágil, a premissa questionável de que quem escreveu o código estava fazendo as perguntas certas, para início de conversa.

De fato, é este o melhor argumento de inflexão quanto à necessidade de um mentor. O modelo computadorizado pode despejar infinitas bases para a construção de estratégias de business e de marketing, mas é extremamente improvável que pense fora ao invés de dentro de sua própria caixa.

Recentemente, quando inquirido por um mentor se uma determinada estratégia seria digna de investigação como contraponto a uma iniciativa atual apenas marginalmente bem-sucedida, a resposta do executivo foi prontamente negativa: significaria reconstruir o modelo (trabalho extra) e, de qualquer forma, os dados necessários estariam indisponíveis (agora, mas dados históricos seriam um bom começo). Contexto histórico e experiência derivados de dúzias de situações semelhantes foram considerados irrelevantes e, até mesmo, intrusivos.

Faz-se necessário perguntar; o que leem estes jovens executivos digitalizados? Além de escanear Facebook e LinkedIn, que fontes de conhecimento e experiência provêm contexto para suas ideias?

E, se os mentores ultrapassaram sua utilidade histórica, o que poderia preencher este vácuo?

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

LEIA MAIS:

- GringoView: 140 caracteres são o bastante?

- O Propósito de um Cão

Idosos Tatuados