OPINIÃO

GringoView: otimismo naif

27/02/2015 17:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
arquivo pessoal

Folheando as páginas do novo e deslumbrante livro A Arte Naif no Brasil II, podemos ouvir a música brasileira, visualmente colorida, sentir os sabores que conferem ao Brasil seu caráter singular e olhar nos olhos grandes e acolhedores de seu povo "simples" vivendo e festejando seu cotidiano.

capa

O que é mais espantoso é que, nas obras lindamente expostas de quase 80 artistas, a felicidade é universal, a natureza é pródiga e plena de cores espetaculares; não há uma única imagem que transmita uma ideia da pobreza ou dificuldade de vidas que com frequência são muito sofridas.

Estas são pinturas felizes, que refletem um ponto de vista muito positivo. Elas captam a essência do país e de seu povo.

Lançado no final do ano passado, A Arte Naif no Brasil II vem atualizar um compêndio de 1988 reunido e escrito por Jacques Ardies, proprietário há 35 anos da galeria paulista de arte naif que leva seu nome, www.ardies.com . Para ajudar os brasileiros a valorizar a vibrante arte naif que os cerca, ninguém contribuiu mais que este amante da arte, nascido na Bélgica, que reuniu os melhores trabalhos de quase 80 artistas neste volume muito ampliado, rico em ilustrações e contextualização das obras.

As 270 páginas do livro exibem os trabalhos dos artistas com muita beleza, oferecendo informações biográficas sobre cada um e também uma narrativa fascinante que apresenta os artistas e sua obra e os organiza em um contexto mais ou menos cronológico. Textos curtos dos críticos Daniel Achedjian, Marcos Rodrigues, Jean-Charles Niel e eu acrescentam vozes adicionais.

No texto de abertura do livro, Jacques Ardies cita o crítico Geraldo Edson de Andrade:

"A importância da pintura primitiva, ingênua, naif ou insita (são muitas as denominações) no Brasil, país de ricas tradições populares, está na maneira pela qual os pintores procuram captar uma linguagem brasileira de olhar a realidade ao seu redor. Consequentemente, armazenam na memória coletiva do povo uma documentação visual de nossos usos e costumes, comportamentos urbanos e regionais, sem excesso de intelectualismo, com a visão simples de quem vê as coisas puras da vida. Suas raízes, enfim."

Desenvolvi um amor profundo pela arte naif brasileira desde que primeiro vi exemplares dela pendurados num hotel carioca, muitos anos atrás, e a coleciono desde então. Os quadros e esculturas tornaram-se bons amigos meus e nunca param de gerar prazer imediato.

Como não se comover com Adão e Eva no Paraiso, de Alexandre Filho, que mostra o casal tranquilo em pé, Eva segurando um dos frutos de um cajueiro ao lado, com uma cabra branca no primeiro plano e uma serpente verde benévola subindo por um galho vizinho?

adão e eva alexandre filho

Como deixar de ouvir a música e sentir a beleza e tranquilidade de Carnaval no Paiol, de Edivaldo, com sua paisagem fértil e dominante estendendo-se ao longe enquanto camponeses dançam e festejam? Não há caras triste em Procissão, de Neuton de Andrade, e a Paisagem Rural de Edgar Calhados estende-se ao horizonte com uma calma modorrenta que nos recorda que podemos ficar em sintonia com a natureza.

A arte naif não precisa de explicação ou comentário crítico para ser acessível ao espectador. Só precisa ser desfrutada. Seja qual for o tema, quer seja o Movimento do Tráfego de São Paulo, de C. Sidoti, ou a Sinfonia dos Pássaros, os quadros transmitem uma visão constante de simplicidade e beleza que está ali para todos - só precisamos parar por tempo suficiente para olhar e sermos energizados por ela.

Uma coisa que distingue estes artistas naif é o otimismo inerente à sua visão de mundo. Algum tempo atrás, quando visitei a casa e o ateliê de José Barbosa, em Olinda, apontei para os cupins que faziam a festa com as vigas da casa. Olhando para eles, o artista falou simplesmente: "Não é problema. Consigo criar mais rápido que eles conseguem destruir." Sinta a explosão de suas Flores e você não terá como discordar.

jose barbosa

Em seu ensaio curto Voltar à Simplicidade, o historiador de arte Daniel Achedjian resume tudo isso à perfeição:

"Os pintores populares brasileiros convidam a descobrir o verdadeiro Brasil, sem filtragem de uma escola ou de um movimento artístico, e resta a cada visitante a incumbência de formar uma ideia, sem saber ao certo como defini-la, sobre o que é a chamada pintura naif. Na verdade, uma viagem apaixonante."

Cercados, como estamos, pelo barulho de nossa existência moderna, um tumulto aparentemente interminável de imagens e mensagens das quais muitas vezes parece impossível fugir, passar uma ou duas horas de tranquilidade folheando as páginas deste livro e curtindo os sabores maravilhosos que estes artistas nos oferecem é uma alegria profunda.

  • arquivo pessoal
    Neuton Andrade - Procissão
  • ARQUIVO PESSOAL
    Edgar Calhado - Paisagem Rural
  • ARQUIVO PESSOAL
    C. Sidoti - Movimento do tráfego
  • ARQUIVO PESSOAL
    Edna Araraquara - Algodoal