OPINIÃO

GringoView: O sensacional 'Cirkopolis', sucesso da temporada de dança do Teatro Alfa

Cada intérprete parece capaz de dominar não apenas uma disciplina, mas uma variedade de habilidades incomuns na hierarquia circence.

20/10/2017 17:46 -02 | Atualizado 20/10/2017 17:46 -02
Divulgação/ Valérie Remise
Esse circo trata da poesia, do amor, da energia e da sensibilidade.

Este gringo vai ao teatro para ser entretido ou iluminado. Ou ambos. Ser inesperadamente surpreso e tomado pelo prazer por uma obra de arte não acontece com frequência, mas, quando acontece, uau! É um dos grandes prazeres da vida.

E aconteceu recentemente ao assistir Cirkopolis, inquestionavelmente o ponto alto da temporada anual de dança do Teatro Alfa, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Em 2017 cinco grupos se apresentaram, entre os quais duas das principais companhias de dança brasileiras, o Grupo Corpo e a Companhia de Dança Deborah Colker, o L.A. Dance Project do super estiloso coreógrafo Benjamin Millepied, e o elenco jovem e brilhante do Netherlands Dance Theater 2.

Leitores frequentes do GringoView talvez se lembrem do meu lamento sobre o fim do circo. Bom, felizmente, nem tudo está perdido. Mesmo que as grandes lonas históricas tenham sido recolhidas para sempre, a essência do circo – o intérprete que executa o aparentemente impossível – parece estar bem viva e encontrando expressão em formas novas e relevantes.

Cirkopolis, apresentado pela trupe canadense Cirque Éloize, é um exemplo perfeito. A obra irrompe com a mágica do circo lindamente mesclada com movimentos de dança, música originalmente composta e projeções visuais esplêndidas, que criam efeitos cênicos incríveis sem jamais competir com os intérpretes multidisciplinares.

Um picadeiro virtual se faz de moldura para os números circenses: malabares, trapézio, roda Cyr (criação de um dos fundadores do Cirque Éloize), diabolo e acrobacias em grupo assombrosas e cheias de humor.

Divulgação/ Valérie Remise

Reconhecendo a influência óbvia de seu compatriota, o Cirque de Soleil, Janot Painchard, diretor artístico do Cirque Éloize, busca claramente proporcionar ao público uma experiência circense genuína e sincera. Ele aprendeu seu ofício como um artista de rua, se apresentando em malabares, monociclo e ciclismo acrobático. "Qual melhor treinamento", pergunta ele, "do que fazer-se suficientemente interessante a ponto de fazer os passantes pararem, assistirem e jogarem uma moeda no chapéu?".

Não é o grande número o rufar dos tambores que toma o centro do picadeiro em Cirkopolis, mas o indivíduo ou o grupo, lindamente integrado, fazendo coisas de tirar o fôlego, mantendo a plateia suspensa num misto de antecipação e excitação até o final de cada número, quando eclode na gratidão do aplauso. E se um intérprete erra ou deixa cair um bastão, de acordo com a melhor tradição circense, ele o apanha e repete o número até acertar.

Nós adoramos a experiência porque somos emocionalmente tocados. "A coisa mais importante na criação de um show é o que se chama de 'esqueleto acrobático'", explica Pinchard.

"Habilidades acrobáticas são o centro da performance e, paralelamente, desenvolvemos coreografias, criamos a música, desenhamos o figurino, sobrepomos projeções... Todos os elementos da criação são desenvolvidos ao redor desse esqueleto acrobático e, no final, juntamos tudo, como os diferentes ingredientes de uma receita."

A receita merece três estrelas e cada intérprete parece capaz de dominar não apenas uma disciplina, mas uma variedade de habilidades incomuns na hierarquia circense.

Divulgação/ Valérie Remise

No passado, apresentações circences não tinham tema ou narrativa. Eram uma série de "números" costurados pelo mestre de cerimônia e pelos palhaços. Hoje não é mais assim. Mesmo antes de a cortina subir, dois artistas em capas de chuva e chapéus circulam pela plateia, interagindo com o público. Quando sobem no palco e as luzes se apagam, é sinal que a apresentação realmente começou.

Vislumbramos um mundo extremamente cinzento e entediante no qual homens e mulheres cansados movem arquivos e pilhas de papel de uma escrivaninha para outra contra um pano de fundo de rodas enormes e prédios inexpressivos, fortemente remanescentes de Tempos Modernos, de Chaplin, e Metropolis, de Fritz Lang.

Que melhor maneira de escapar dessa rotina de vida monótona do que jogar fora toda a papelada sem sentido e explodir com cores e energia, balançar-se livremente num trapézio, ou voar alto sobre as cabeças dos outros atores? É um mundo de fantasia, liberto da realidade mundana. É impossível não se deixar envolver pela magia.

Esse circo trata da poesia, do amor, da energia e da sensibilidade e de como todos nós temos a oportunidade de criar um mundo colorido e vibrante, não importa quão cinza o entorno.

"Boa parte do crédito vai para a multi-dimensionalidade dos intérpretes" diz Painchard. "Os artistas têm que ser muito bons em suas disciplinas e interessados em aprender outras disciplinas. A habilidade de conectar-se com o público e de tornar-se parte de um time também são fatores chave par o sucesso do artista, dentro e fora do palco."

Deve ser essa a razão pela qual tudo se encaixa tão maravilhosamente e deixamos o teatro entretidos, iluminados e enriquecidos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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