OPINIÃO

GringoView: O mundo é um palco

24/11/2014 11:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Bronwen Sharp

"Ser ou não ser, eis a questão." A pergunta existencial de Hamlet talvez seja a citação de Shakespeare mais famosa de todos os tempos.

É uma pergunta que assombrou o ator e diretor Sam Wanamaker, um "louco por Shakespeare" confesso. No começo dos anos 1970 ele embarcou num incrível projeto para construir uma réplica exata do elizabetano Teatro Globe em seu lugar original, à margem do Tâmisa, em Londres. Foi naquele espaço oval que muitas das primeiras performances das peças do bardo foram encenadas pela primeira vez. Será que ele poderia ser trazido de volta à vida?

A visão de Sam e seu esforço para evitar que esse lugar histórico caísse nas mãos de desenvolvedores e especuladores imobiliários para preservá-lo para as artes não foi apenas um sucesso triunfal; é hoje um memorial vivo de Shakespeare e uma companhia teatral de primeira linha, que leva produções para o mundo todo. As obras do teatro foram completadas em 1997, quatro anos depois da morte de Sam. O teatro fica a céu aberto, e a maioria do público fica em pé, como os espectadores da era elizabetana. O Teatro Globe é mais que uma mera atração turística, como temiam alguns. É uma das joias artísticas da cidade, e os ingressos para as peças ali encenadas esgotam com muita antecedência.

Desde o princípio, um "ser ou não ser" pairou sobre esse grandioso projeto. Será que conseguiriam levantar fundos para a construção? Será que haveria recursos para criar uma companhia de teatro e para um centro de estudos da obra de Shakespeare? Será que era somente um lindo sonho de um homem do teatro, um idealista romântico? Ou será que o sonho poderia virar realidade?

O projeto chamou a atenção do príncipe Philip em sua fase inicial. Lembro de uma recepção para Sam no Palácio de Buckingham. Falando aos presentes, o príncipe disse ter dado instruções aos lenhadores reais para cortar alguns carvalhos antigos em terras da Coroa para que a madeira fosse usada nas vigas do Teatro Globe. Foi um endosso real e um presente de coração de um grande fã do projeto.

Hoje, 450 anos depois do nascimento de Shakespeare, o Hamlet do projeto "Globe to Globe" está viajando o mundo, e pousa em São Paulo nesta semana. Não é surpresa que o teatro do Sesc Pinheiros, o melhor da cidade, tenha sido escolhido para abrigar a montagem.

Os sortudos que conseguiram ingresso para as performances, que vão de 25 a 27 de novembro, viverão a experiência extraordinária que levou diplomatas da Assembleia Geral da ONU a aplaudir de pé uma produção encenada na sede da entidade.

Co-dirigido por Dominc Dromgoole, diretor artístico do Globe, e seu colega Bill Bruckhurst, a produção (um pouco menor, mas completa) tem um núcleo de 16 atores (12 que se revezam nos papeis, garantindo variedade para eles e reserva uns para os outros, mais quatro do grupo de apoio). Todos se dispuseram a participar dessa maratona, que começou em 23 de abril deste ano e vai visitar todos os países do planeta até 23 de abril de 2016. A produção foi concebida para funcionar em locais diversos como o supermoderno National Centre for the Performing Arts, em Pequim; anfiteatros gregos e romanos, Djema el-Fna, a praça principal de Marrakech, e um lindo teatro construído na floresta tropical de St. Lucia.

Diz Dromgoole: "É uma maneira de marcar dois aniversários importantes, mas também de celebrar o fato de que Shakespeare é um artista extraordinário, cujo alcance geográfico, acredito, seja maior que o de qualquer outro escritor na história da humanidade. E os temas ligados a pais e filhos, rebelião e depressão, parecem bastante universais. Hamlet é uma peça tão versátil que pode responder de maneiras muito diferentes em lugares diferentes. Em alguns ela será desafiadora, em outros, inspiradora, em outras consoladora".

O "ser ou não ser" do Teatro Globe com certeza foi respondido afirmativamente.

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