OPINIÃO

GringoView: O Fim do Circo

Esperemos que o sedutor sonho de fugir com o circo não se perca para sempre.

16/05/2017 12:51 -03 | Atualizado 16/05/2017 12:51 -03
chaoss via Getty Images
As primeiras apresentações circenses eram feitas com malabaristas, acrobatas e palhaços.

Quando eu era criança, fugir de casa para entrar no circo era meu sonho predileto. A mera idéia do cheiro de serragem e dos animais, a vida errante dos trapezistas e dos artistas da corda bamba que desafiam a morte, a pipoca e o algodão doce evocavam um paraiso quase bom demais para ser verdade.

A chegada do circo na cidade era o ponto alto do ano. Então este gringo ficou mesmo muito triste quando, no verão passado, o Big Apple Circus anunciou sua falência e o encerramento de suas atividades, pondo fim a 38 anos de encantamento para crianças e adultos durante a época do Natal em Nova Iorque.

De alguma forma, o Lincoln Center em sua austeridade arquitetônica tornou-se um lugar menos acolhedor sem a tenda alegre e multicorida do Big Apple dominando o primeiro plano.

Agora, o Ringling Brothers and Barnum and Bailey, o circo mais histórico do mundo, fundado em 1871 pelo grande showman P. T. Barnum, é forçado a dobrar sua tenda. Ele é vítima de uma era onde a mágica é cada vez mais oferecida por aparelhos eletrônicos disponíveis 24 horas por dia.

Kenneth Feld, o chefe de 69 anos de idade da companhia dona do circo, se queixou de "um mercado implacável. Ficou difícil demais para o circo manter seus fãs mais cruciais: crianças de olhos arregalados e seus pais nostálgicos. Aconteceram mais mudanças na última década do que nos 70 anos precedentes".

Tais mudanças afastaram nossos jovens digitalmente sofisticados do prazer de assistir intérpretes de carne e osso darem tudo o que têm para encantar a plateia e ganhar seus aplausos. Sejam cavaleiros realizando acrobacias em volta do picadeiro a 40 km/h, um domador de animais persuadindo seus elefantes a dançarem com a música da banda, ou uma família de macacos imitando os macacos da plateia, todos os grandes números do circo são o resultado de anos de trabalho duro, frequentemente iniciado na infância dos filhos de artistas circences.

Cada vez que um artista toma o centro do picadeiro e realiza seu número, ele se arrisca a falhar e, segundo a tradição do circo, repetir o "truque" até que acertar.

Todo o brasileiro que eu consultei guarda memorias felizes do circo de sua infância: os palhaços, os acrobatas, os mágicos e os animais. Circos itinerantes ainda fazem parte da cultura popular e a tenda do circo no meio de cidades rurais é o tema favorito dos artistas naïve brasileiros.

Mas tal qual seus irmãos Yankees, estes circos atravessam períodos difíceis. O Circo Marambio, quarta geração de uma família circence em temporada em São Paulo tem malabaristas, corda bamba, trapezistas e palhaços. Todos estão inseridos na narrativ, "A Ilha dos Macacos", que trata de um cientista piloto de planador que cai numa ilha habitada por macacos e descobre um mundo novo onde homem e natureza se respeitam e aprendem mutuamente.

Intencionalmente ou não, ouvem-se ecos do Cirque du Soleil, o sucesso internacional que, desde o inicio da década de 90, tornou-se mundialmente conhecido com até 10 produções diferentes sendo apresentadas em diversas cidades do mundo ao mesmo tempo.

De uma forma ou de outra, os circos existem desde a época dos Romanos, quando animais exóticos impressionavam as multidões, enquanto malabaristas e acrobatas divertiam os convidados entre as lutas ou corridas. As primeiras apresentações eram feitas com malabaristas, acrobatas e palhaços; os números com animais surgiram mais tarde.

Tradicionalistas do circo dizem, com razão, que o Cirque du Soleil não é um circo de verdade, apesar das montagens brilhantes. É um show cheio de brilho, mas que carece do realismo essencial da arte circense, aquela mágica especial que conectava aquelas "crianças de olhos arregalados e seus pais nostálgicos" aos intérpretes profundamente humanos no picadeiro.

À medida em que os grandes picadeiros vão fechando por falta de público e patrocínio, haverá uma volta à intimidade do circo familiar tradicional ou terá a mágica artificial do mundo digital destruído uma das nossas mais duradouras tradições? Esperemos que o sedutor sonho de fugir com o circo não se perca para sempre.

PS: Como ex-diretor do Big Apple Circus, este gringo emocionou-se ao saber que, como resultado de um leilão ordenado pelo tribunal de falências, o circo vai voltar neste outono para a temporada 2017-2018. A data coincide com o aniversário de 40 anos da primeira apresentação do circo, em 1977. O Lincoln Center e o público nova-iorquino não terão perdido seu tesouro, pelo menos por enquanto.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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