OPINIÃO

GringoView: O fim de uma era

06/01/2016 16:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Meu bom amigo Tim Foote morreu alguns dias antes do Natal. Tinha 89 anos. Ele era mais que um amigo. Era um editor e escritor prolífico, um guru e inspiração para uma geração de escritores. Temo que não façam mais gente como Tim.

Felizmente (para quem lê inglês), muito dos seus melhores textos estão reunidos num site cujo nome é um trocadilho: "footnote" significa nota de rodapé. Eles abrangem vários assuntos: julgamentos de cães, feminismo, Harvard, Peter Breugel, W.H. Auden, James Madison, a corrida de vela America's Cup, a muralha de Adriano, Midway Island, O Rochedo de Gibraltar.

tim foote

Tim era o tipo de editor de entusiasmo contagiante, mas cujo desejo era tirar o melhor de seus escritores, o que significava que ele em geral era supercrítico. As palavras lhe eram caras, e quando reclamava simplesmente dizia: "Todo mundo precisa de um editor". Era o mestre das broncas, mas só quando elas eram realmente merecidas. Em uma resenha publicada na revista Time em 1980, escreveu:

"Essa é a primeira biografia acadêmica completa de e.e.cummings. Em parte por causa do caráter de cummings, lê-la é como lutar num vagão cheio de penas. A carga faz cócegas, e o volume tem pouco peso."

Tim morou em Paris durante muitos anos como correspondente das revista Life e Time. Como muitos, ele tinha uma relação de amor e ódio com os franceses, mas, no fim das contas, o amor sempre se sobrepunha à irritação e à frustração. Artesão das palavras, ele adorava os jogos de palavras em francês.

Totalmente fluente, ele era um mestre do repartee (expressão coloquial para definir uma conversa ou fala espirituosa), a esgrima verbal que os franceses tanto amam e na qual detestam ser derrotados por gringos. Certo dia, tínhamos um encontro com o distinto editor Robert Laffont. Chegando ao seu escritório, encontramos um cocker spaniel feliz da vida dormindo embaixo da mesa da secretária.

Depois das cortesias de costume, Tim apontou para o cachorro e perguntou: "É um dos seus editores?"

"Ah, não, monsieur Foote", respondeu a secretária. "Ele está aqui só para comer os autores ruins."

Achando que se daria bem na brincadeira, Tim disse: "Ele não deveria ser mais gordo?"

Ao que a secretária, olhando com cara triste para o cão, retrucou: "Ah, pobrezinho, na Hachette (grande concorrente da Laffonte) ele seria." Gol de placa!

Ele perdeu aquela, mas era um especialista em repartee e colecionava avidamente o que o escritor Peter DeVries descreveu como "prepartee", que "envolve esperar e esperar com uma frase boa na ponta da língua até aparecer uma abertura na conversa. Exemplo: você espera até que uma alguém sentado ao seu lado na mesa do jantar diga: 'Me pergunto por que Dempsey era chamado de 'rei dos pesos-pesados'. E aí, você responde rápido: 'Porque ele tinha uma direita divina'".

Quando o lembrei que foi uma pauta sobre o então ascendente balé de Stuttgart que lançou minha carreira de jornalista de dança e cultura, duas áreas sobre as quais eu conhecia pouco, sua resposta foi típica. "O que importa nas pautas é se o jornalista tem energia, percepção, talento, conhecimento e, ouso dizer, colhões para cair de paraquedas na pauta e fazer o futuro funcionar."

Tínhamos uma afeição particular por golden retrievers. Ele escreveu um artigo a respeito do assunto para a revista Smithsonian, onde trabalhou depois de sair da Time:

"Às vezes coço a orelha dela e digo que ela é a cachorra mais linda e habilidosa do mundo. Não é nada além da verdade, mas ela adora ouvir. Ela me fita com atenção total e olhos castanhos cheios de amor. Mas seu olhar de alguma maneira se dirige ao bolso onde estão os biscoitos caninos."

Olhando para o cenário mundial de hoje, Tim lamentava a perda de qualidade e de padrões, seja na escrita ou no mundo em geral. "A televisão", escreveu ele, "transformou o jornalismo em entretenimento, e o zeitgeist, ou o que quer que tenha acontecido depois dos anos 1960, leva o entretenimento cada vez mais em direção às fofocas de celebridades, sexo e escândalo".

Ele gostava de lembrar aos interlocutores que Thomas Jefferson, mesmo proclamando que ficaria tudo bem se todos tivessem o direito de votar, também afirmou que "só um eleitorado educado pode fazer uma democracia florescer" e que, ao redor do mundo, estávamos rapidamente perdendo esse "eleitorado educado", nos iludindo com a ideia de que a maioria estava sempre certa.

Tim escreveu:

"George Bernard Shaw, um vegetariano, costumava dizer que esperava ser levado ao céu por todos os animais que ele não comeu. Como carnívoro, tenho de me agarrar à esperança de que mais de uma centena de matérias, oferecidas como prova de diligência e sólidas intenções politicamente incorretas, sejam suficientes para São Pedro."

Ele merece nada menos que isso.

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