OPINIÃO

GringoView: Lições amazônicas de Leandro (FOTOS)

24/04/2014 12:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
Peter Rosenwald

Na natureza não existe começo, meio ou fim: ela é um contínuo atemporal.

Em nenhum lugar isso é mais evidente do que quando se está sentado numa pequena canoa no rio Negro, no meio da selva amazônica, sob um céu brilhante de estrelas e na companhia de um índio amazônico extraordinário, Leandro Hélio de Souza.

Leandro é um dos guias da excepcional Anavilhanas Jungle Lodge. Ele conduz convidados em excursões na floresta, fazendo paradas frequentes para compartilhar seu amor pela natureza, para ensinar crianças e seus pais a se pendurar em cipós, como Tarzans, ou a remar uma canoa entre as copas das árvores que se erguem sobre ilhas inundadas na estação das chuvas. Imagine uma paisagem surreal e mística onde muitas vezes é impossível saber o que está acima da água e o que é reflexo no espelho escuro dela, um lugar onde você se sente voando em outro mundo. Esse é o mundo de Leandro.

Lições amazônicas de Leandro

Nesta noite há um relâmpago distante e então o crepitar forte de trovões. Leandro conta que, quando era criança e trovoava, sua avó chamava as crianças - havia 11 - dizendo que elas deviam ter feito alguma coisa para deixar os deuses bravos e interrogando cada uma sobre o que tinha feito durante o dia todo, procurando alguma ofensa contra a natureza que pudesse ter causado as trovoadas.

"Aprendemos o quanto fazemos parte da natureza", ele diz. "Aprendemos que, embora a gente caçasse e matasse animais, pescasse e tirasse plantas da natureza, nunca devíamos pegar mais do que precisávamos para sobreviver. Até hoje sinto dor profunda quando vejo uma pessoa fazendo uma crueldade com um animal ou uma pessoa e quando vejo a natureza sendo agredida. Isso não é natural, e temos que pagar um preço terrível por essas coisas."

O pai de Leandro era chefe da tribo macuxi, do norte do Brasil, que tinha 18 mil pessoas. Ele queria que Leandro se tornasse chefe, como ele, e o sujeitou a uma série de provas de iniciação como homem - caminhar sobre carvão em brasa, colocar a mão dentro de uma colmeia de abelhas, colocar óleo de malgeba nos olhos. Leandro tinha apenas 13 anos e devia demonstrar sua força, não a dor que sentia. Mas aquilo que ele descreve como "falsa virilidade" não era para ele. Ele rompeu com seu pai. Diz ter certeza de que o pai estava possuído por um "demônio" e se tornaria algo muito ruim. Os dois nunca mais se viram.

Foi com sua avó, seu avô e sua mãe que ele afirma ter aprendido as lições e os segredos da floresta. Ele aprendeu sobre as plantas e suas propriedades medicinais, as árvores e como elas podem ser usadas para fornecer tudo, desde cordas até agua, e os animais, como vivem e onde encontrá-los. Leandro aprendeu a arte da sobrevivência na selva e como construir um abrigo de folhas de palmeira em poucos minutos, bastando alguns movimentos do facão. Sobretudo, porém, aprendeu a ouvir a música da natureza, a sintonizar seus olhos e ouvidos e enxergar tudo à sua volta.

Para estar em sintonia com a natureza, ele diz, é preciso ter em primeiro lugar amor, e, em segundo, respeito.

"Esse é o problema do mundo hoje", fala Leandro com tristeza profunda. "Quando tivemos o ciclo da borracha, todo o mundo dizia que ela duraria para sempre e que todos ficariam ricos. Então o ciclo acabou, as pessoas perderam seu dinheiro e não tinham mais nada. A mesma coisa aconteceu aqui no ciclo da mandioca. As pessoas passaram a plantar mais e mais mandioca, trabalhavam o dia todo e a noite toda. Perderam tudo de vista, tudo menos o dinheiro. E quando o ciclo acabou e o dinheiro parou de entrar, elas ficaram sem nada. Tinham perdido o amor e o respeito. Antigamente pensávamos que tínhamos água sem fim. Agora enfrentamos uma crise de seca."

"Por que não podemos aprender a desfrutar o que temos, ouvir a natureza e viver em sintonia com ela?"

Ele então aponta para uma árvore e em voz baixa diz que, alojada em seus galhos, há uma preguiça. Ele alcança uma lanterna forte que está no chão da canoa e ilumina o topo da árvore, projetando-a no animal. Como ele conseguiu vê-lo tão claramente no escuro? Isso nós só podemos imaginar.